Portais, de Octavio Cariello e Pietro Antognioni

Portais
Portais propõe-nos uma ambiciosa história de ficção científica pura, ilustrada com uma exuberância cromática deslumbrante. No entanto, o querer ir muito longe no argumento acaba por prejudicar este livro, que necessitava de um desenvolvimento mais profundo.

Oitenta e uma páginas não são as suficientes para contar esta história. Portais tem um argumento ambicioso e uma ilustração deslumbrante, mas a narrativa desenrola-se de forma muito abrupta. Os autores quiseram colocar muita coisa em poucas páginas, tornando o livro algo inconsistente. É pena, porque apesar dos defeitos, esta é uma proposta muito original de ficção científica tropicalista.

O Largo Panorama de Portais

O argumento de Octavio Cariello é ambicioso. Mistura com eficácia mundos paralelos e viagens no tempo. Somos levados ao futuro muito longínquo da Terra, agora habitada por diversas espécies sentientes que vivem em guerras constantes e sob o jugo de governantes déspotas. Um ancião humano, no esforço de libertar os habitantes do jugo despótico, coloca em marcha um plano que implica o desaparecimento de pessoas vindos de diferentes tempos e mundos paralelos, para liderar as forças de libertação. Um é um personagem especial, um cientista que no futuro próximo desafia as instituições do seu mundo, prestes a entrar em guerra com Marte, através do desenvolver de métodos de teleporte com um colega e amigo marciano. A sua primeira experiência de desmaterialização projeta-o não para Marte, mas para o longo futuro, onde irá descobrir que a sua invenção é a peça-chave que permitirá aos seres do futuro libertarem-se dos seus opressores. Num curioso twist, este cientista é também o ancião do futuro, tendo atingido uma espécie de imortalidade. Cruzando-se consigo próprio, percebe que tem de criar o laço temporal que garante que os acontecimentos do futuro se desenrolem.

Não sei se a minha sinopse foi clara. Portais tem um argumento muito ambicioso, ao nível de Saga, se me permitirem a comparação. As sementes, as ideias, estão lá. O que não está é o espaço de desenvolvimento da história. Muitos conceitos, muita ação, muitas linhas narrativas e pouco espaço de desenvolvimento.Apesar de toda a promessa, o resultado é uma leitura confusa.

A Força Visual de Portais

A minha comparação com Saga não foi inocente. Não está apenas no ser banda desenhada de Ficção Científica, ou na ambição mostrada no argumento. Tal como Saga, Portais tem um nível gráfico esplendoroso. Visualmente, isto é pura FC tropicalista (como não resistir ao qualificativo?). A ilustração de Pietro Antognioni é vibrante e exuberante na cor. Funciona tão bem em cenários futuristas como apocalípticos ou banais. Ao pegar neste livro, o olhar é logo atraído para os desenhos, e essa atração não se desfaz.

Com esta edição, a Polvo mostra aos leitores portugueses mais uma faceta da banda desenhada brasileira, numa vertente que raramente nos chega, a da Ficção Científica. Um género que por lá, tem forte edição literária e gráfica, bem como um fandom ativo, mas os livros dos autores brasileiros raramente cruzam o imenso atlântico. Tal como os nossos. Acordos ortográficos à parte, as barreiras alfandegárias falam mais alto. A irmandade do país que é a nossa mais antiga e famosa ex-colónia (lamento, não resisti, é um mero trocadilho e não um resmungo nostálgico sobre impérios perdidos e saudosismo colonialista) não se traduz em trocas culturais que vão além do mainstream literário, da academia, da música popular ou das telenovelas. Mesmo as redes sociais e a interconexão online não alteram muito isso, quando muito, ficamos a conhecer o que estamos a perder. O trabalho sustentado que a Polvo tem feito, trazendo obras de autores de Banda Desenhada brasileira ao público português, contribui para a divulgação de géneros culturais brasileiros que escapam ao padrão dos media.

6 Argumento

4 Planificação

8 Temática

9 Deseho

9 Arte Final

9 Cor

7 Legendagem

8 Produção

Portais propõe-nos uma ambiciosa história de ficção científica pura, ilustrada com uma exuberância cromática deslumbrante. No entanto, o querer ir muito longe no argumento acaba por prejudicar este livro, que necessitava de um desenvolvimento mais profundo.

7.5
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