Revista H-alt #5, editada por Sérgio Santos

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O quinto número da revista de banda desenhada independente H-alt já se encontra online, e em papel nalgumas livrarias e eventos. Uma nova edição, que mostra a aposta de continuidade na promoção dos novos autores de BD.

Evolução contínua da H-alt

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Portal de Pedra, Joana Varanda e Tânia Cardoso.

A revista H-alt continua a manter um invejável ritmo de publicação, especialmente notável tendo em conta que é uma edição na fronteira entre o fanzine e a revista. Continua a sua aposta assumida de ser um espaço para as novas vozes da Banda Desenhada, tendo sabido elevar a fasquia da qualidade gráfica e narrativa. Essa evolução é notória para quem acompanhado a revista desde o primeiro número. Se no princípio havia uma sensação de que tudo o que a equipa editorial da revista recebia era publicado, com muitos trabalhos de artistas claramente demasiado incipientes, a curadoria editorial foi melhorando de edição em edição. Diria até que com o quarto número amadureceu e encontrou as suas linhas orientadoras definitivas. Neste quinto, sente-se essa continuidade.

Outra aposta mais recente da revista está nos intercâmbios internacionais. Algo que parece fazer pouco sentido, num mercado como o da banda desenhada, saturado de edições vindas lá de fora, ou das suas traduções publicadas por editoras portuguesas. Mas no meio do dilúvio de comics de super-heróis Marvel/DC e séries creator-owned da Image, haverá algo diferente, algo que nos traga também novas vozes da BD, nomes com futuro? Trazer-nos o que conhecemos não é o foco da H-alt, e através dos seus intercâmbios com revistas similares americanas e inglesas, dá-nos a conhecer o lado mais independente dos comics actuais, fora da monocultura das editoras major. De acordo com o editor da H-alt, este caminho faz-se em dois sentidos, com a edição nas publicações parceiras de histórias originalmente publicadas na H-alt.

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A Mulher da Lua, de Jack Wallace e Nick Hadley.

É com estas linhas que chegamos ao quinto número desta revista, aquele em que há tantas histórias de autores nacionais como internacionais a serem publicadas. Dez para cada lado, para ser rigoroso. Todas com um elevado nível gráfico e narrativo, claramente criadas por jovens autores que estão no bom caminho para se tornarem referências da Banda Desenhada. Os que sobreviverem, claro. No caso português sabemos bem os efeitos do fator a vida acontece, num país onde é quase impossível viver desta forma de expressão artística, no exterior, o habitual é serem absorvidos pelas majors para criarem vinhetas a metro.

Estilos que crescem em qualidade nas páginas da H-alt

Esta é uma edição fortemente homogénea da H-alt. Não é fácil distinguir aqui os melhores momentos, porque as histórias escolhidas estão todas bem conseguidas. Escrevo isto sabendo que apesar da qualidade, são o que são, exercícios de talentos em desenvolvimento. Não são excepcionais ou revolucionárias, ou seja, a qualidade surpreende no contexto específico da revista. Como é natural numa publicação deste género.

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Paixão Liquidada, de Edgar Ascensão e Filipe Duarte
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Fábula, Roberto Gomes e Sofia Livesay.
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Signus, Machison e M.C. Carper.

Salientaria talvez, Portal de Pedra com argumento de Joana Varanda e ilustração de Tânia Cardoso, com um estilo gráfico vibrante e sedutor. A Mulher da Lua, de Jack Wallace e Nick Hadley, é uma excelente combinação de texto e imagem numa fantasia inocente. O terror está muito bem conseguido em Paixão Liquidada de Edgar Ascensão e Filipe Duarte. Fábula, por Roberto Gomes e Sofia Livesay, é uma encantadora parábola sobre a fantasia. Machison e M.C. Carper trazem-nos a iconografia da FC com ironia em Signus. Zutopia, de Bárbara Lopes, surpreende pelo estilo gráfico arrojado, a quebrar os padrões tradicionais da BD. É impossível não sorrir com o pastiche assumido de A Feira dos Imortais por Enki Bilal na história Pizza, de José Marono. São os contos que mais me surpreenderam nesta H-alt, embora os restantes também se recomendem.

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Zutopia, de Bárbara Lopes.
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Pizza, de José Marono.

Para além da seleção de histórias, a revista traz-nos Ricardo Cabral na sua tradicional entrevista a autores de BD, que é também o criador da imagem de capa desta H-alt. Encerra com um pequeno portfolio da ilustradora Sara Leal.

Como projeto cultural e editorial, a revista H-alt continua a sua afirmação como uma referência independente no panorama nacional da Banda Desenhada. Mantém a aposta na continuidade, com o próximo número da revista já anunciado para apresentação no Amadora BD. Continua a sua vertente digital, com um site que vai crescendo em conteúdos, contando com uma boa secção de artigos sobre personagens de BD, álbuns em edição digital e, claro, a própria revista H-alt, editada sempre gratuitamente em PDF a par com a edição em papel.

Revista H-alt #5

Autores: Sérgio Santos (editor)
Editora: H-alt/ComicHeart
Páginas: 172, capa mole
PVP: 8,50 €

Eterno intrigado por Banda Desenhada, Ficção Científica, literatura transreal nas fronteiras dos géneros. Também se mete em aventuras digitais. Bloga no Intergalactic Robot.

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