Razões para ir ao FIBD Beja: A BD na Polónia

A banda desenhada polaca desenvolveu-se na sombra da grande referência da BD franco-belga. Ainda assim, na Polónia comunista, esta referência traduzia-se sobretudo na revista Vaillant, atendendo à impossibilidade de importação da “BD ocidental” e à obrigatoriedade de seguir a ideologia das autoridades comunistas. Para mais, a banda desenhada era oficialmente desconsiderada, e o termo que a designava, komiksowy, tinha uma conotação pejurativa. Ainda assim, após uma presença relevante na imprensa do início do século XX, a BD consegue ressurgir na Polónia como arte popular, no final da década de 50 daquele século, através de autores como Henryk J. Chmielewski, Janusz Christa ou Jerzy Wróblewski.

Todos começam as suas carreiras no jornal Dziennik Wieczorny.

O primeiro, conhecido sob o pseudónimo de Papcio Chmiel, cria em 1957 a extraordinariamente popular série infantil de aventuras humorísticas Tytus, Romek i A’Tomek, protagonizada por um chimpazé e dois adolescentes.

Janusz Christa inicia em 1958 as aventuras de Kajtek e Koko (dupla de heróis depois reformulada como Kajko e Kokosz), republicada em álbuns de grande tiragem.

Wróblewski, que raramente assina o argumento das suas histórias, afirma-se como desenhador realista.

A partir deste período, surgem outros heróis populares, como Jan Zbik (mais de cinquenta álbuns, permitindo o início de carreira de autores como Rosinski), Hans Kloss (que passou da televisão para a BD), ou Janosik.

Os anos 70 são considerados a idade de ouro da BD polaca, merecendo lugar de destaque a revista de banda desenhada Relax (1976-1981), centrada em Christa, Rosinski e Wroblewski, mas dando a conhecer outros grandes nomes da BD na Polónia, como Tadeusz Baranowski.

A partir da década de 80, o racionamento de papel bloqueia o surgimento de novas publicações de grande tiragem, ao mesmo tempo que os autores começam a desviar-se para o mercado franco-belga, ou para as áreas da ilustração e publicidade. A banda desenhada polaca volta a cair num período de crise, sobrevivendo graças à sempre presente paixão de alguns, e beneficiando sempre da presença tutelar de Rosinski, o desenhador de Thorgal que esteve presente na edição de 2002 do AmadoraBD, e que é hoje reconhecido como um dos grandes mestres do desenho realista na banda desenhada.

Com a mudança de regime político e a entrada na União Europeia, surge uma nova banda desenhada polaca, com uma vocação mais universal. Sucessor de Rosinski na série Hans, Kas (lançado num concurso promovido pela Relax) é mais um autor consagrado no mercado franco-belga. Gawronkiewicz e Janusz ganham o concurso europeu de BD organizado pela Glénat e a Arte, Jaceck Fras é distinguido em Angoulême, e atrás deles, outros autores começam a ganhar visibilidade internacional: Skutnik, Rebelka, Janek Koza, Marek Turek, e tantos outros a descobrir.

No atual panorama da BD na Polónia, é evidente a diversidade de estilos gráficos e narrativos, traduzindo uma pluralidade de referências e influências, e a ausência de uma escola. O paralelo com o panorama da banda desenhada portuguesa ganhou eco com a aproximação entre o AmadoraBD e o Festival Internacional de Banda Desenhada e Jogos de Lodz, sendo que a Amadora tem promovido com alguma regularidade mostras de autores polacos.

No XI Festival Internacional de banda Desenhada de Beja, a Polónia volta a estar em destaque. O Festival apresenta a exposição coletiva A Polónia em Vinhetas, comissariada por Jakub Jankowski e Paweł Timofiejuk, reunindo trabalhos de Bogusław Polch, Denis Wojda, Grzegorz Rosiński, Henryk Jerzy Chmielewski, Janusz Christa, Krysztof Gawronkiewicz, Mateusz Skutnik, Michał Śledziński, Przemysław Truściński, Rafał Skarżycki, Szarlota Pawel, Tomasz Leśniak, Wojciech Stefaniec e Zbigniew Kasprzak (Kas).

 

No dia 31 de Maio, pelas 16 horas, os comissários da exposição dão “dois dedos de conversa” sobre a mostra e a BD na Polónia.

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