The Last Jedi: sem fim no horizonte

Star Wars
Cumprindo o ritual anual, a Guerra nas Estrelas regressou aos cinemas. Não resistimos ao seu fascínio e mergulhamos no mais recente filme da saga.

Chegámos de novo àquela altura do ano em que media e fãs voltam a mergulhar no frenesim anual de Guerra nas Estrelas. Com os planos da Disney para a saga, este tornou-se mais um ritual anual de natal, que se prevê não ter fim à vista. As folhas de cálculos dos estúdios dificilmente ficarão satisfeitas com o nono episódio.

O impacto cultural destes filmes na cultura popular é inegável, ao qual não é alheia a bem oleada máquina de marketing e merchandising. Para fãs de Ficção Científica, esta série traz as suas agruras, especialmente porque o tipo de fantasia que forma o seu universo ficcional está conotado pelo grande público como ficção especulativa. Ir ou não ao cinema ver este filme deixou de ser uma questão. É inevitável. Resta saber se vale mesmo a pena, se compensa o valor do bilhete. Pergunta de resposta óbvia para os fãs, mas nem tanto para os restantes potenciais espectadores.

Aviso à navegação: spoilers.

Nota prévia: este texto vai conter spoilers. Pessoalmente, sou daqueles consumidores culturais em que saber pormenores da história antes de ler um livro ou ver um filme não é assunto não chateia por aí além. Aquilo que é verdadeiramente interessante numa narrativa não são os pontos fulcrais do enredo, são as técnicas utilizadas para contar a história. Capacidade literária, técnicas narrativas e fílmicas, são esses os elementos que nos envolvem profundamente nas histórias, mesmo que a curiosidade sobre o que vai acontecer seja a motivação primordial. Essa curiosidade, note-se, nasce precisamente da boa utilização de técnicas narrativas e audiovisuais, que nos envolvem e despertam para os factos narrados. Se se preocuparem com estes aspectos, sugiro um toque rápido na tecla backspace, ou uma mudança estratégica de url.

Considerem-se notificados.

Star Wars: é melhor não pensar muito nisso…

Entrar na sala de cinema para ver qualquer filme da saga Star Wars obriga-me sempre a desligar partes do cérebro. O sentido crítico de fã de ficção científica, aquele que analisa a plausibilidade e validade dos elementos narrativos face ao mundo ficcional, pressupostos e critérios de qualidade do género, tem de ficar à porta da sala. Senão, é impossível apreciar o filme. Confesso-me daqueles fãs de Ficção Científica que lamenta o efeito negativo que obras populares como Star Wars têm sobre a percepção global deste género literário e fílmico. É intrigante ler notícias sobre a FC como literatura que diminui a capacidade de compreensão dos leitores, ou ser usada como teste para textos criados por inteligências artificiais porque como observa Nelson Zagalo no Virtual Illusion, o género “não é muito exigente em termos de escrita“. Bolas, essa doeu.

As legiões de filmes de série B ajudam à festa, claro, mas pela sua popularidade Star Wars tem um lugar especial neste panteão demonizador. Esta é uma discussão antiga, já muito resolvida, mas quem defende a Ficção Científica enquanto género literário de qualidade merecedor de ser levado a sério, com ideias especulativas estimulantes e boa escrita, tem sempre que apontar esta vertente da saga. Sem prejuízo de ser empolgante, divertida e apaixonante. Mas para ser Ficção Científica é preciso muito mais do que naves espaciais.

Deitando um pouco de gasolina na fogueira, as inconsistências de The Last Jedi começam logo nas primeiras cenas do filme. Quando os rebeldes encurralados enfrentam um dreadnought dos sucessores do império com bombardeiros. Equipados não com mísseis ou armas de raios, mas com bombas. Daquelas que caem naturalmente sob efeito da gravidade. Pronto, vamos esticar um pouco a ideia de imponderabilidade no vácuo do espaço e pensar que a massa enorme do dreadnought seria suficiente para criar um campo gravitacional capaz de atrair massas inertes lançadas sobre ele.

Estão a ver o que quero dizer com desligar o cérebro ao entrar na sala de cinema? São os defeitos típicos da saga. Este nem sequer é o pior exemplo da atitude de neste universo as leis da física não entram patente neste, e nos outros filmes.

