Rumar ao Amadora BD 2017

Os dias de transição entre Outubro e Novembro marcam o regresso do longevo Amadora BD, um festival que se de visita obrigatória, começa a estar demasiado igual a si próprio a cada ano que passa.

De 27 de outubro da 12 de Novembro, a Amadora volta a ser o centro das atenções dos fãs de banda desenhada. Cumprindo-se a tradição, o Festival Amadora BD está de regresso na sua vigésima oitava edição. Estão também de regresso as habituais polémicas em volta do festival, entre a estranha atribuição de prémios às incoerências organizativas a que o evento já nos habituou. Essencialmente, aquilo que se espera de um festival irredutivelmente igual a si próprio, confortável e avesso a correr o risco de inovar. Visitar o Amadora BD é um ritual anual, que se repete sob o sentimento de obrigação.

No Eterno Retorno do Amadora BD

Confesso que tenho uma relação amor/tédio com o Amadora BD. Amor porque, naturalmente, este é aquele festival que está sempre presente. 28 anos são um caso sério de longevidade, especialmente no panorama português. Um ecossistema de ideias muito próprio, que pese embora a sucessão de iniciativas, não tem muitos eventos que se mantenham em continuidade ao longo de décadas. O Amadora BD é aquela altura do ano que se dedica à banda desenhada, onde se ruma ao subúrbio para visitar exposições, absorver um pouco da atmosfera do evento, e esquecer o bom senso e sensibilidade financeira nas bancas das editoras para vir de lá carregado de livros.

Por outro lado, tédio. Isso mesmo, enfado, chatice, o que lhe quiserem chamar. O Amadora BD é um festival confortável, em que sabemos exatamente o que esperar. Exposições com um peso cénico superior aos das pranchas que expõem, sempre montadas segundo uma linha cenográfica imutável desde que me lembro de começar a visitá-lo. Espaços exíguos apesar da amplitude do Fórum Luís de Camões, com visitantes a acotovelarem-se nos momentos de maior enchente de público. Autores significativos dentro de franjas mais obscuras, pertinentes para um tipo de fãs muito específico, e nomes clássicos, que não causam desconfortos ou polémicas. Foco em temas seguros, muito pedagógicos. Excepto naquele ano em que se lembraram daquela ideia de enfiar cuecas na cabeça. Recordam-se? Eu também gostaria de me esquecer.

E, agora que por inerência me vou apercebendo do que está por detrás do festival, naquela forma de quem tem coisas mais interessantes que fazer do que aprender os meandros de uma organização muito bem financiada, perceber que o qualificativo “amador” não é uma referência à localidade onde nasceu e vive o festival. Não é assunto que me aqueça o sangue tanto como ao Bruno Campos, mas é impossível não revirar os olhos quando por exemplo, quando se ouve algumas das situações a que os editores são sujeitos. São incongruências que o Bruno aborda tão bem nas suas fortes críticas a uma organização que até alguém distraído e fora do meio, como eu, percebe que tem uma competência duvidosa em termos organizacionais e um forte conservadorismo temático.

No entanto, é o Amadora BD. Goste-se das suas virtudes e admire-se os seus defeitos, é local de peregrinação obrigatória para os fãs de banda desenhada. apesar de já haver por cá mais eventos dedicados ao género, ou que nele tocam, casos do Iberanime, Comic-Con, Festival de Beja ou Fórum Fantástico. É a altura obrigatória para romaria à estrada da Brandoa, de preferência com o GPS ligado para minimizar o risco de desorientação no sprawl homogéneo da cintura suburbana de Lisboa.

O Que Podemos Encontrar no Festival

Entrar na exposição leva-nos às três primeiras exposições temáticas. Iniciamos com uma retrospectiva do trabalho de Nuno Saraiva autor do cartaz do Amadora BD deste ano. Intitulada Tudo isto é Fado, foca-se no estilo gráfico do ilustrador, mostrando a sua evolução, embora se centre com uma boa dose de barroco visual na apropriação que Saraiva fez da iconografia do lusitanismo brejeiro herdada do estado Novo para o traçado da identidade visual das Festas de Lisboa, exposto no livro Tudo Isto É Fado. Segue-se a exposição bibliográfica de Revisões, a edição da Chilli com Carne que recupera a memória da revista Visão. O trabalho editorial é notável, trazendo ao público contemporâneo o grafismo de vanguarda dos autores da extinta revista publicada por Vítor Mesquita. Este é o grande nome não mencionado na antologia. Eternus 9, o trabalho que desenvolveu ao longo dos números da Visão, tem álbum próprio e já mereceu destaque em festivais anteriores. Compreende-se o foco noutros autores, a maior parte dos quais completamente esquecidos. Como Carlos Zíngaro, hoje conhecido como compositor de música contemporânea, que nos anos 70 um desenhador de peso, como se comprova pela capa do álbum Dos Benefícios dum Vendido no Reino dos Bonifácios da Banda do Casaco, num fascinante registo de banda desenhada.

