Watchmen

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Catorze anos depois da exposição apresentada na Amadora que dava a conhecer a obra de Alan Moore, o mês de Junho de 2016 assinalou finalmente a edição portuguesa de alguns títulos fundamentais da obra do autor britânico, e em Julho chega Watchmen, a melhor história de super-heróis contada em banda desenhada.

Dick Giordano, na altura vice-presidente da DC Comics, tinha adquirido para a editora a linha de personagens da defunta editora Charlton (algumas das quais tinham sido criados por ele próprio), e pretendia algum tipo de aproveitamento para essa linha.

Entretanto, Alan Moore trabalhava com Dave Gibbons a ideia de um novo projeto, celebrando o facto de estarem entre os primeiros “invasores britânicos” da cena norte-americana. Tinham já estabelecido que o novo projeto se iniciava com a descoberta da morte de um super-herói. Orientaram a ideia no sentido do aproveitamento das personagens da Charlton e submeteram a proposta a Giordano. Dick Giordano gostou da ideia, mas no final da história as personagens não ficavam muito bem tratadas, o que não correspondia exatamente ao aproveitamento que tinha em mente para tais personagens. Nessa medida, solicitou a Alan Moore que utilizasse o projecto com novas personagens. Para Moore, ficava em risco a familiariedade das personagens, mas ainda assim tomou as personagens da Charlton como ponto de partida directo para novas personagens cuja caracterização exigiu um esforço redobrado: The Question tornou-se Rorshach, NightShade tornou-se Silk Spectre, Captain Atom tornou-se Dr. Manhattan, Blue Beetle tornou-se Nite-Owl, The Pacemaker tornou-se The Comedian, Peter Cannon – Thunderbolt tornou-se Adrian Veidt. Juntos eram os Watchmen.

A colaboração com Dave Gibbons em Watchmen revela-se uma das mais extraordinárias da história da banda desenhada, com ambos os autores apostados na excelência do trabalho, contribuindo para o desenvolvimento das ideias do outro.

Verdadeiramente, Watchmen traduz a aplicação de toda a carreira anterior de Alan Moore em colaboração:

  • de Marvelman/Miracleman vem o tema da transformação da sociedade pelo (conceito do) super-herói. Moore volta a questionar o super-herói e a sua legitimidade para definir moral e moralidades, sendo que, no mundo alternativo de Watchmen, os super-heróis levam à vitória americana no Vietname e à reeleição de Nixon, entre outros factores.
  • De V de Vingança vêm as técnicas narrativas do realismo, sem onomatopeias, balões de pensamento ou cartuchos (agora numa grelha fixa de nove vinhetas por prancha, inspirada pelo trabalho de Harvey Kurtzman e seguindo sugestão de dave Gibbons). Vem também a reação político-social, expondo Reagan como V expusera Tatcher, num cenário social ficcionado.
  • De Monstro do Pântano vem a adaptação do super-herói à nova realidade, e o experimentalismo das possibilidades narrativas, levando a banda desenhada a um nível de elevação literária a que poucas vezes chegou. A história que compunha o esqueleto da proposta apresentada a Giordano cede o protagonismo à forma de contar. Novos recursos técnicos, como a autonomização da cena como unidade narrativa ou a utilização do “flash-back” na sequência do tempo presente, vão ganhar lugar na gramática da BD. É uma evolução orgânica visível na própria estrutura de Watchmen, em que nenhum pormenor é deixado ao acaso. Neste aspeto, destaque também para o brilhante trabalho de cor de John Higgins, fazendo uso de tonalidades até então pouco vistas nas páginas dos comics.

O pós-WATCHMEN e a própria regulação dos direitos derivados da inovadora série levam a um conflito aberto entre Alan Moore e DC Comics. Depois da Marvel, é a porta da DC que Moore fecha sem qualquer lamento, em termos que se afiguravam definitivos, alterando o rumo da história da banda desenhada norte-americana.

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