The Walking Dead Volume 14: Sem Saída

Na calma precária de uma comunidade isolada, rodeada de ameaças mortais, pode bastar uma pequena brecha para que tudo se desmorone. Neste novo volume de The Walking Dead, a possibilidade de redescobrir a paz revelar-se-á um sonho sem outra saída possível do que a violência das hordas de zombies.

Walking Dead: Entre o Bucolismo e as Entranhas Descarnadas

Walking Dead 14
Poderá o sabre ter, finalmente, descanso da matança?

 

Convenhamos, o que é que os fãs de Walking Dead mais apreciam? Serão as interligações entre os sobreviventes? Os dramas psicológicos advindos dos traumas profundos de uma luta constante que obriga ao impensável? A tristeza misturada com culpa de sobrevivente perante todos os que perderam? Talvez a nostalgia por uma normalidade para sempre perdida?

Pois. Complexidades narrativas à parte, o que se aprecia mesmo é um bom festim zombie. Cabeças putrefactas esmagadas a bastão, decapitações à catanada,  membros decepados, mergulhos no meio de hordes de criaturas mortas esfaimadas. Nada como a sublimação da carne podre por entre os tiros certeiros que matam os mortos-vivos, esparramando-lhes a mioleira apodrecida por entre os dentes frementes das hordas.

É um elemento que não estando totalmente ausente dos arcos narrativos anteriores da série, não estava a ser preponderante. As dinâmicas dos sobreviventes e sua integração numa comunidade periclitante têm sido o foco de exploração de Kirkman. Os zombies estavam presentes, elementos da paisagem narrativa, mas as histórias exploravam outras vertentes. É um tema válido, que aprofunda a série, e neste décimo quarto volume vai permitir tornar a previsível derrocada ainda mais amarga. Mas fazia falta a catarse apocalíptica que é, convenhamos, o elemento que distingue o apocalipse zombie de outras variantes da ficção de terror.

Walking Dead, Saída Impossível.

Walking Dead 14
Não há laços que resistam à ameaça terminal.

Antes de soltar os seus zombies esfomeados numa comunidade que, apesar de todos os esforços, é apanhada desprevenida, Kirkman dá-se ao trabalho de criar nos seus personagens sentimentos de acalmia e complacência. Após as agruras da integração, a comunidade aceita-os, percebendo nas suas capacidades únicas de sobrevivência uma mais valia para todos. Os nossos personagens relaxam, tentam esquecer os traumas e reconstruir uma certa normalidade. Deixam-se até apaixonar por membros da comunidade, sentido que talvez o seu longo périplo de sobrevivência tenha chegado ao fim.

Tal não será o seu destino, claro. O colapso é inevitável. Uma pequena brecha nas muralhas de betão torna-se o ponto de entrada de uma horda zombie que leva numa enxurrada sangrenta a comunidade. Quase indefesos, com as ilusórias relvas suburbanas repletas de zombies devoradores, todos os laços serão questionados. E, entre o amor recém descoberto ou a família próxima e companheiros de sobrevivência, as escolhas são dolorosas. No momento da verdade, os amores e paixões não são suficientemente fortes para arriscar sacrifícios pessoais, abandonando-os ao quase inevitável destino de refeição da horda zombie. O final é apoteótico, com os sobreviventes rodeados por um mar de mortos-vivos definitivamente aniquilados.

A implacabilidade do final deste arco narrativo, de pura sobrevivência contra tudo e contra todos, com todos os valores morais que valorizamos abandonados na sobrevivência pura, confere a este volume uma força ausente dos anteriores.

The Walking Dead, Vol. 14: Sem Saída

Autores: Robert Kirkman, Charlie Adlard e Cliff Rathburn.
Editora: Devir
Páginas: 136, capa mole
PVP: 14,99 €[/box]

Written By
More from Artur Coelho

Programa do Fórum Fantástico 2017

Fiéis à promessa feita na sessão de apresentação, Rogério Ribeiro e João...
Read More

1 Comment

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *