V de Vingança

Catorze anos depois da exposição apresentada na Amadora que dava a conhecer a obra de Alan Moore, no mês de Junho foi finalmente editada a edição portuguesa de alguns títulos fundamentais da obra do autor britânico, incluindo V de Vingança, que inaugura nova coleção de novelas gráficas Levoir / Público.

Na revista Warrior, o pagamento não era muito significativo, mas os direitos sobre o que se criava eram garantidos. Esta diferença de paradigma prometido permitiu envolver alguns dos maiores nomes da BD inglesa da atualidade. Do elenco do primeiro número constam John Bolton, Steve Dillon, Dave Gibbons, Pedro Henry (Steve Moore), Gary Leach, David Lloyd, Alan Moore, Steve Moore e Steve Parkhouse.

Na Warrior, a partir de 1982, Alan Moore torna-se num argumentista de culto, sobretudo a partir de dois grandes clássicos: Marvelman e V for Vendetta.

Em V for Vendetta (publicado em edição portuguesa em Junho com o título V de Vingança), o conflito entre o homem e o meio é totalmente transportado para a ficção, sob a forma de conflito político entre anarquia e fascismo (as duas formas fundamentais de política, segundo Moore). Moore situa a Terceira Guerra Mundial em 1988, e a ascenção do fascismo ao poder inglês em 1992. A acção decorre na Inglaterra de 1997, em que a sociedade está tomada pelo medo. Evey, uma jovem cuja situação económica a força a prostituir-se, encontra no seu primeiro cliente um polícia à paisana. Em risco de ser violada, é salva por uma enigmática figura vestida à Guy Fawkes e conhecida apenas por V.

V for Vendetta é uma colaboração com David Lloyd, com quem Moore já trabalhara no Dr. Who da Marvel UK. No número 17 de Warrior Moore explica o processo criativo em colaboração. É por sugestão de Lloyd que se afastam as onomatopeias e balões de pensamento. Moore acrescenta-lhe a supressão do cartucho: a narrativa assenta no diálogo. O realismo introduzido por estas técnicas vai permitir a melhor caraterização das personagens e a definição de um ambiente de extrema violência em que, no entanto, nada é mostrado ao leitor: tudo é implicitamente conhecido e aceite como presente. Com o desenvolver da série, V for Vendetta torna-se mais crítica e reflexiva, questionando a anarquia, o fascismo e a própria violência: à morte de um fascista sem escrúpulos segue-se o sofrimento da família e a angústia do funeral.

O trabalho de Moore na revista Warrior foi muito premiado pelos Eagle Awards, e começou a despertar interesse para lá do Atlântico. Len Wein, argumentista que criou o Monstro do Pântano (Swamp Thing) com Bernie Wrightson, entra em contacto com Moore (através de Dave Gibbons), propondo-lhe que dê continuidade ao argumento de Monstro do Pântano para a DC Comics, um dos dois gigantes editoriais dos Estados Unidos da América, a editora de Super-Homem e Batman. Seria a DC Comics a publicar a conclusão de V for Vendetta, agora em versão colorida.

Em 2002, a Amadora tomou a iniciativa de organizar uma grande retrospetiva sobre o trabalho de Alan Moore. David Lloyd foi um dos autores presentes na inauguração da mostra, que, entre muitas curiosidades, contava com um guião de um episódio da história que acabou por ser abandonado pelos autores e permaneceu inédito.

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