O Culto Star Wars

Li algures nas redes sociais que para os fãs (algo que de facto sou, apesar das minhas reservas face ao enquadramento da série no género Ficção Científica), ir ver um novo filme da série é como para um católico ir à missa. Aquele ritual que se repete, mais por obrigação com enfado do que gosto. Foi esse o espírito com que entrei na sala de cinema. Infelizmente, o filme não correspondeu a esta expectativa, e levou-me de rompante numa delirante montanha russa de adrenalina. Algo irritante. Fiquei sem razões para lamentar mais um passo na decadência de Star Wars.

O ressurgir do universo Star Wars é uma daquelas clara manobras de lucro fácil, explorando o mercado da nostalgia dos fãs que cresceram com os filmes clássicos, bem como os novos públicos que se foram formando com o impacto da série. Os desvios à norma actualizam-na, enquanto que as histórias dos novos filmes repetem, essencialmente, as estruturas dos três filmes clássicos.

As prequelas são outra coisa, que é melhor ficar esquecida no panorama geral da saga. O barroquismo de George Lucas, à rédea solta nos episódios I, II e III, estabeleceu os pilares base da história, mas o foco no deslumbre visual com exotismos e efeitos especiais legou-nos filmes vazios de conteúdo, com aspectos quase patéticos. Só servem como justificação histórica para os acontecimentos da trilogia clássica.

Se acham que estou a exagerar nesta apreciação das prequelas, deixo-vos com um nome: Jar Jar Binks. QED.

The Force Awakens, de JJ Abrams, é um exemplo clássico desse paradigma de renovação na continuidade. Um novo filme, que replica com cuidado a estética dos filmes originais enquanto faz evoluir a saga. Os fãs temiam algo de demasiado radical, e saíram das salas de cinema sorridentes com o que é um filme Star Wars em modo old school. O cuidado do realizador está patente logo nos primeiros fotogramas do filme, que reconstroem, invertendo as diagonais de força na composição, a primeira cena de A New Hope. Conseguiu agradar, apesar de alguma revolta dos fãs mais ferrenhos face ao historial do universo expandido de Guerra nas Estrelas.

Rogue One foi menos interessante, prejudicado por uma realização desconexa que manteve o ritmo sempre no mesmo tom. O objectivo era manter a adrenalina constantemente elevada, o efeito foi o inverso, de tédio, mesmo nas cenas concebidas como mais empolgantes. O verdadeiro ponto de interesse é saber que os personagens, com seus dramas, dilemas e paixões, estão condenados à partida, sem possibilidades de artifícios narrativos Deus ex machina que lhes salvem a pele no final. Em si, Rogue One é um exemplo acabado do lado de puro marketing que Star Wars assumiu. Um filme anual intermédio, para captar a atenção e dinheiro dos fãs no interregno entre os grandes novos capítulos da saga.

O marketing nunca foi alheio à série, que desde o início se revelou uma máquina de produção de brinquedos e produtos culturais acessórios, mas é impossível não ver a recente aposta na sua ressurreição, com o impacto mediático de um asteróide a embater no Iucatão, como um estudo de caso de capitalismo nu.

Ousadamente ir, onde nenhum filme já foi anteriormente

Esperava-se que The Last Jedi seguisse um caminho similar a The Empire Strikes Back. Filme intermédio de trilogia, ponte entre o arranque e a conclusão, tinha de levar a história em frente sem ser demasiado conclusivo. Dado o final de The Force Awakens, até se esperaria um filme a seguir as passadas do clássico, com Rey como a nova Skywalker e o velho Luke a encarnar um novo Yoda, treinando um sucessor para o seu papel de Jedi. E é exatamente esse o caminho que o filme segue no início, até replicando uma evacuação desesperada dos rebeldes face às forças imperiais. Mas tudo muda na primeira cena em que Luke aparece, em continuidade direta com o filme anterior. Esperamos um embate com o novo espírito Jedi, ver um mestre disposto a partilhar a sua sabedoria, e o que recebemos é um velho amargo, que recusa com desprezo a devolução do seu lendário sabre laser e toda a carga ideológica associada aos Jedi. Esse é o momento que dá o tom ao filme, quer como capítulo da saga que se atreve a colocar pontos finais na história clássica, quer como obra que constantemente leva os espectadores em direcções que nos momentos cruciais seguem por caminhos inesperados.

