Sepulturas dos pais

Razões para ir ao Amadorabd 2014: Sepulturas dos Pais

David Soares apareceu no panorama da banda desenhada portuguesa em 1999, assinando (texto e desenhos) três fanzines de grande qualidade (“Alimentando-se Com os Fracos”, “Pessoas Comuns” e “Horror Fiction”). Com assumida ambição, propunha o despertar de todas as emoções do leitor (ou, falando mais abertamente, o choque deliberado com os seus próprios fantasmas). Para lá daquilo que o próprio autor já reconhecia na sua capacidade, o leitor começava a identificar-lhe um estilo muito posicionado no domínio da ficção de horror e um forte conteúdo literário (sobretudo dentro do discurso filosófico).

De fôlego em fôlego, acabou por se afastar da banda desenhada durante alguns anos (com a honrosa exceção de uma história curta em colaboração com Richard Câmara, para o 17.º AmadoraBD). Regressou à BD em 2009 (com o surpreendente Mucha, em colaboração com Osvaldo Medina e Mário Freitas), e, desde então, aparece sempre em colaboração com outros autores e na condição de argumentista.

Até aqui, tudo o que disse são factos mais ou menos objetivos. Passando agora à análise subjetiva, refira-se que não é fácil o trabalho em colaboração com David Soares. Em primeiro lugar, como bem se evidenciou na mostra que lhe foi dedicada na edição de 2013 do AmadoraBD, David Soares dá indicações muito detalhadas e precisas ao desenhador com quem trabalha, por vezes elaborando mesmo alguns storyboards (à semelhança de outros argumentistas-desenhadores). Apesar da inquestionável qualidade de um guião de David Soares, este tipo de colaboração não é para qualquer autor ou feitio (Jon Bogdanove disse na Amadora: “I would’t like to work with this guy”). Em segundo lugar, e no que me parece mais importante, David Soares tem uma voz autoral muito própria e distinta. Mesmo que a personalidade e o feitio do desenhador lhe permita levar a bom porto uma colaboração, será difícil que o desenhador consiga manter a voz autoral do argumentista e que consiga, através do desenho, acrescentar mais alguma coisa.

Para citar dois exemplos, e recordando que estou na parte subjectiva da análise (admitindo, naturalmente, que haja leitores que discordem da minha opinião), Osvaldo Medina fez um trabalho extraordinário em Mucha, de tal modo que quase não se repara que há autor para além de David Soares. Poderá, ainda assim, discutir-se o que acrescentou à história. Pessoalmente, prefiro o trabalho do Osvaldo noutro tipo de registo.

Chegando ao segundo exemplo, devo dizer que não sou adepto da dupla David Soares / Pedro Serpa. Não está em causa o talento de Pedro Serpa, cuja economia e legibilidade do traço merecem grande destaque, mas qualquer obra da dupla parece-me sempre um objecto a duas velocidades, em que texto e imagem não se entendem completamente.

SepulturasCapaLowres

Tudo isto para chegar ao anunciado álbum que celebra os 15 anos de BD de David Soares: Sepulturas dos Pais, em colaboração com André Coelho. Do álbum, conheço apenas o que tem sido divulgado na internet (nomeadamente aqui no aCalopsia), mas arrisco dizer que esta é a colaboração mais feliz de David Soares. André Coelho já o evidenciara em É de Noite que Faço as Perguntas, em que consegue captar (e retransmitir) a voz autoral de David Soares, e acrescentar-lhe mais alguma coisa com o desenho. É que muito do que caracteriza o trabalho de André Coelho é algo que vai bem com o estilo de David Soares, nomeadamente uma certa inquietação que lança sobre o leitor partindo de um todo muito negro e muito orgânico. É o tal choque deliberado com os fantasmas do leitor, que só podem ser feitos de negro-André-Coelho (Osvaldo Medina, para voltar ao exemplo referido, é menos agressivo e perturbador). Nascido em Vila Nova de Gaia, em 1984, André Coelho é licenciado em pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (2002/2007), fazendo BD desde 2000. Este ano, esteve em particular evidência através do título Terminal Tower, cujos originais estiveram no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja e na Galeria El Pep.

O lançamento do livro, que deverá contar com a presença dos autores, está previsto para o 25.º AmadoraBD, e constitui uma primeira razão para estar presente na Amadora.

O facto de se tratar da colaboração mais feliz de David Soares faz com que, partindo do princípio de que o autor e o editor mantêm a qualidade a que nos têm habituado (e nenhum deles sabe trabalhar de forma diversa), Sepulturas dos Pais seja já um dos candidatos a álbum português do ano. Autores e editor não têm escondido a sua satisfação pelo resultado final deste trabalho. Só falta a confirmação do leitor.

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