Polvo Internacional na Amadora BD

Onde se fala sobre a Polvo e o americano que vem fazer fanzines

A Polvo este ano celebra 20 anos de existência, a publicar sobretudo autores nacionais, e este fim-de-semana é ironicamente a editora em destaque devido aos autores internacionais que publica.

Marcelo Quintanilha, Henrique Magalhães, Jan Bauer e tem exposições no AmadoraBD (ABD) e vão estar presentes para sessões de lançamento e sessões de autógrafos. A portuguesa Mosi e o brasileiro Laudo Ferreira também tem sessões de lançamento e autógrafos.

Eu podia fazer um longo texto sobre estes autores e os lançamentos, ou algo mais modesto como para a Escorpião Azul, porque a Polvo é mesmo um dos destaques deste fim-de-semana.

Contudo a organização não parecer considerar isso muito relevante, pelo menos não trata os convidados como sendo vedetas. Os convidados internacionais ainda têm direito a aparecer numa lista one os nomes são apresentados sem qualquer critério ou informação complementar. Quem conhece conhece, quem não conhece não conhece.

Existem autores que até não são desconhecidos, nem nomes “menores” como por exemplo o Marcello Quintanilha, contudo a organização do Festival é que não parece saber isso.

Quintanilha até merecia que escrevesse mais sobre ele, uma vez que é mesmo o nome maior deste fim-de-semana, mas até ele sabe a pouco, é autor em segunda mão, já não é uma novidade é quase uma inevitabilidade. Já esteve  presente em diversos festivais em Portugal, tendo direito a uma exposição em Beja. É um autor cuja obra está editada quase na integra em Portugal e, apesar de não ter ganho nenhum PNBD, já foi premiado por diversas vezes, incluindo em Angoulême.

A exposição e a presença de Quintanilha podia ser um dos destaques do festival se este o tratasse como tal. Como sendo uma consagração de um dos mais relevantes e premiados autores brasileiros da actualidade, contudo parece ser irrelevante, quase um formalidade que o ABD tinha de cumprir. O autor merecia mais, assim como merecia a generalidade dos autores, mas na Amadora os autores são secundários.

Mathieu Sapin

Esta é uma das grandes piadas do festival. A situação é tão ridícula que até pessoas mais bem comportadas do que eu gozam com o facto dele estar sempre presente na Amadora.

Não sabem quem é o Sapin? Vão ler o texto do Pedro Mota sobre a obra e presença do autor em 2015 na Amadora. O Mathieu é um dos sapos que a organização enfia pelas goelas dos visitantes todos os anos: autores sem obra editada que só meia dúzia de pessoas conhece, contudo é um dos autores internacionais com mais presenças no festival. Este fim-de-semana volta a estar lá!

Fanzines à Americana

Eu até estava a sentir-me mal, por dizer que o Quintanilha era um “autor em segunda mão”, mas depois li o nota de imprensa do festival e, efectivamente, para a Amadora ele não é o cabeça de cartaz deste fim-de-semana.

O grande destaque do festival é para de Joshua Neufeld, autor A.D.: New Orleans After the Deluge, convidado no âmbito da Exposição Central – “Contar o Mundo”. O qual é inédito em Portugal e desconhecido da maioria do público, até nos EUA, e só vai estar no festival para promover a exposição – fazer uma visita guiada, conversar com a Sara Figueiredo Costa e fazer um oficina de fanzines.

Sim amigos!

JOSHUA NEUFELD VAI ESTAR NO AMADORABD A DIRIGIR UMA OFICINA DE FANZINES.

Isto é para rir, caso contrário só dá para chorar.

Alguém consegue explicar porque se anda a pagar viagens de avião e alojamento a autores americanos para dirigirem oficinas de fanzines? É que não é a primeira vez temos cá estrangeiros a dirigir oficinas de fanzines. Não existe em Portugal pessoas competente o suficiente para dirigir uma oficina de fanzines?

Eu podia mencionar muitos, mas vou dar como exemplo mesmo um dos gigantes nacionais: Nuno Saraiva, autor em destaque no AmadoraBD, cujo fanzine HIPS! até está incluído na exposição que lhe é dedicada. Mas existe mais autores com experiência e conhecimentos na área. É que pelo menos uns 90% dos autores nacionais começaram pelos fanzines…

Pedro Moura e Sara Figueiredo Costa vocês que são, ou já foram, membros dos corpos dirigentes da Oficina do Cego, uma associação que efectua várias actividades para a promoção da edição independente em Portugal, consideram que é necessário vir um tipo dos EUA para fazer uma oficina de fanzines? Os portugueses não são bons o suficiente? Os fanzines tornaram-se numa arte tão complexa que é preciso importar especialistas americanos?

