POLARITY de Max Beemis e Jorge Coelho

“Polarity”, de Max Bemis e Jorge Coelho, é um álbum que foi serializado numa mini-série de quatro números, editada pela BOOM! Studios.

POLARITY
Argumento: Max Beemis
Desenhista: Jorge Coelho
Colorista : Felipe Sobreiro
Capa: Frazer Irving
Editora: Boom! Studios

O argumentista Max Bemis, também conhecido por ser o vocalista da banda “Say Anything”, tem aqui a sua primeira aventura no universo da nona arte. Uma primeira investida que se debruça sobre o conceito do super-herói, mas desenvolvendo-o a partir de uma personagem que sofre de bipolaridade. Existem determinadas capacidades, tais como a criatividade, que se encontram ligadas a determinados transtornos mentais.

Timothy Woods é um artista plástico que sofre de bipolaridade. Graças à sua medicação ele sente-se em controlo da sua vida mas também preso, afastado do seu potencial, o que o faz sofrer não só a nível pessoal como profissional. Num acto de rebeldia opta por terminar a sua medicação, contudo, mal ele imaginava que a sua mente estava a conter muito mais do que os seus estados emocionais, que afinal sempre possuiu capacidades físicas e mentais extraordinárias (força, velocidade, telepatia), apenas não as conhecia. De repente o céu passou a ser o limite, resta agora saber se a personagem terá o auto-controlo necessário para encontrar o rumo que pretende dar à sua vida.

O maior triunfo deste argumento prende-se precisamente com a exploração da dualidade psicológica de Timothy, que alterna entre estados de depressão e euforia desmesurada. Apesar de estarmos a falar de elementos fantasiosos na vida da personagem, esta não deixa de ser uma situação que faz referência ao dia-a-dia de alguém bipolar, pois para Tim ter acesso aos seus superpoderes terá sempre de abdicar da sua medicação, abdicando ao mesmo tempo do domínio de si mesmo. Isto ganha contornos mais significativos na sua vida pessoal quando Lily, o interesse amoroso, entra em cena. O problema é que a narrativa em que tudo isto ocorre vai perdendo o encanto ao longo do tempo. A teia de manipulação em que Timothy se encontra, que envolve outros como ele, é explorada de uma forma demasiado simplista e previsível. O meio cultural de Brooklyn é focado de uma forma bastante divertida, particularmente os hipsters, mas a dada altura sente-se que “Polarity” deixa de ser uma história para ser uma catarse do argumentista. Quanto à conclusão está cheia de lugares comuns, pecando por ser demasiado “conto de fadas”, algo que surge como uma surpresa, tendo em conta o que o início aspirava.

Uma das maiores virtudes de “Polarity” é o desenho de Jorge Coelho. Desde as personagens ao cenário, o seu trabalho é muito competente ao longo de toda a história, adapta-se à dinâmica que ela precisa e contém alguns momentos de virtuosidade, em particular a sequência em que Timothy abdica da medicação. Esta situação é retratada numa magnífica splash page , onde o desenhador exemplifica a evolução do estado mental da personagem a partir de uma espiral descendente de loucura. Nota-se que existe algum desconforto nalgumas sequências de acção, onde o movimento das personagens deveria ser mais fluído, mas na sua maioria as soluções apresentadas por Coelho são agradáveis e funcionais.
Felipe Sobreiro, o colorista, realiza um trabalho muito similar ao que tem vindo a desenvolver na saga “Luther Strode”. Determinadas vinhetas pecam por ser demasiado escuras, ocultando pormenores do desenho (a splash page mencionada acima, por exemplo). O que aconteceu por opção de Sobreiro ou, muito possivelmente, devido à impressão, algo que é lamentável. Com excepção deste pormenor, a cor combina muito bem com o desenho de Jorge Coelho, criando uma simbiose entre os dois artistas que funciona na perfeição. A utilização de tons sépia num flashback é uma escolha prática, mas também harmoniosa por parte do colorista.

A premissa de “Polarity” é bastante aliciante, uma brisa de ar fresco na abordagem ao género de super-heróis, provando que ainda é possível explorar novas ideias, de forma distinta e inovadora, dentro do mesmo. Infelizmente, em termos de argumento, esta criatividade parece ir esgotando-se à medida que avançamos nos capítulos, nunca recuperando a qualidade apresentada no primeiro.

Escreve para os sites Rua de Baixo eTVDependente. É o autor do blog Alternative Prison onde escreve sobre BD, cinema, televisão e outras coisas.

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