Sobre Os Vampiros – II

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Não deixa de ser curioso que a banda desenhada seja o espaço de encontro para Juan Cavia e Filipe Melo, dois artistas que, fora desta colaboração, seguem os respetivos percursos individuais fora da BD.

O argentino Juan Cavia não tem um extenso currículo na banda desenhada. Trabalha sobretudo como diretor de arte para cinema e publicidade. Talvez compreendendo melhor o que faz um diretor de arte seja possível perceber melhor o mérito de Juan Cavia em Os Vampiros. Ser diretor de arte envolve uma responsabilidade pela concepção visual da produção, olhando a aspetos tão diversificados como a cenografia, os figurinos, os adereços, os efeitos especiais, etc. Numa banda desenhada, todos estes elementos tendem a concentrar-se numa única pessoa – o desenhador, mas a experiência de Cavia a trabalhar na orientação de uma equipa é muito útil, não descurando nenhum destes aspetos. Numa história passada em 1972, há também que destacar um grande trabalho de documentação e referência visual.

Para mais, o estilo de desenho de Cavia adapta-se perfeitamente à exigência da história, mais caricatural ou mais realista, mais rígido ou mais solto. Ainda uma palavra para o excepcional trabalho de cor, e para o claro/escuro das páginas 190 a 194. Mas para quem quiser apreciar o trabalho de Juan Cavia em Os Vampiros, sugiro a leitura – fora do contexto da história – das páginas 81 a 88. Aí encontrará o fascínio do autor argentino pela expressão das personagens e pela composição, e uma diversidade de influências que vive também muito fora da banda desenhada, desde logo no cinema de animação (mas também dentro da BD, designadamente com alguma escola de autores da Image Comics dos anos 90).

Sobretudo, as vinhetas de Cavia têm essa enorme inquietude que deve caraterizar um quadradinho de banda desenhada, que é sempre e apenas uma parte segmentada de um todo, e que está ao serviço da história. Neste aspeto, é notória a diferença relativamente a outro tipo de imagens que Cavia apresenta com o propósito de funcionarem como unidades isoladas, completas, fazendo apelo à sua experiência de diretor de arte de publicidade. Assim acontece com a imagem da capa, com o primeiro separador ou com os separadores de cada capítulo.

Finalmente, destaque para a compreensão, por parte de Juan Cavia, das ideias de Filipe Melo e da linguagem cinematográfica. A espaços, Os Vampiros quase parece ser a adaptação dum filme à forma de banda desenhada, e esse trabalho de adaptação tem muito mérito de Cavia. É perceptível que para Juan Cavia, a colaboração envolve uma dinâmica constante, reflexo duma disponibilidade que também se liga à amizade que une os dois autores, e duma confiança e cumplicidade que os leva a abraçar de forma destemida um desafio mais exigente do que Dog Mendonça.

Na próxima crónica, deixo de falar nos autores, e passo a falar da obra. Já era tempo.

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3 Comments

  • Bom dia Pedro. Salvaguardando que só li o livro uma vez e um pouco sofregamente, tenho uma opinião diferente em relação à arte.

    Eu gosto bastante do estilo da arte do Juan Cavia, em particular para livros do tipo do Dog Mendonça. Acho parecida por exemplo à do Humberto Ramos no livro Revelações e também gosto desse estilo um pouco mais caricatural.

    No entanto, à medida que ia lendo o livro, raramente senti que a arte fosse a que a história pedia. Nos momentos de humor sem dúvida que funciona, nos outros não tanto. Não deixei de gostar do livro por isto, mas fiquei com a sensação de que a obra como um todo poderia chegar a outro patamar com outro estilo de arte.

    Isto é a opinião de leitor que lê BD frequentemente e há bastante tempo e, portanto, é fundamentada unicamente numa questão de gosto pessoal.

    cumprimentos

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