Vanguardismo na BD: Quem és e para onde vais!?

É vulgar co-existirem dois equívocos que se costumam cometer quando se faz crítica de Banda Desenhada:

  1. Entendê-la como um produto menor, o qual só terá ressalva caso seja ‘educativamente’ correcto. Evidentemente, o normal é que suceda o inverso, isto é, que a BD seja representante das ideologias mais dogmáticas e estatizantes, prepotentes e castradoras da liberdade criativa até dizer chega! Sob tal ponto de vista, só raras produções, muito comprometidas politicamente, são tidas em linha de conta. Na realidade, tudo obedece a uma visão que valoriza de forma muito distinta os produtos chamados ‘artísticos’ face aos ‘meios de massas’. Nestes últimos, as finalidades são diferentes dos primeiros, pois as obras que não cumprem a função a elas atribuída, e somente procuram entreter, são alienadas e detestáveis, conceito intimamente ligado ao 2º equívoco.;
  2. Entendê-la como mais uma derivação da ‘arte’ e, desse modo, buscar nela as virtudes sancionadas positivamente pelo movimento dito ‘moderno’. Dado que estas virtudes chocam frontalmente com algumas das características mais próprias da BD, chega-se ao ponto de se defender produtos cuja arte final pode ser adequada na pintura mas que – por norma – é contraproducente na Banda Desenhada.

A relação entre ambos os erros é óbvia, penso eu. Parte-se de um princípio de separação.

Desde que surgiu a questão entre o original e a cópia, com os actuais meios de reprodução, há quem venha reflectindo sobre isto. O tempo parece ter estabelecido duas posições: por um lado, certas artes tradicionais, dedicadas a uma minoria, e por outro uma comunicação contemporânea que é devorada pelas massas.

Certa corrente cultural quer-nos fazer crer que esta última, dado que está condenada a ser entendida por uma maioria, é pois mais pobre que a primeira. É conceptualmente menos burilada, experimentalmente menos arrojada e, em geral, menos interessante. É, contudo, também mais barata e acessível.

O esvazamento de conteúdos que recentemente tem surgido, é realmente preocupante, o que me faz ficar incrédulo quando tanta gente vê nisso uma virtude. Esta posição de elogio por parte dos críticos – nacionais e estrangeiros – à falta de mensagem aparente nas produções, brada aos céus! Então, agora (por exemplo) uma pintura necessita obrigatoriamente de alguém que a explique, uma espécie de médium, para traduzir em palavras e ideias aquilo que as pinceladas são incapazes de transmitir?!

Sempre a arte funcionou em termos de explicação, de ordenamento do caos, de testemunho dos problemas humanos, chegando a propor novas perspectivas.

O vanguardismo, até na BD, parece pois prolongar-se ruma a um caminho sem saída, cómodo para os extractos da sociedade que não se dão ao trabalho de fazer perguntas, de questionar os porquês da obra feita. Sem falarmos, de resto, no que ele permite como camuflador das limitações artísticas de quem o adopta.

Quando se fala de 9ª arte, falamos de um meio de expressão que une literatura, cinema e ilustração e que, por outro lado, difere deles. Falamos da relação de diversificados factores que se reuniram para colocar no papel uma narrativa gráfica, para contar uma história visual. Se algum destes factores falha, a obra falha.

Se não falamos de desenhos ‘bonitos’ , mas de desenhos que se relacionam entre si, haverá que pensar na funcionalidade do traço e da planificação, ou não será?

O que um artista de BD deve prosseguir com o seu trabalho é precisamente que as figuras e os fundos expressem a cada momento, vinheta a vinheta, o que devem, visto que aquele autor que não subordinar o seu estilo borra a opa.

Pretendendo assumir a modernidade, gera-se um novo tipo de academismo, o pior de todos, o das vanguardas. De novo, a pretendida liberdade criativa traduz-se numa agressiva série de dogmas. Dogmas que proíbem o acesso à explicação. Vale tudo!…

Ou isso ou a contradição de exigir à BD um compromisso que não se pede aos outros produtos que habitam no limbo da Arte.

Acredito que a crítica deve analisar sim, a narrativa que nos oferece, os meios utilizados para veiculá-la e a correspondente relação entre si. Há que se estar acima das modas. Só o compromisso com as editoras ou outras formas de poder poderá explicar atitudes diferentes desta.
Está tão arreigado o hábito de pensar que o ‘bom’ em arte é complicado e sinuoso que , quando aparece algo que não é assim a tentação é menosprezá-lo. Automaticamente.

Tenha-se presente as discussões em torno de coisas como se a BD é ‘narração figurativa’ ou ‘figuração narrativa’ e tantas mais dissertações estéticas do género. Não é isso o que realmente está em jogo.

