Revista H-alt #2, editada por Sérgio Santos

O quarto número está previsto, o terceiro editado em formato digital, e o segundo disponível em papel nas livrarias El Pep e Leituria.

O segundo número da revista H-alt mostra uma aposta de continuidade como espaço de divulgação dos novíssimos autores de Banda Desenhada em Portugal, com um notório salto qualitativo em relação à primeira edição.

H-alt a copia
Ilustração de Gabriela Torres para “A Cópia”, escrito por Jorge Santos.

A Surpresa da Continuidade da H-alt

São observações que espero repetir em futuras análises a próximas edições da revista. A continuidade manifesta-se em durabilidade. Projectos como este, apesar dos bons esforços dos seus dinamizadores, tendem a ser de curta duração. A H-alt tem se revelado resiliente. Enquanto escrevo estas palavras, o terceiro número já está editado em digital, e quase a ser lançado em papel, e o quarto tem publicação prevista para novembro. Estando mais atento à edição de literatura de FC e fantástico em português do que aos fanzines e ezines de bd, não sei até que ponto este padrão é aplicável, mas por enquanto a H-alt já ultrapassou as típicas barreiras das edições prometedoras que não passam da primeira edição, mal chegam à segunda ou anunciam uma terceira que nunca mais chega  aos leitores, tão prevalentes na edição independente de ficção de género.

H-alt Emersao
Ilustração de Alberto Pessoa e cores por Alexandre Câmara, para a história “Emersão” escrita por João Tavares.

O principal mérito desta revista está no ser um canal que dá espaço editorial a vozes novíssimas. Sabemos que é esse o papel dos zines, mas o cuidado na edição em diferentes suportes e na versão em papel posto pelo editor e pela Comic Heart confere-lhe um elevado nível qualitativo. Como objecto editorial, quer físico ou digital, a H-alt mostra um design coerente, que reforça a qualidade da revista.

Riscos e Méritos da Aposta nos Novos Autores

Apostar nos novos tem os seus méritos, e também os seus riscos. Esta H-alt traz-nos excelentes surpresas gráficas e narrativas, mas também encontramos histórias cujo nível gráfico parece ter saído directamente da sala de aula de cursos artísticos do secundário, embora em número inferior ao que se podia encontrar na primeira edição. Apenas a qualidade narrativa se mantém como ponto fraco da H-Alt, com boa parte das histórias a denotarem a inexperiência dos argumentistas. Há muita juvenilia nesta revista, como não poderia deixar de ser. Sublinhe-se, no entanto, que não é fácil conseguir contar uma história em duas ou três pranchas. É algo que se aprende fazendo.

H-alt Mae de Sofia
Ilustração de Alexandre Carvalho para “A Mãe de Sofia”, escrito por André Morgado.

A qualidade gráfica da ilustração é onde se denota o maior salto qualitativo na publicação. Grande parte das histórias surpreende pelo rigor estético, espectacularidade visual, e mestria gráfica (pese embora a inexperiência dos ilustradores). Algo que se torna ainda mais notório ao comparar com a primeira H-alt. É bom ver estes trabalhos de talentos que se estão a desenvolver. Suspeito que alguns destes nomes conseguirão passar pelo crivo da vida, escolhas profissionais e qualidade gráfica e literária para se tornarem futuras referências da BD portuguesa. Daqui a alguns anos, espero ler na bio de um desenhador ou argumentista de bd portuguesa um “iniciou-se nas paginas da H-alt“.

É notável a quantidade de histórias que esta publicação nos oferece. Vinte e sete histórias de autores inéditos e de outros que estão a caminho da consagração possível no nosso meio. Histórias que vão de uma prancha a quatro ou cinco, no global ambiciosas, e que tendo em conta o sublinhar do espírito colaborativo por parte da equipa editorial da revista, representa trabalho de cinquenta argumentistas e ilustradores.

H-alt Riffs Reb
A mestria gráfica de Riff’s Reb, a ilustrar “O Amor e o Mar”, poema de Carlos Drummond de Andrade.

Nem só de histórias originais vive esta revista. O lado reflexivo é desbravado com uma interessante entrevista ao ilustrador francês Riff’s Reb, que também contribui com uma pequena história. O portfolio visual cabe à ilustradora Aunia Khan e o seu registo de surrealismo pop. Hermann não é um nome menor da Banda Desenhada, sendo intrigante que tenha acedido a ser entrevistado, falando da sua longa experiência na indústria de BD francófona. Uma entrevista que diria polémica para fãs de mangá e comics de super-herois. Poderia mostrar aqui o porquê, mas como a H-alt está à distância de um clique, insto-vos a ir ler.  Ainda podemos ler uma recensão pessoal de Pedro Ferreira a quatro livros de DB marcantes, e a simpática fan fiction no antigo mundo Hiboriano de Conan, por Paulo Gomes.

Conseguirá a H-alt manter-se, como fórum para novos autores, de qualidade crescente e com edição regular? Os próximos números o dirão. Para já, a fasquia colocada pelos seus editores está elevada. O segundo número da H-alt pode ser lido no Issuu, Calaméo e página da H-alt.

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