O inesperado na condução da narrativa é uma constante ao longo de todo o filme. As diversas linhas narrativas que o compõem têm sempre conclusões surpreendentes, desde as centrais para o desenvolvimento da história quer as espúrias, pequenas aventuras paralelas que apesar de complementarem o fio narrativo do filme, não o estragariam se não estivessem lá. A surpresa constante às expectativas do espectador é o que lhes é comum, especialmente dos conhecedores do peso histórico da saga.

O objectivo é claro. Dar um final digno ao clássico, limpando o terreno para uma nova continuidade. Sente-se isso numa história que quase extermina os rebeldes, que no fim do filme ficam reduzidos a pouco mais do que meia dúzia de sobreviventes. É corajosa, a forma sistemática e impiedosa como o filme mata as personagens de sempre, aniquilando o que há de mais clássico em Star Wars. Nem o almirante Ackbar é poupado, e cairá na sua última armadilha.

Suspeito mesmo que ouvi um it’s a trap num dos momentos desesperados da nave de comando rebelde caçada impiedosamente pelos sucessores do império. Tenho de rever o filme para verificar se de facto lá está, ou é uma alucinação induzida pela nostalgia da saga.

Concluir o clássico, abrir espaço ao novo

A reescrita e revisão de pressupostos é especialmente visível na linha narrativa de Luke Skywalker, que leva muito longe a amargura de um Jedi que tomou consciência das reais consequências do idealismo da religião. Quer, desesperadamente, acabar com os últimos resquícios dos Jedi, após compreender que aquele lado luminoso da força, a sua assunção como bondade inabalável, foi de facto o elemento que desestabilizou toda a galáxia. A força tem um lado oposto, e a proeminência do lado luminoso forçou o ressurgir de todo o lado negro, com as consequências que se sabem para uma galáxia que vivia sob uma república estável. Deixamos de ver os Jedi como força para o bem, apenas como seres poderosos com uma enorme hubris, que os convence de uma razão inabalável. Este revisionismo que quebra um dos pilares da saga Star Wars deve soar a heresia aos fãs mais ferrenhos.

Este é um de muitos fios narrativos que desafiam as bases conceptuais de Star Wars. Rey e Kylo Ren encetam uma relação dúbia, estruturalmente similar à ligação entre Luke e Darth Vader, mas com as possibilidades de redenção pulverizadas. Refira-se que Kylo emerge neste filme já não como o emocional imaturo, birrento e irritante de The Force Awakens, mas como uma personagem fortíssima, capaz de dominar quer o ecrã quer o universo Star Wars a tal ponto que o enigmático Snokes, o aparentemente todo poderoso grande vilão destes novos filmes, irá ter um fim curiosamente banal.

Noutro dos surpreendentes caminhos narrativos do filme, a Rebelião é completamente esmagada. Atacada sem misericórdia, caçada até ao último reduto, exterminada quase até ao último homem. No final do filme, os poucos sobreviventes acotovelam-se no porão do Millennium Falcon. Sem soldados, sem seguidores, sem forças que os auxiliem, sem líderes, exceto uma Leia que sabemos ser impossível regressar ao universo Star Wars.

A tecnologia de efeitos especiais consegue animar personagens de atores já falecidos, mas numa tão icónica como a desempenhada por Carrie Fisher, a solução de imagem de síntese que recuperou o falecido Peter Cushing para The Force Awakens será demasiado repelente para os espectadores. É intrigante que Leia quase morre no início do filme, algo que tendo em conta o falecimento da actriz é esperado pelos espectadores, mas seguindo o padrão de desafio às expectativas, a morte não acontece. A cena em si é deliberadamente iconográfica, roçando o kitsch. Dá uma resposta possível para aqueles que, desde 1980, ano de The Empire Strikes Back e da revelação da relação filial entre Leia e Luke, se perguntam se ela não terá qualquer traço do poder Jedi que flui no seu irmão.

O futuro da saga está completamente em aberto. Kylo está claramente como nova força dominante, Rey como o seu oposto no lado do bem. Da história de Rey o único pormenor que surpreende é a revelação, intuída, que apesar do seu vasto poder não descende da dinastia Skywalker e é, de facto, uma criança abandonada de um planeta sarjeta da galáxia. Lá se foram as especulações dos fãs sobre o ser irmã de Kylo. Os parcos restos da rebelião serão claramente liderados por Poe Dameron, que também tem um percurso interessante neste filme. O seu heroísmo de cabeça quente consegue, em todos os momentos, resultados que acabam por ser tremendamente prejudiciais àqueles que defende. É claramente uma lição de aprendizagem em liderança, com o falhanço do heroísmo de curto prazo a mostrar a necessidade de crescer, aprender a pensar de forma tática e estratégica. Como esperado, são nos atos heróicos de Poe que o filme vibra com mais força, naquele lado de pura aventura que é indissociável de Star Wars.

