Poem Strip: A Poesia Visual de Dino Buzzati

Poem Strip, do autor milanês Dino Buzzati é um dos precursores do romance gráfico moderno.

É habitual que nos venham à mente sempre os mesmos nomes, quando falamos dos escritores de fronteira que transvazaram os limites entre a literatura convencional e os géneros do fantástico e ficção científica, com incursões cada vez mais decisivas no estranho, surreal e fantástico (o que alguns comentadores designam de transreal), abrindo pontes para que escritores conotados com a ficção de género utilizassem as suas vertentes mais experimentais para esbater barreiras. Borges é incontornável, Cortázar mais apreciado pelos conhecedores. Os mais erutidos apontam para Grabinsky ou Kafka, indo buscar óbvias raízes a Poe e Lautréamont. Nestas discussões o italiano Italo Calvino é um dos suspeitos do costume. Mais raro é falar-se do seu compatriota Dino Buzzati.

Escritor milanês cuja obra incide sobre os domínios do absurdismo surreal, também pintor e jornalista do Corriere Della Sera, legou-nos um vasto acervo de literatura infantil, contos, alguns editados por cá no livro A Derrocada da Baliverna, e romances como A Estepe dos Tártaros, livro que pode ser descrito como se O Processo de Kafka tivesse sido narrado pelo ponto de vista de um funcionário burocrático do tribunal interminável. Autor que está longe de estar esquecido e tem o seu nome firmado no panteão literário, valha o que isso valer. Mas, no que toca a discussões sobre escritores de fronteira, tende a ser ofuscado pelos nomes mais conhecidos. Dentro da sua vasta obra literária este Poem Strip/Poema a Fumetti é também um corpo estranho num corpus essencialmente composto por romance e conto.

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Como àparte, devo referir o quão acho delicioso o nome que os italianos dâo à banda desenhada. Diz-se que a palavra fumetti surgiu inspirada pelos balões de pensamento. Pormenor deliciosamente onírico, a condizer com muito do que se encontra por toda uma BD que não se esgota nas infindas repetições de Tex Willer que podemos econtrar por cá. Um destes dias ainda me atreverei a falar de Tiziano Sclavi e do seu Dylan Dog, obra que merecia um reconhecimento crítico internacional mais vasto do que a que tem. Mas adiante, e regressemos a Buzzati.

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Poema a Fumetti revisita a lenda clássica de Orfeu e Eurídice, por entre as ruas de uma Milão fantástica onde um músico vê a mulher que ama desaparecer para lá de uma porta. Ele, Orfi, seduz as mulheres da cidade com as melodias da sua voz e da sua guitarra. Mas apenas a desaparecida Eura o apaixona. Perseguindo-a, desce aos infernos onde pairam as almas esquecidas guardadas por um demónio invisível que se queixa que as profundezas tartáricas se converteram numa tecnocracia pequeno burguesa. Tal como Orfeu, o músico terá de encantar o demónio guardião e as almas que deambulam amnésicas por um mundo subterrâneo com o poder da sua música. Mas o que lhe dará a chave para descer aos infernos é a sabedoria dos seus versos e não o lirismo das melodias.

Orfi só reverá Eura após colidir com a sedução da burocracia infernal representada por uma sinuosa, esbelta e sensual arquivista que lhe indica onde poderá encontrar a amada por entre as vastidões urbanas povoadas por almas deambulantes. O reencontro dá-se na plataforma de uma estação de comboios que leva as almas para… a vida, o olvido, outros paraísos, para a memória dos vivos. Estação de onde partem comboios a todas e a nenhuma hora. Ao contrário do Orfeu clássico, a Orfi é permitido tocar e abraçar Eura, mas o seu tempo é limitado. Ela aceita o seu calor, curta memória a cortar a frieza da morte, mas resiste aos apelos de regressar ao mundo dos vivos. No final do tempo estipulado Orfi revê-se frente a uma parede de um edifício de uma rua de Milão, onde outrora houvera uma porta misteriosa, contemplando uma perda definitiva que teve um último momento amargo partilhado no submundo, onde a inevitabilidade da morte se afirma nos esquecimentos da eternidade nua.

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É, na sua essência, um hino à mulher, ao amor, ao desespero da solidão e à resignação perante forças inquebráveis do destino. A narrativa oscila entre a poesia onírica e a referência à mitologia clássica, com momentos de amargura existencial e mal estar do ser perante o mundo e do mundo perante o ser. Visualmente este livro é inquietante e também abala expectativas. Oscila entre ilustração deliberadamente má, a remeter num esitlo pop visual para o que se tornaria o movimento bad painting, desenhos com uma forte carga de erotismo e ilustrações de surrealismo negro que se situam entre as estéticas de Edward Gorey e Giorgio deChirico. Na estrutura opta pela prancha e abandona as vinhetas. Poema a Fumetti funciona mais como romance filosófico e poético ilustrado, com a imagem a substituir os elaborados parágrafos literários que aqui se resumem a legendas que nos pegam na mão, conduzindo-nos pelos caminhos da história. A preocupação não incide realismos, mas num onirismo surreal com recorte sensual e que impressiona especialmente no retratar da silenciosa solidão nocturna dos espaços urbanos. Os desenhos são da autoria de Buzzati.

Poema a Fumetti é uma banda desenhada obscura, tida como uma das precursoras da moderna graphic novel como o romance gráfico que é. Está fora dos cânones estabelecidos e longe quer do mainstream do fumetti quer da BD de autor italiana. Foi traduzida para inglês numa belíssima e acessível edição da New York Review of Books. Edições por cá desconheço, embora tenha dado com uma tradução editada no Brasil.

O blog 50 Watts publica algumas das vinhetas mais assombrosas deste poema visual. Recomenda-se a visita.

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Poem Strip de Dino Buzzati, New York Review of Books, 224 páginas.
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