Eu sou da opinião contrária. Sendo que andar a trazer nomes menores, desconhecidos, sem obra editada para andar a fazer oficinas de fanzines é um desperdício de dinheiro por parte do festival.

A pobreza do festival é culpa da Amadora

Aquela miséria em que se transformou o ABD é produto da má gestão de Nelson Dona, director do festival, e dos idiotas que organizam as exposições e acham relevante trazer a Portugal autores marginais no contexto internacional e nacional, simplesmente porque lhes caíram no goto.

O festival gosta de gastar dinheiro estupidamente.

Eduardo Filipe Sama é um autor brasileiro radicado em Portugal que tem exposto na exposição central originais de Nada a Temer, um fanzine de contestação à actual situação social e política no Brasil. Sama tem realizado vários fanzines e edições independentes editadas em Portugal. Sama é bom para constar na exposição, porque motivo é que o Sama – por exemplo – não chegava para dirigir uma oficina de fanzines? Era demasiado barato?

O Sama é um autor independente, underground e patiti-patátá. O Sama é tão bom ou melhor que o Neufeld, mais conhecido em Portugal do que o Neufeld. Fazia mais sentido dar destaque ao Sama do que ao Neufeld.

Era maneira fácil de ter um “estrangeiro” patente na exposição a promover a exposição e as suas edições. Sendo que também libertava verbas para trazer convidados a residir no estrangeiro menos obscuros e com obra publicada.

O problema de residir em Portugal

Se os Portugueses não são bons para dirigir oficinas de fanzines, temos cá outro nome “internacional” com vasta experiência na edição independente: André Diniz, o qual tem vários álbuns publicados pela Polvo e O Idiota, publicado pela Levoir na colecção Novela Gráfica. É um autor publicado também no Brasil e em outros países. Já não me lembro se andou a ganhar prémios ou não, mas é um bocadinho irrelevante. Tem qualidade, obra publicada é minimamente conhecido do público.

Durante um anos teve honras de convidado internacional no AmadoraBD, agora como está a residir em Portugal, passou a ser ignorado como os portugueses.

O Amadora BD não faz listas de convidados nacionais. Se o destaque e promoção que faz dos autores internacionais é pouca, a maneira como trata os nacionais é pior. Os únicos convidados internacionais que o festival ignora é os que são pagos exclusivamente pelas editoras, já existiu anos em que editoras andaram a pagar a deslocação de autores e depois o festival “esqueceu-se” deles.

A Amadora gosta de gastar dinheiro estupidamente e parece dar pouco valor a quem investe tempo e dinheiro no festival.

Desculpem lá!

Quintanilha e Rui Brito, desculpem lá não destacar mais o trabalho que fazem, mas cansei-me. Estou estou com vontade é de falar mesmo do AmadoraBD, todos os anos é a mesma merda!

Se o cartaz é pobre, a incompetência da organização ainda o torna pior, porque ainda não valoriza aquilo que tem. Quintanilha e outros autores e que eram desconhecidos em Portugal saíram de Beja elevados, no AmadoraBD saem menorizados. Porque não são os nomes sonantes da BD internacional a que o festival nos tinha habituado – num passado cada vez mais longínquo – e, sobretudo, porque não são tratados como sendo as valor emergentes, certezas ou vedetas do amanhã.

Para o festival as exposições que fazem para o umbigo são mais relevantes que os autores.

O grande destaque, o primeiro nome a ser mencionado e promovido pelo Amadora BD no comunicado de imprensa deste fim-de-semana é Neufeld. Uma nota de rodapé no contexto da BD norte-americana, no contexto da BD internacional, no contexto do mercado nacional de BD. Neufeld só é considerado relevante porque vem fazer umas visitas guiadas à exposição central com a Sara Figueiredo Costa, conversar com a Sara Figueiredo Costa e dirigir uma oficina de fanzines.

Nada a temer!

O Sama fez um fanzine chamado Nada a Temer, eu qualquer dia faço um chamado Queremos outra Dona na Costa da Moura.

Gralha Final

Em relação a eventuais gralhas neste texto ou em  outros textos sobre o ABD, desculpem lá! Mas já não estou para me chatear muito. O projecto que tem um orçamento de meio milhão de euros não é o aCalopsia. Considerem estes textos como os meus desabafos de Facebook, a diferença é que não se perdem na voragem dessa plataforma e para o ano ainda cá estão. São desabafos que perduram no tempo.

Tags from the story
,
Written By
More from Bruno Campos

Fernando Relvas: câmara ardente e funeral

Câmara Municipal da Amadora divulgou os detalhes relativos às cerimónias fúnebres de...
Read More

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *