Razões para ir ao Festival de BD de Beja: No Presépio…

Em boa verdade, o texto que segue foi escrito para o catálogo do Amadora BD 2015. Mas como o catálogo acabou por não aparecer, aqui fica o destaque para uma das obras marcantes da BD humorística portuguesa, que será motivo de exposição em Beja.

Em 2011, o tema do AmadoraBD foi o Humor. A exposição central e um extenso dossier no catálogo do evento, ambos coordenados por Osvaldo Macedo de Sousa, pretenderam, entre outros objetivos, celebrar o centenário do humorismo em Portugal e o peso que ele tem na banda desenhada nacional. Osvaldo Macedo de Sousa, mais ligado a formas de linguagem gráfica de maior imediatismo do que a banda desenhada, como o cartoon ou a caricatura, teve a oportunidade – que aproveitou – de fazer a ponte entre todas estas linguagens, sendo certo que a moderna banda desenhada descende do cartoon, e nasce do humor. De resto, o facto de Osvaldo de Sousa ter permanecido mais ligado ao cartoon ou à caricatura, significa que ficou mais próximo da temática do humor.

Uma das ideias que Osvaldo de Sousa tem reafirmado assenta no princípio de que o humor causa medo… porque entra na alma das pessoas. É uma ideia interessante, ligada – mesmo para quem não acredite na alma (e os autores deste álbum não devem acreditar) – àquilo que nos torna humanos. O humor é, afinal, um sinal de inteligência humana.

A sátira ao presépio expõe esse medo, e desafia essa inteligência.

O Presépio é tão bonito, tão inspirador. É uma representação pura da paz, do amor, dos valores fundamentais da vida em comunidade. Mas isso é porque os elementos que compõem esse presépio estão sempre calados e normalmente são de barro. Eis, na Banda Desenhada “No Presépio…”, o verdadeiro e genuíno presépio vivo. O Zé, a Maria, o Burro, a Vaca e o Menino no seu quotidiano exuberante, dramático, corriqueiro, cómico, parvo… Principalmente parvo.

É com este texto que a editora Insónia apresenta o álbum No Presépio…, de José Pinto Carneiro e Álvaro, distinguido com o Prémio Nacional de Banda Desenhada para o Melhor Álbum de Tiras Humorísticas.

A ideia central de No Presépio… é a crítica aos valores familiares, centrada na referência da mais célebre forma de representação desses valores: o presépio. E quanto mais se afasta da referência preconizada pela Igreja, e quanto mais se aproxima do absurdo e da desconstrução total, rumando ao humor mais delirante (sem qualquer preocupação de elementar respeito pelo que seja) mais perto fica também duma certa realidade familiar. É uma sátira impiedosa num estilo de registo humorístico com pouca tradição na banda desenhada portuguesa.

Efetivamente, no que respeita ao peso do humor na banda desenhada nacional, este continua a ser muito feito de antologias de gags ou de tiras, que o tornam uma espécie de “segunda liga” da BD portuguesa. Há, como em tudo, honrosas excepções, no trabalho de autores que têm procurado fazer livros de BD de humor, como José Carlos Fernandes, Artur Correia e António Gomes de Almeida… ou Álvaro.

Licenciado em arquitetura e explicador de geometria descritiva, Álvaro possui um traço caraterístico e original que desde muito cedo começou a aparecer (sobretudo sob a forma de cartoons) em jornais (no suplemento DN Jovem, do Diário de Notícias, a partir de 1990, recebendo diversos prémios, no Se7e, no Trevim, no BD Jornal, no Mundo Universitário e outros), revistas (Antitox, EGO, 365, Sul, Selecções BD, Rua Sésamo e outras), livros (incluindo livros escolares, realizando ilustrações e capas) ou fanzines (com destaque para Gambuzine, para fanzines editados por Geraldes Lino, como o Tertúlia BDZine, o Cadavre Exquis aliás Cadáver Esquisito, o Novas ‘fitas’ de Juca e Zeca e o Efeméride, e para fanzines publicados pelo próprio, como Marco Mendes). Em 2000, foi um dos fundadores do grupo Extractus (com Sérgio V. e J. Mascarenhas), um dos mais dinâmicos coletivos de autores da história recente da BD portuguesa. Em 2008, foi membro fundador da FECO Portugal, associação de cartunistas. Atualmente, após a “reforma” do fundador Geraldes Lino, Álvaro é um dos organizadores da Tertúlia BD de Lisboa.