Mas estão perdoados se passaram pela exposição sem se aperceber dos grafismos arrojados dos ilustradores e da importância da Visão. A exposição parece ter sido pensada para desencorajar a observação, com escolhas de design injustificáveis que dificultam o acesso às pranchas. Num registo mais convencional, o espantoso trabalho plástico de Jan Bauer para O Rio Salgado, editado pela Polvo, está muito bem apresentado no seu espaço específico, destacando o traço pictórico do autor.

Se ao sair destas três exposições se sentiram perdidos, é normal. Aqueles espelhos entre as entradas para Tudo Isto É Fado, Revisões e O Rio Salgado provocavam distorções de percepção. Pessoalmente, aquele átrio trocava-me as voltas.

A exposição central deste Amadora BD cumpre na íntegra a vertente pedagógica do festival. Notem que se o evento se destina tanto aos amantes da banda desenhada como ao público em geral, o grosso dos visitantes é composto por visitas de estudo de escolas de todos os níveis de ensino. Ajuda a atrair este público cativo se houver um tema assumidamente educativo em exposição. Este ano, o tema é a banda desenhada como registo jornalístico. Contar o Mundo – A reportagem em banda desenhada, conta com um riquíssimo acervo que mostra as várias vertentes da BD documental. Tanto nos mostra exemplos do tempo em que o registo gráfico era a única forma de comunicação visual em imprensa como diários de viagem, histórias que recriam momentos históricos específicos ou apontamentos pessoais de autores. O destaque vai, previsivelmente, para Joe Sacco, talvez o praticante contemporâneo que mais longe leva a BD como elemento documental.

Antes da zona de livrarias e autógrafos, resta ainda visitar a exposição Teto da Biblioteca de Rui Pimentel, que reproduz caricaturas de personagens de literatura e banda desenhada que este arquitecto desenhou para o teto da sua biblioteca. Apesar de ter algum interesse visual, não passa de um exercício decorativo de estilo. Entretinha os visitantes, alguns dos quais se davam ao trabalho de consultar o guia para identificar os personagens retratados.

Sempre senti que os espaços mais ricos do Amadora BD estavam no piso -1 do Fórum Luís de Camões. Este ano não foi exceção. A exposição principal está sempre pensada para públicos generalistas, e o principal atractivo da zona são os espaços das editoras, onde os fãs se podem abastecer de leituras. Nalguns casos com desconto apreciável sobre o preço normal nas livrarias, embora seja de notar que se sentia que muitos dos livreiros presentes não tinham preços especialmente convidativos, tendo em conta o contexto do festival. Já no piso inferior sente-se que os espaços estão concebidos a pensar nos fãs de banda desenhada, com exposições temáticas sobre autores e obras. Confesso que é onde sinto que estou mesmo num festival dedicado ao género.

Will Eisner e Jack Kirby davam os temas para as exposições de charneira deste espaço e são, de facto, as que vale mesmo a pena visitar nesta edição do festival. A que evitei, por ser deprimente, foi a do ano editorial. Nunca percebi a validade do conceito de prender uns livros com correntes e espalhá-los em mesas como forma de apresentar o que por cá se editou. Como bibliófago convicto, até me custa ver aqueles buracos nas páginas para segurar a corrente. Em contraste, a exposição dos concorrentes ao Concurso Nacional de Banda Desenhada surpreendeu-me pela qualidade gráfica dos concorrentes.

Em destaque neste piso tínhamos as tiras humorísticas de Henrique Magalhães em Maria…!, o documentarismo de Birgit Weyhe em Madgermanes, e as ilustrações de Joana Estrela em Mana, num encantador registo infantil, e Ana Pez para o livro O Meu Irmão Invisível. Dois dos livros premiados na edição de 2016 do Amadora BD tinham destaque em espaços próprios: Fósseis das Almas Belas, de Mário Freitas e Sérgio Marques, e Tormenta de André Oliveira e João Sequeira. Podíamos ainda visitar exposições antológicas, sobre o brasileiro Marcelo Quintanilha, editado por cá pela Polvo, e os ilustradores portugueses que estão a trabalhar no mercado americano. Não sendo um tema que se distinga pela novidade, esta exposição está bem pensada e apresenta uma boa visão sobre o tipo de trabalhos desenvolvidos pelos desenhadores que estão a dar cartas no competitivo e marcante mercado americano. Ver as pranchas originais das majors é um bom vislumbre sobre o processo de produção industrializado de comics.

Jack Kirby dispensa apresentações. Lenda do mundo dos comics, foi co-criador com Stan Lee das personagens mais icónicas da Marvel nos anos 60. Dissensões editoriais e de propriedade das criações com Lee afastaram-no da editora que ajudou a consolidar.  Foi para a DC, onde  desenvolveu o peculiar universo ficcional do Quarto Mundo, que hoje é uma das espinhas dorsais da editora. Dono de um traço muito próprio e facilmente reconhecível, também desenvolveu experimentalismos com desenho e colagem, referenciados nas edições Kirbyvision. A exposição comissariada por Mário de Freitas apresenta um bom panorama da carreira de Kirby, destacando alguns dos momentos mais marcantes. Mike Royer, um dos colaboradores de Kirby, esteve presente nesta edição do festival.

Outro nome que também dispensa apresentações é Will Eisner. A exposição O Espírito de Will Eisner apresenta uma excelente retrospectiva do trabalho desta lenda dos comics, especialmente focada em The Spirit mas destacando outras obras marcantes como A Contractos With God, Droopsie Avenue e até os comics instrucionais que desenhou para o exército americano. Sente-se que a selecção de originais poderia ser mais abrangente, mas esta exposição, a par com a de Kirby, são as duas paragens essenciais e obrigatórias desta edição do Amadora BD. É sempre um privilégio poder admirar a mestria do traço de Eisner nas suas pranchas originais.

Em Essência, Mais do Mesmo

Há outras exposições periféricas ao festival central, que confesso nem sequer me dar ao trabalho de ir descobrir onde são. A estratégia descentralizadora pode agradar muito à autarquia local, que patrocina este festival com um orçamento milionário (em bom rigor, meio milionário), activando espaços concelhios com atividades culturais. Mas para quem não vive na Amadora, tendo de se deslocar de longe para visitar o festival, esta dispersão não faz nenhum sentido. Despendo de bom grado um bom par de horas para cumprir a obrigação de visitar o festival. Para mais que isso, francamente não tenho tempo. Suspeito que analisados os números de visitantes dos vários espaços do festival, não devo ser o único a partilhar desta opinião.

Sente-se da parte deste festival uma progressiva ossificação temática. O Amadora BD é um festival que não nos surpreende, confortável nas suas temáticas. Podemos sempre esperar uma exposição central pedagógica, exposições periféricas que destacam autores e álbuns das preferências dos organizadores do evento, pequenas exposições que destacam obras específicas e alguma projecção a autores. E prémios, claro, com as discussões e polémicas que sempre levantam. Saio de lá com uma sensação crescente que este é um festival envelhecido, feito a pensar em fãs de meia idade, tocando nalguns estilos confortáveis, outros mais independentes mas mainstream nas suas temáticas, e momentos dedicados à nostalgia. Escrevo estas linhas porque senti falta neste Amadora BD de algum olhar, por mínimo que fosse, para autores e estilos de banda desenhada que despertam o interesse de públicos mais jovens. Não os ilustradores e estilos visuais que as editoras pensam que agradam aos públicos jovens, mas essencialmente encantam críticos e pais, mas aquilo que estes públicos realmente gostam. Isso sente-se especialmente no mangá, completamente ausente do festival, mas que reúne uma legião crescente de fãs nos públicos adolescente e jovem adulto.

Se o Amadora BD não olhar para esses públicos, corre o risco de se tornar irrelevante a médio prazo. Se eu vou ao Amadora BD é quase por obrigação, muitos dos livros em destaque já os conheço de outros eventos, resta-me a necessidade de marcar presença, de fazer uma peregrinação anual que sei que nunca me dará nada de inesperado. Agora olhem para públicos a quem as temáticas do festival não são os estilos favoritos, e pensem que vontade terão de visitar um evento que poderão sentir como bafiento.

O Amadora BD tem muitas virtudes, a começar pela sua longevidade e influência marcante. Tem defeitos, com um amadorismo organizacional que é aparente até a quem não se interessa especialmente por estes assuntos. Pessoalmente, como visitante e fã, o que sinto é a fossilização do evento, refugiado em temas confortáveis, que não se inova nem renova. Sei sempre o que esperar do evento, só mudam autores em destaque e temáticas. Também sei que em 2018 voltarei para cumprir a minha peregrinação, suspeitando que terei exatamente as mesmas questões a refletir e apontar sobre o Amadora BD. Resta saber se em 2108 ainda haverá festival.

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