A Última Nota, de André Mateus e Filipe Duarte

A Última Nota de André Mateus e Filipe Duarte
Mais uma edição da Escorpião Azul lançada no Amadora BD, a apostar em novos criadores da BD portuguesa.

A Última Nota é uma leitura divertida e leve, com falhas estéticas e narrativas que teriam sido limadas com um verdadeiro trabalho de edição. Algo que é um padrão, na oferta editorial da Escorpião Azul.

Fantasmas do passado

O que é que Alexandre, um pacato jornalista encarregue dos obituários de um jornal, tem em comum com Zé, uma estrela pop que causa histeria nos seus concertos? No passado, estiveram ambos apaixonados pela mesma mulher. Um amor que lhes moldou a vida, apesar desta ter seguido caminhos diferentes. Um tornou-se escritor falhado, outro, apesar do sucesso estrondoso, também sente o seu percurso como falhanço. Um passado esquecido, redescoberto no funeral da mulher que amaram na juventude. E um reencontro com um propósito estranho. Obcecado com o mito dos 27 anos, Zé quer tornar-se mais um músico a perder a sua vida com essa idade. Planeia suicidar-se, e convida Alexandre para o acompanhar e escrever a nota de suicídio que o imortalizará. Mas ao aproximar-se a data fatídica, Zé muda de ideias, voltando a apaixonar-se pela vida. Alexandre, temendo o regresso ao anonimato, tem ideias diferentes. O resto seria um spoiler demasiado grande para o revelar aqui.

A promessa de A Última Nota

A Escorpião Azul parece especializar-se naquele tipo de livros em que se sente que lhes falta qualquer coisa para serem obras bem desenvolvidas. Não que sejam rascunhos, ou maus trabalhos. Antes, são projetos criados por argumentistas e ilustradores cujo talento se está a desenvolver. Não são propriamente trabalhos maus, mas sim reveladores de que os seus criadores estão a iniciar um longo caminho de aprendizagem narrativa e gráfica. Diria que a editora se posiciona entre os fanzines e edições de autor, excelentes primeiros canais de publicação para iniciados, e o tipo de edição que associamos à banda desenhada de autor em Portugal, quer da mais independente e de vanguarda estética, quer da mais integrada nas estéticas da BD, mangá e comics.

Este A Última Nota cai bem dentro desta categoria de trabalhos promissores que precisam de mais maturidade dos seus criadores. A história de André Mateus parte de um bom ponto de partida, mas acaba por nos levar numa direção previsível numa narrativa com um ritmo assimétrico. Sublinhe-se que um dos seus personagens secundários é fantástico, um perfeito retrato do venal oportunista que vive e enriquece à custa da venda e banalização da capacidade artística dos outros. A nível gráfico, não é muito diferente. O traço de Filipe Duarte revela potencial de crescimento, há pranchas e vinhetas muito bem conseguidas, mas não consegue manter uma uniformidade de qualidade ao longo de todo o livro. Quando o livro se aproxima do final, há momentos visuais mal conseguidos em termos de enquadramento. Conheço pessoalmente este ilustrador, de outros mundos que não o da Banda Desenhada, sei que é um talento promissor em desenvolvimento crescente. Um processo que requer trabalho e edição. Talvez seja este o pormenor que falte aos livros da Escorpião Azul, um trabalho de editor que ajude autores e desenhadores a crescer.

Sintomas estruturais da edição na Escorpião Azul.

Note-se que estes aspetos não transformam A Última Nota num livro mau. É uma leitura leve, rápida, com bons momentos gráficos a compensar a falta de homogeneidade visual e narrativa. Vejo-o como aquilo que pressinto ser, um passo em frente de autores que estão a aperfeiçoar a sua técnica e estética. Em conversa com estes, no Amadora BD, sei que podemos esperar para 2019 mais um trabalho desta dupla. O desafio do editor já partiu e foi aceite. Será interessante comparar e perceber como as suas capacidades narrativas e gráficas se desenvolveram.

É esta a aposta que merece apoio, a da publicação em continuidade de novos autores. Editar autores consagrados é fácil. É, literalmente, sair-lhes da frente e encadernar a produção. Não tanto assim quando falamos de autores em desenvolvimento. Mas trabalhar com novos talentos exige uma responsabilidade acrescida, a de um trabalho cuidado de editor. Desconheço os meandros editoriais da Escorpião Azul, mas pelos resultados, comuns a todas as suas edições, sente-se a ausência de um verdadeiro trabalho de editor exigente e avaliativo, que aponte falhas e sublinhe caminhos que valorizam o desenvolvimento dos autores. As falhas que apontei a A Última Nota não são apenas deste livro, são transversais a todos do alinhamento da Escorpião Azul. Em termos editoriais, o seu trabalho é demasiado similar ao de uma vanity. Sempre que leio os seus livros, o melhor que consigo pensar desta editora é que, bem, existe. Dá espaço aos novos autores. A evolução da BD portuguesa requer um esforço maior.

A Última Nota

Autores: André Mateus, Filipe Duarte
Editora: Escorpião Azul
Páginas: 192, capa mole
PVP: 11 €

6 Argumento

7 Planificação

6 Temática

7 Desenho

6 Arte Final

6 Cor

6 Legendagem

4 Produção

A Última Nota é uma leitura leve, rápida, com bons momentos gráficos a compensar a falta de homogeneidade visual e narrativa.

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