Razões para ir ao Festival de BD de Beja: A CASA

Já é conhecido (e divulgado aqui no aCalopsia) o programa da XII edição do Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja. Considerando que já escrevi sobre Baudoin (que seria um natural destaque obrigatório), escrevo hoje sobre uma exposição que corre o risco de passar um pouco à margem da divulgação do evento, e que merece algumas linhas: a Casa.

“A Casa” refere-se a uma casa de fazenda do século XVIII (da qual se originou a cidade de Nova Olinda), que pertenceu aos pais de Alemberg Quindins, que estava em ruínas, e foi recuperada e transformada em museu. A Fundação Casa Grande surgiu em 1992, visando resgatar a memória do povo do Cariri, criar um museu de arqueologia e mitologia e, concretizando a visão muito pessoal de Alemberg, criar um espaço onde as crianças mandassem, e onde as suas ideias pudessem efetivamente ser concretizadas e implementadas.

Esse espaço funciona como complemento escolar, e tem contribuído para transformar cada criança num ser visionário, que ganha conhecimento, acredita na capacidade de concretização, e que sabe como funcionam meios de comunicação e transmissão desse conhecimento.

O programa da Fundação assenta num eixo “memória-comunicação-artes-turismo”.

A cidade de Nova Olinda, com uma população muito pouco numerosa e que era um mero ponto de passagem para outros destinos do nordeste brasileiro, foi o palco ideal para acolher a Fundação, cujo projeto permitiu atrair um número de visitantes superior ao da população local, entre estudantes, pesquisadores e turistas. Mas a continuidade do trabalho exige a manutenção de parcerias que vão além do executivo municipal, desdobrando-se por entidades com diferentes âmbitos, públicas ou privadas. Ainda assim, esse esforço continuado tem sido reconhecido, quer pelo governo brasileiro, quer internacionalmente (desde logo pela UNICEF e UNESCO), levando também a outro tipo de aposta no turismo de Nova Olinda. E a beleza natural da cidade também ajuda.

A bedeteca (gibiteca) da Fundação é uma das mais prestigiadas da América Latina. Mas acrescem outros equipamentos, da DVDteca à CDteca, passando pelos laboratórios de conteúdos e de produção de televisão, rádio ou teatro, e por uma editora que produz cartazes ou revistas de BD.

A produção das “histórias em quadrinhos” da editora orienta-se sobretudo para três áreas temáticas: a própria Fundação Casa Grande, as lendas da região e o cuidado com a saúde. Nalguns casos, a história cruza estas áreas temáticas.

Tudo é gerido e protagonizado por crianças e jovens. A própria admissão na Fundação, depende de decisão dum conselho formado pelos jovens. E na perspetiva inversa, a Fundação tem sublinhado que a decisão de integrar o projeto também é, mais do que uma decisão dos pais, uma decisão dos jovens.

Não se pretende qualquer tipo de orientação profissional, mas uma melhoria individual, transformando o decisor humano em algo enriquecido pelo conhecimento, e com uma visão alargada cultivada em laboratório de produção, num projeto educativo que vai buscar muita influência ao percurso de Alemberg enquanto criança, quando ouvia histórias e fazia os seus próprios brinquedos, teatros e revistas de BD. E a banda desenhada faz parte desta formação.

A Fundação Casa Grande marcou presença na edição de 2015 do Amadora BD, cujo tema era a criança, com uma exposição no piso superior. Mas a ausência de catálogo impediu os visitantes de alcançar a dimensão do projeto. Em 2016, Alemberg Quindins, diretor-presidente da Fundação, regressa a Portugal para o Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja.

A exposição patente durante o XII Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja será apresentada na Galeria dos Escudeiros.

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