Razões para ir ao Festival de BD de Beja: A Identidade do FIBDB

Reconhecido por uma forte identidade, o projeto de Beja em torno da banda desenhada, que tem a sua face mais visível no Festival Internacional de Banda Desenhada de que se realiza este ano a 12.ª edição, passou com distinção o teste da mudança de espaço.

 

 

 

 

Ao décimo segundo festival, a Amadora deixou a Fábrica da Cultura e mudou de palco. Foi em 2001.

 

Ao décimo segundo festival, Beja deixou a Casa da Cultura e mudou de palco. Foi em 2016.

 

O desafio colocado pela necessidade de deixar um espaço emblemático foi superado por ambos os festivais, que fizeram com que o público não percebesse a dimensão da mudança.

 

Ainda assim, há uma significativa diferença entre as soluções encontradas por cada uma das cidades para dar continuidade ao seu projeto no momento em que se viram impedidas de utilizar o mesmo espaço: a Amadora afastou-se ainda mais do centro da cidade, enquanto que Beja tomou conta do centro histórico.

 

Isto pode ter várias explicações. Em primeiro lugar, a Amadora não tem (nem agora nem em 2001) um “centro histórico” que possa acolher um festival nos moldes daqueles que se fizeram nos últimos anos da Fábrica da Cultura. Não vejo como integrar o festival no centro da cidade sem alterar radicalmente o seu figurino. Eventualmente, alterando a altura do ano em que tem lugar, seria possível fazer um festival de banda desenhada entre a Câmara Municipal, os Recreios da Amadora e o Parque Delfim Guimarães.

 

Há uma outra caraterística que torna incomparável a realidade das duas cidades: na Amadora, a população habituou-se a uma oferta cultural limitada e incompleta, o que é suprido com a oferta cultural de Lisboa e de Sintra. Em Beja, sente-se a responsabilidade decorrente da quallidade de capital de distrito, procurando assegurar uma oferta cultural tão completa quanto possível. Assim, quando cada uma das cidades projeta o seu festival internacional de BD, ou pensa na forma de responder à necessidade de mudança de espaço, a Amadora pensa em servir o público do festival, enquanto que Beja pensa em servir a cidade.

 

Em Beja, o Teatro Municipal Pax Júlia permitiu acolher um número e formato de exposições próximo do que se apresentava na Casa da Cultura, e o que se perdeu em unidade, ganhou-se em proximidade aos restantes núcleos expositivos, a começar pelo Museu Regional (mesmo ao lado), cujo largo acolheu as lojas e tasquinhas. Sobretudo, deixou de se atravessar a cidade para andar pelo festival, passando-se a atravessar o festival para andar pela cidade.

 

Há que reconhecer que quem estava a ver alguma das mostras apresentadas no Teatro Municipal Pax Júlia, não dava conta de que já não estava na Casa da Cultura, embora tivesse a certeza absoluta de que estava no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja. O segredo desta ilusão espacial reside sobretudo na fortíssima imagem gráfica a que o festival nos habituou e que, mais do que unidade a todas as mostras, confere identidade ao evento.

 

Depois de uma edição sem orçamento, e de uma edição em que falharam (por motivos a que o festival é alheio) os principais convidados internacionais, Beja volta a mostrar que está à altura dos desafios decorrentes dos acidentes de percurso, não permitindo que os mesmos prejudiquem um projeto e um percurso feito com enorme mérito e dedicação.

 

É certo que os críticos do nosso burgo têm uma muito maior tolerância relativamente em Beja. Em Beja, vá lá saber-se porquê, os críticos têm disponibilidade mental para perceber o interesse da presença dum autor como Truscinski (sem obra publicada em Portugal e que brindou o público com magníficos autógrafos desenhados) ou de saber o que se passa na cena checa (através da bem estruturada apresentação de Vojtech Cepelák). Mas essa maior disponibilidade também resulta da capacidade que o festival bejense tem de explicar o que está a fazer.

 

Da mesma forma, não é estranha à enorme disponibilidade e simpatia dos autores presentes (de Baudoin a Filipe Melo, passando por Eduardo Risso ou Paco Roca) a criteriosa escolha do cartaz de convidados.

 

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