Safe Place de André Pereira e Paula Almeida

SafePlace
Safe Place

Autor: André Pereira (com Paula Almeida)
Editora: Kingpin Books
Páginas: 24, P/B
Formato: 19,3 x 27,6cm
PVP: €5,99
Distribuição: Maio 2014

Há uma intrigante barreira difusa entre o real e o virtual neste pequeno mas delicioso livro de André Pereira. Safe Place habita um não lugar de desolação suburbana preenchida pelo imaginário infantil, espaço de interestícios que é ponto de encontro de jovens que se juntam no tempo livre. Os indícios de virtualidade começam no aspecto de avatar antropomórfico destes personagens. Ao deslocarem-se nos espaços da história, através as suas conversas e acções, revela-se toda uma estética inspirada nos jogos digitais. Percebemos que podemos não estar perante a representação onírica de um espaço real, mas perante uma visão de virtualidade. Ou talvez não. Nisso o livro é ambíguo e faz-nos sentir que estamos numa zona de fronteira potenciada pela tecnologia. Talvez estejamos a ver o imaginário virtual comum projectado por utilizadores isolados frente às sua consolas, interligados pela rede, ou estamos mesmo num espaço misto, de realidade aumentada pelo digital. Perto da conclusão da história há pequenos detalhes que apontam para aí. Uma das boas surpresas deste livro é a forma elegante como nos deixa a reflectir sobre estéticas virtuais, gamificação e realidades aumentadas, normalmente introduzidas de forma mais tradicional nas histórias que delas fazem uso. Nisto Safe Place inverte os pressupostos narrativos da ficção científica à volta da qual orbita. Não nos dá explicações técnicas nem longos devaneios de especulação informativa, apenas a bucólica poesia do momento banal.

O sentido de espaço, de imersividade em ambientes, está muito presente neste livro. Mas há outro aspecto curioso neste lugar seguro num digital pervasivo. Estamos mais habituados a conceber os espaços digitais como perigosos para os mais jovens, conceito que aqui é invertido através deste lugar seguro, onde as personalidades se podem desenvolver longe do olhar adulto em espaços intersticiais longe do artificialismo induzido pelo comercialismo e o formalismo do mundo dos adultos. As aventuras passam-ne num baldio que se torna espaço de liberdades transgressivas, apesar dum fio umbilical de conectividade com os crescidos capaz de se imiscuir no espaço imaginário dos jogos.

André Pereira ilustra com uma estética dinâmica de visíveis influências de manga e iconografia dos RPGs de fantasia com o seu quê de arcádica. Os espaços são desolados, as personagens antropomorfizam-se, ícones e atributos flutuam sobre eles. A arquitectura é surreal e pressentida na distância por entre os vazios de natureza. Paula Almeida encerra com duas pranchas duras, viscerais, que nos trazem ao real e fazem questionar se Safe Place não passou de um sonho entre dois irmãos, jogadores inveterados que se isolam frente ao ecrã para fugir ao que intuímos ser uma realidade dolorosa.

Com um registo gráfico notável, abordando subtilmente conceitos da cultura digital contemporânea, Safe Place é uma fábula sobre o crescer na era digital.

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