Se um trabalho se produz, não para cair no goto de uma certa classe privilegiada, mas sim a partir do compromisso e do respeito pela pessoa comum, e se esse trabalho sai bem, forçosamente terá de ser ‘muito bom’.

Até porque, difícil, difícil, é realizar coisas simples, comunicativas e universais.

Um texto da autoria de Fernando Vieira, jornalista, em tempos responsável pela rúbrica Bedelho no jornal Barlavento. Este texto foi originalmente publicado em Julho de 1992 no fanzine CaféNoPark nº 02
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8 Comments

  • Comecei a ler este texto e fiquei na dúvida se estaríamos realmente em 2014, porque os dois equívocos apresentados pelo autor são eles próprios dois tremendos equívocos que se vão espalhando, quase parágrafo a parágrafo, pelo texto até ao final.

    Mas no fim leio que o texto foi publicado em 1992. Está assim quase tudo explicado, ainda que nessa data e em Portugal já se podia andar vem mais informado sobre “arte moderna” e sobre “…produtos cuja arte final pode ser adequada na pintura mas que – por norma – é contraproducente na Banda Desenhada.” Por norma? Desde quando? Passou-me ao lado essa norma… e ainda vem!

    • Eu hoje estou um bocado lento, não consegui compreender qual era a tua argumentação para além do ponto de que o autor do texto estava equivocado.

      O texto apesar de já ter uns aninhos até continua actual quer para pessoas bem informadas, quer para as mal informadas. Sendo que a nível de arte moderna, ainda recentemente tivemos um exposição de “arte invisível” que consistia num galeria com as paredes vazias.

      • Então, esclareço aqui apenas dois ou três pontos:

        Primeiro:
        Partindo do princípio que queremos ser compreendidos, devemos desde logo não confundir conceitos: o termo “arte moderna” refere-se às vanguardas artísticas surgidas no final do séc. XIX e que foram exploradas até meados do séc. XX, e não à arte realizada hoje no sentido lato do termo, essa é referida como contemporânea.
        (já agora Bruno, a que exposição de “arte invisível” é que te referes?)

        Segundo:
        A banda desenhada “…une literatura, cinema e ilustração…” Cinema???

        Terceiro:
        “Se um trabalho se produz, não para cair no goto de uma certa classe privilegiada, mas sim a partir do compromisso e do respeito pela pessoa comum, e se esse trabalho sai bem, forçosamente terá de ser ‘muito bom’.”

        Classe privilegiada? Pessoa comum? Termos como estes não dizem absolutamente nada em concreto e multiplicam-se pelo texto, que de actual não tem quase nada, tirando o facto do seu autor defender – mas com má argumentação porque contradiz-se quando considera a possibilidade de classificar trabalhos “forçosamente” de muito bons – uma bd mais popular e comercial em detrimento de uma bd mais “moderna” e de vanguarda.

        Mas serve para gerar discussão de ideias, sim, porque é evidente, ainda que incompreensível nos nossos dias, o desconforto que causa poder-se afirmar que se gosta de arte popular e arte de vanguarda, e assumir que cada uma tem mais valias, e defeitos, claro, mas que essas características não impedem a sua convivência.

      • A arte era tão moderna que se tornou contemporânea sendo que aquilo a que nos estamos a referir não se alterou na substância.

        Neste link tens informação sobre as exposições de arte invisível (que existiram e as que não existiram) e que permite ver até que ponto as criticas apontadas à “arte moderna” ou, se preferires, “arte contemporânea” não deixou de ser actual.

        Se não compreendes a relação da BD com o cinema, sugiro que leias “Comics and Sequential Art” de Will Eisner, é também um trabalho antigo (e obviamente desactualizado) mas continua a ser um excelente tratado sobre BD.

        Conceitos como “classe priveligiada” e “pessoas comuns” é cada dia um conceito mais actual, porque existem realmente classe priviligiadas.

        “Então, agora (por exemplo) uma pintura necessita obrigatoriamente de alguém que a explique, uma espécie de médium, para traduzir em palavras e ideias aquilo que as pinceladas são incapazes de transmitir?!”

        Se isto é debativel no contexto de artes plásticas torna-se quase absurdo debater num contexto de banda desenha, que tem como caracterista ser uma “arte sequencial”, ter uma narrativa, contar uma história.

        Já agora onde é que viste no texto que se devia priveligiar “uma bd mais popular e comercial em detrimento de uma bd mais “moderna” e de vanguarda”, é que o único local onde surgem termos como “popular” e “comercial” é no teu comentário…

      • A “Arte Moderna” não se tornou “Arte Contemporânea”. São conceitos diferentes (ou então todos os livros de História de Arte estão errados).

        O Monet foi na sua época gozado pela sua técnica de pintura, chegando-se a afirmar que: Um papel de parede é mais elaborado que esta cena marinha, referindo-se certo crítico à sua seminal Impressão, nascer do Sol de 1872.