Entre 1995 e 2005, mais do que pela publicação, o trabalho de Álvaro é reconhecido através de numerosos prémios atribuídos nos mais prestigiados concursos de cartoon e banda desenhada nacionais (incluindo Amadora, Moura e Oeiras). Paralelamente, Álvaro começa a publicar o seu trabalho na forma de livro. Em 1998, é o próprio editor de As Insustentáveis Incompatibilidades dos Seres, que recolhe muitos dos cartoons anteriormente publicados e distinguidos. Em 2007, pela Pedranocharco, publica Sexo, Mentiras e Fotocópias, o primeiro álbum de banda desenhada. Em 2013, Álvaro cria a sua própria editora, a Insónia, onde publica dois volumes de Balcão Trauma, um “manual de sobrevivência para todas as situações onde a caricatura e a realidade se confundem”, que dá continuidade ao universo de Sexo, Mentiras e Fotocópias. É também pela Insónia que republica, agora em papel, as tiras de No Presépio…

Na BD, Álvaro trabalha exclusivamente o domínio da banda desenhada humorística, em que a linguagem da BD serve sobretudo para garantir maior profundidade no tratamento do gag. Mas da linguagem irmã do cartoon, que igualmente domina, Álvaro traz a eficácia do ritmo e (ligada a essa eficácia) a economia da representação. As personagens criadas por Álvaro estão reduzidas a mínimos de individualização e expressividade, e, como tal, aparecem completamente finalizadas, prontas para superar qualquer teste de repetição resultante do caráter sequencial da BD. São, também por isso, verdadeiramente credíveis, como se existissem efetivamente num canto qualquer do imaginário (onde não é mesmo aconselhável ir sem ser acompanhado), de tal modo que o autor se limita a ir buscá-las para as apresentar ao leitor.

Isto acontece também em No Presépio…, onde o estilo de Álvaro valoriza e credibiliza a extraordinária galeria de personagens, exemplarmente captada por Pedro Moura num texto publicado no seu blogue LerBD:

“Esta Maria, vaidosa, concupiscente, algo breijeira, este José, irascível, frustrado e dado aos prazeres simples da vida, este burro, algo anarca, desconsolado e indómito, esta vaca, pouco dócil mas ao mesmo tempo indiferente às grandes comoções que a rodeiam, e este menino Jesus, cuja única função parece ser, à la Sammy Sneeze (de McCay), interromper a acção com o seu tonitruante choro ou outros atropelos típicos de recém-nascido, compõem uma família nada digna de ocupar os átrios das igrejas.”

Merece referência especial um comentário de Os Positivos ao texto de Pedro Moura, sobre o grafismo de Álvaro:

“As cores, os cinzas, os gradiantes, as sombras e ademais tratamento de photoshop assim como a escolha da font: está a reter o estilo do Álvaro. Trocava tudo por um preto e branco mais espesso, crosshatch para texturas e lettering manual.”

O estilo de Álvaro está cada vez mais liberto. Sobretudo desde 2013, em que trabalha  na banda desenhada com a consciência de que será o seu próprio editor. No Presépio… está imediatamente antes desta mudança de perspetiva, podendo também acusar o facto de ter sido concebido para publicação na Internet. Desconheço até que ponto é que Álvaro caminhará num sentido mais “artesanal” ou continuará a seguir o estilo de No Presépio… face ao sucesso alcançado, mas a questão é pertinente.

No Presépio

O currículo do argumentista José Pinto Carneiro na banda desenhada integra, para além deste No Presépio…, uma outra colaboração com Álvaro, também concebida para a internet: Homem-Voador. Fora da banda desenhada, José Pinto Carneiro é um reconhecido guionista de cinema e televisão (tendo sido coordenador de equipas de guionistas em projetos como Morangos com Açúcar) e escritor. Em 1994 publicou o seu primeiro romance, O Estranho Caso Da Boazona Que Me Entrou Pelo Escritório Adentro (Livros Cotovia), seguindo-se mais romances, novelas juvenis e contos em títulos como  Vende-se (Livros Cotovia), Os Leões de Cuangar (ASA) ou Todas Se Apaixonam Por Mim (Guerra & Paz).

Em No Presépio…, o argumentista dá largas à sua veia anti-clerical e blasfema, em exercícios satíricos pontuados por diversas referências culturais e de atualidade.

A serialização de No Presépio… na Internet foi cuidadosamente planificada, em contagem decrescente para o Natal, e com uma perspetiva do pós-Natal da família. Num extraordinário golpe de sorte que premeia quem se aventura em caminhos insólitos do humor, quando No Presépio… já tinha iniciado a sua publicação na Internet, o Papa Bento XVI veio declarar, em 2012, que a vaca e ao burro não deviam ter lugar na cena da Natividade, inspirando toda uma série de novos gags.

 

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