Sobre Os Vampiros – I

A leitura do livro Os Vampiros, recém-publicado pela Tinta da China, sugere-me vários temas de reflexão. Por isso, esta é apenas a primeira de um conjunto de crónicas sobre o novo álbum de Filipe Melo e Juan Cavia, e os seus autores. Para começar, falo de Filipe Melo.

Em termos universais, na história da banda desenhada, primeiro transformaram-se as personagens em vedetas e depois (sobretudo por ação dos festivais e salões) os desenhadores. Muito, mas muito mais tarde, apareceram os primeiros argumentistas não desenhadores reconhecidos como estrelas de pleno direito. Em Portugal, Jorge Magalhães é o grande nome entre os argumentistas durante largos anos, secundado, numa altura em que já se reconhece o trabalho e a voz dos autores, por Tozé Simões, Nuno Artur Silva e, algum tempo mais tarde, David Soares. José Carlos Fernandes, sempre mais considerado como argumentista do que como desenhador, intromete-se de alguma maneira nesta listagem, embora não possa ser considerado um não desenhador.

No momento atual da BD portuguesa, há a considerar quatro argumentistas. Ao já citado David Soares juntaram-se André Oliveira, Nuno Duarte e Filipe Melo. André Oliveira é, apesar de A Hora do Saguim, um nome quase exclusivo da BD (embora, felizmente, tenha referências mais variadas), e, também por isso, é aquele que apresenta maior produção em banda desenhada. Nuno Duarte tem a escola das Produções Fictícias, trabalhando também para o teatro, cinema e televisão. Filipe Melo, o autor de quem vou falar nesta crónica, é músico e realizador. A importância destas outras linguagens no trabalho do autor é bem visível no seu último livro, Os Vampiros, em que volta à colaboração com o argentino Juan Cavia.

Os Vampiros é, muito claramente, a obra de um realizador e de um músico, mais do que o trabalho de alguém que é “apenas” um autor de BD.

Existe uma certa similitude entre a atividade do realizador e a regência musical, e não sei, nem nunca discuti isto com o Filipe Melo, se é mais como músico ou mais como realizador que ele coordena, dirige e lidera as diferentes tarefas inerentes à produção do álbum de BD, para que este se manifeste de forma absolutamente coesa e coerente. Mas não tenho dúvidas de que este trabalho de liderança é desenvolvido, e que passa por um profundo conhecimento dos artistas com que colabora (no caso, Juan Cavia), de modo a potenciar a unidade de expressão e interpretação das duas diferentes vozes participantes em colaboração. Neste processo, beneficia não só da sua experiência no trabalho em colaboração, mas também da experiência dos seus colaboradores (no caso, mais uma vez, Juan Cavia).

O maestro/realizador Filipe Melo não rege apenas a equipa Melo/Cavia, mas rege também a participação do mais heterogéneo dos agentes envolvidos no processo: o leitor. É assim (aqui arriscaria dizer que mais como músico) que Filipe Melo trabalha o ritmo narrativo, os silêncios ou o espaço que, em termos visuais, deve ser deixado ao som (com o simples passar de um helicóptero ou de um avião).

E rege finalmente (e isto é mais visível aqui do que em Dog Mendonça) um elenco de personagens duma história sem heróis (no sentido Van-hammiano do termo) conseguindo passar a genuinidade das diferentes identidades. Neste aspeto, é justo falar também do Filipe Melo intérprete, enquanto guionista, para dizer que há um trabalho muito bom de construção de frases, perfeitamente inseridas num ritmo narrativo de grande eficácia, e que nunca deixam de ter presente que a leitura da BD exige uma complementaridade de texto e imagem. Em Os Vampiros, o texto nunca vive sozinho. Nem na página 192.

Na próxima crónica, falo do grande solista/intérprete que o maestro/realizador Filipe Melo arranjou para esta empreitada: Juan Cavia.

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