        E isto: “Então, agora (por exemplo) uma pintura necessita obrigatoriamente de alguém que a explique, uma espécie de médium, para traduzir em palavras e ideias aquilo que as pinceladas são incapazes de transmitir?!”, foi muito provavelmente o que muitos pensaram desta obra do Monet.

        O artigo do Guardian que referes é pouco sério porque assume que a exposição invisível da Lana Newstrom foi uma notícia falsa criada por uma rádio para logo a seguir criticá-la pela falta de originalidade; assume que quem frequenta galerias de arte são pessoas ricas: é ridículo ter de afirmar isto mas eu frequento e não sou rico e reduz o trabalho de autores que trabalham a luz e o som a meras salas vazias. Mas é um tipo de texto muito comum em “critica” de arte onde o autor o que pretende é ser polémico e espirituoso e não realmente esclarecer os leitores.

        Já li o Comics and Sequential Art do Eisner (não na versão livro mas na The Spirit Magazine) e claro que concordo que é um excelente tratado e curiosamente é o próprio Eisner a referir que as sequências de “frames” na bd são bem diferentes das sequências cinematográficas. Mas porque é que assumes que eu não compreendo a relação da BD com o cinema? É obvio que há relação, mas não união.

        Volto a insistir, e sempre no contexto da banda desenhada (e não em questões políticas e sociais), esta frase não tem lógica nenhuma: “Se um trabalho se produz, não para cair no goto de uma certa classe privilegiada, mas sim a partir do compromisso e do respeito pela pessoa comum, e se esse trabalho sai bem, forçosamente terá de ser ‘muito bom’.”

        A BD tem como característica ser uma “arte sequencial”, ter uma narrativa, contar uma história; sim claro, todos concordamos, de forma muito geral, com isso mas existem sequências narrativas não lineares e histórias de cunho, por exemplo, surrealista como as que fizeram parte do movimento underground dos anos 60 e 70. São obras falhadas por não comunicarem algo de forma simples e universal?

        Para terminar,
        Parece-me óbvio que o texto defende os méritos de uma bd mais popular e comercial (são termos meus) em detrimento de uma bd mais de vanguarda, mas pode ser engano meu…

      • É capaz de ser um engano por estares contaminado por uma dualidade caracteristica da contemporaniedade que te tolda o julgamento sobre um questão da modernidade, fazendo com que tenhas um opinião equivocada.

        Não me vou dar ao trabalho de criticar o artigo do Guardian, indiquei o link para te elucidar sobre uma pergunta que efectuaste-te. Se a exposição é facto ou ficção fica a teu critério, mas as criticas de falta de originalidade não são exclusivas do Guardian, e reflectem com a vanguarda contemporânea é moderna.

        Existe uma diferença entre quem frequenta galerias e quem alimenta as galerias – compra as obras – sendo que regra geral são a tal classe priveligiada (que dizes ser inexistente). O resto da populaça limita-se a comprar reproduções de arte, seja com prints ou BD.

        Os méritos ou deméritos da BD underground norte-americana dos anos 60 e 70 deixo ao teu criterio para desenvolveres. Agora gostava de saber era se são arte moderna, contemporânea ou de vanguarda…

        Já agora uma história ser linear ou não linear torna automáticamente um trabalho em obra de “vanguarda”, “popular” ou comercial?

        Maus e Watchmen são dois trabalhos “não-lineares” que foram êxitos de crítica, sucessos comerciais e obras bastantes populares que conseguiram até captar públicos que não consumem usalmente BD.

        Ainda bem que consegues ver as infuências do cinema na BD, creio então que o que tu consideras um equivoco é unicamente se é uma questão de “relação” ou “união”, ou seja é uma discussão semelhante aquela que o artigo faz referência sobre “arte figurativa” ou “figuração narrativa”.

  • Só para salientar que o artigo é mais sobre a crítica de BD do que sobre os méritos (e deméritos) da dita BD de vanguarda. sendo que o foco do artigo é a valorização do impreceptível desvalorizando o perceptível.

    É sobre a valorização excessiva dos trabalhos que precisam de tradutor, aqueles que são defendidos com base em mérito alheios: “Se calhar também disseram isso de Monet”, do que com base em méritos próprios.

    Existem uma têndencia de evocar os grandes – Monet, Picasso, Rembrandt e o Camandro – para exemplenficar como existe grande arte que não foi apreciada dos pelos seus contemporâneos e cujo valor foi colocado em dúvida devido “ás mentes pequenas”. Geralmente esta linha de pensamento ignora é que por cada Monet, existe um centena de artista da treta que não são apreciados e ignorados pelo público simplesmente derivado à sua falta de talento.

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