Outros novos personagens recebem linhas narrativas que lhes asseguram um futuro na série. Será curioso ver como Finn e Rose evoluem, ou se a capitã Phasma conseguirá voltar a sobreviver para continuar a odiar Finn com todas as forças. As eternas constantes do universo Star Wars, fio condutor entre o clássico e a renovação, são R2D2 e C3PO, aos quais se junta um fiel Chewbacca e o deliberadamente kawaii BB-8. É notável reparar que esta parelha de robot e andróide teve sempre papéis a desempenhar em todos os filmes da saga.

Star Wars
São menos intrusivos do que prometiam. E vão vender muitos peluches.

Salvam-se também os Porgs, que não são apresentados no nível habitualmente intrusivo que caracteriza aqueles personagens de aspeto queridinho que foram criados com o único propósito de vender brinquedos. A presença em ecrã não é excessiva nem bloqueia o fluir da narrativa. Poderiam ser, mas não são tão irritantes como os ewoks ou patéticos como Jar Jar Binks (e nem falemos do racismo inerente a este personagem).

Mas afinal, vale mesmo a pena?

Uma boa história não chega para fazer um bom filme. Apesar de todos os desafios às expectativas, do progredir implacável numa reescrita da saga, este filme não é isento de inconsistências estruturais. Podíamos começar com a sua bizarra temporalidade, numa história que se passa no futuro imediato aos acontecimentos de The Force Awakens. É um pouco inexplicável, e o filme nem se dá ao trabalho de o fazer, mostrar que uma força profundamente derrotada no final do filme anterior, com perda total da sua mais poderosa arma, forças e base planetária, está logo de seguida suficientemente forte para não só dar caça aos seus inimigos como ser capaz de os exterminar. Mas como é Star Wars, já esperamos este tipo de inconsistências. E perdoamos, desde que o filme nos dê o que realmente queremos: aventura pura, duelos com toques de samurai, batalhas espaciais empolgantes, naves espaciais, e muitas explosões no espaço. Daquelas bem sonoras, como nós sabemos ser impossível no vácuo espacial.

Nisso, o filme não desilude. É uma viagem bem montada e ritmada, uma verdadeira montanha russa de acção em que os momentos mais dinâmicos e empolgantes são equilibrados com fases de narrativa aprofundada. O bom humor abunda, embora nem sempre funcione. Mas é com o ritmo, bem medido, alternando entre imenso dinamismo e momentos reflexivos, que The Last Jedi nos conquista. Apesar das inconsistências do filme, das tropelias que faz com os conceitos mais elementares da ficção científica ou com a física elementar, o filme apanha-nos. É impossível não vibrar com as cenas empolgantes, rir com as piadas, por muito secas que sejam, ficar ansioso nos momentos mais angustiantes, sentir empatia nos momentos mais sentimentais. Sabemos que não é um filme excelente, é apenas um produto de uma máquina de entretenimento escapista, mas não lhe ficamos indiferentes. É também um dos filmes esteticamente mais bem conseguidos da saga, com uma fotografia cuidada e um uso muito inesperado de cores intensas, para um filme mainstream.

Reescrevendo a saga Star Wars, este The Last Jedi coloca um respeitável ponto final nas linhas narrativas clássicas da série, preparando o terreno para uma expectável longa continuidade. Algo que ainda não será aparente no próximo filme, Solo, que ainda reforça o tom nostálgico da série com uma história de origem de um dos personagens-chave de Guerra nas Estrelas clássica. Temos que aguardar por 2019, com o episódio IX, para descobrir os novos caminhos da série.

Seja-se fã ou não da saga, The Last Jedi são duas horas e meia de entretenimento bem feito, que nem nos deixa sentir o tempo passar. Mas não se esqueçam de desligar alguns sectores do vosso cérebro.

O novo episódio da saga estreou mundialmente a 15 de dezembro.
Written By
More from Artur Coelho

Dragomante: Fogo de Dragão, de Filipe Faria e Manuel Morgado

A estética de Manuel Morgado une-se às palavras de Filipe Faria em...
Read More

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *