The Lisbon Studio Series: Silêncio

Silêncio
Depois de Cidades, o coletivo The Lisbon Studio regressa à edição com TLS Series: Silêncio.

Silêncio é uma aposta intrigante, que desvirtua de forma inteligente o marketing tradicional, dando aos leitores de banda desenhada portuguesa uma boa leitura que é, em essência, um mostruário do trabalho dos colaboradores do Lisbon Studio.

Entre BD e Marketing

Silêncio é um tema abrangente, que aqui serve essencialmente como base para um tipo de produção de banda desenhada que por cá não é habitual. Com edição e acabamento muito cuidados, os livros TLS Series não são fanzines, mas também não são enquadráveis na banda desenhada tradicional. Estas antologias não servem para publicar as histórias dos criadores nelas representados. Antes, são um óbvio veículo de marketing, um mostruário dos talentos gráficos dos ilustradores que, de diversas formas, têm colaborado com o espaço The Lisbon Studio. Editar em papel é fazer de forma mais prestigiosa o que já estavam a fazer com a TLS Webmag. É, no fundo, uma forma de promover o trabalho de uma entidade que se dedica a dar espaço aos criadores portugueses, também na BD mas essencialmente na ilustração.

Isso explica as sempre longas e elogiosas introduções a estas antologias, que enaltecem o espaço Lisbon Studio, os seus colaboradores e experiências de trabalho. São, talvez, um pouco mais verdadeiras do que o habitual copy martelado dos press releases ou da publicidade, mostrando o ponto de vista de quem por lá passou. Mesmo o quase ininteligível prefácio de JP Simões para Silêncio. Mas apesar deste caráter mais artesanal, não deixam de ser o que são, um veículo publicitário para os talentos dos criadores reunidos no estúdio. Não vem daí mal ao mundo, é certo. É apenas uma forma inteligente de encarar a edição e a promoção do nome e imagem. No fim de contas, estes artistas são profissionais e a reputação ou os elogios críticos não são moeda corrente para fazer face a despesas.

Os Muitos Silêncios de Silêncio

O Sliêncio está presente, de variadas formas, nas histórias que compõem esta antologia. Algumas decorrem sem diálogos nem palavras, contando-se pela acção e enquadramentos de vinhetas. Noutras, a narração remete-nos para a introspeção, para as vozes silenciosas que ressoam na mente, ou para pausas e reflexões na vida. A antologia reúne ilustradores com forte talento gráfico, acompanhados por alguns dos melhores argumentistas de BD portugueses da atualidade. Como não podia deixar de ser, dado o âmbito e objetivos do livro.

À Luz da Voz, de Darsy Fernandes, abre esta antologia com um toque de fantasia clássica. As criaturas visualmente exuberantes da história mereciam um tratamento de cor. Os encontros e desencontros de uma relação condenada são abordados em Deslumbre por Bárbara Lopes, com aparições de máscaras monstruosas que não se percebe bem o que é que estão lá a fazer. O divertido argumento de Filipe Pina em Monstros é muito bem acompanhado pelo traço estilizado de Nuno Rodrigues.

Com uma composição gráfica impecável e um traço elegante, Marta Teives anima em Sem Rede uma história de encontros inauditos e descobertas de si próprio escrita por Pedro Moura. Monte Morte, escrito por André Oliveira e ilustrado por Jorge Coelho, quebra o esquema preto e branco deste livro, numa história de requintes macabros passada no universo ficcional de Milagreiro. Tempo, de Paula Sousa, é claramente o esforço mais incipiente deste livro, o que se nota quer pela puerilidade da narrativa quer pelo pouco desenvolvimento estético do traço da ilustradora. Era Uma Vez de Pedro Ferreira acrescenta um toque de subversão à antologia, quer pela abordagem meta-ficcional, quer pelo recurso a um estilo visual mais próximo do cartoon do que do realismo individualizado expressivo típico dos autores de BD. Ricardo Cabral encerra com um mergulho visceral e silencioso na fantasia com Ritual.

Há formas piores de promover o trabalho de uma instituição. Com esta aposta intrigante, iniciada em que desvirtua de forma inteligente o marketing tradicional, o coletivo Lisbon Studio mostra o trabalho dos seus colaboradores, e dá aos leitores de banda desenhada portuguesa mais uma boa leitura. Vivemos num excelente momento em termos de edição de BD em portugal, com uma enorme diversidade de títulos traduzidos na área dos comics, fortes apostas editoriais nos criadores portugueses, e uma comunidade de ilustradores que faz valer os seus talentos no mercado exterior. Esta série é mais um sintoma desta boa fase do panorama da banda desenhada portuguesa.

 

TLS Series: Silêncio

Autores: Darsy Fernandes, Bárbara Lopes, Nuno Rodrigues e Filipe Duarte Pina, Marta Teives e Pedro Vieira de Moura, Paula Bivar de Sousa, Pedro Ribeiro Ferreira, Jorge Coelho e André Oliveira, Ricardo Cabral.
Editora: G.Floy/ComicHeart
Páginas: 144, capa dura
PVP: 11,99 €

7 Argumento

7 Planificação

3 Temática

8 Desenho

8 Arte-Final

8 Cor

7 Legendagem

9 Produção

Há formas piores de promover o trabalho de uma instituição. Com esta aposta intrigante, iniciada em que desvirtua de forma inteligente o marketing tradicional, o coletivo Lisbon Studio mostra o trabalho dos seus colaboradores, e dá aos leitores de banda desenhada portuguesa mais uma boa leitura.

7.1
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