Platinum End Vol. 01 de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata

Ser deus é um evento cíclico, até o cansaço pesar nos ombros e levar ao seu afastamento. Com o lugar vazio, treze anjos podem disputar entre si o acesso à divindade. Anjos nunca serão deuses, mas assegurarão poder absoluto se a pessoa que escolherem sobreviver ao processo e transcender a sua humanidade. Sob este cenário, uma anjo algo inexperiente intervém para salvar a vida de um adolescente deprimido. Ao fazê-lo, são ambos lançados neste jogo de poder de consequências fatais. Para se ser um deus, é preciso ter olhado o abismo da depressão, só aqueles que redescobrem a vida terão vontade de a proteger e fazer evoluir, o papel que terão desempenhar como deus. É esta a premissa de Platinum End, a nova série de mangá trazida para Portugal pela Devir, com argumento de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, já conhecidos do público português pela série Death Note.

O Presente do Anjo

Portanto, a tua vida é deprimente, desde o falecimento misterioso dos teus pais que vives com uns tios que te diminuem e desprezam. Com o ano letivo a terminar, a intensa opressão da solidão torna-se tão sufocante que te leva ao telhado de um prédio, prestes a dar o passo final e fatal da libertação terminal. É nesse momento que um anjo intervém. Não como metáfora, subtilezas dessas não são o usual no mangá destinado a públicos Young Adult. E se os anjos não têm sexo, este é facilmente identificável como uma jovem adolescente, com um ar entre o sensual e o infantil.

Platinum End
Um toque reminiscente de Asas do Desejo de Wim Wenders

Ser salvo por um anjo num momento de desespero é um enredo clássico da ficção popular, a ignição de histórias em que o personagem descobre, graças à intervenção angelical, que o mundo sem si seria tremendamente diferente, para pior. Talvez o melhor exemplo desse género narrativo esteja em It’s a Wonderful World de Frank Capra, esse filme desprezado aquando da estreia mas cuja mensagem de ajuda e importância da comunidade o tornou, gradualmente, num clássico incontornável e tradição cinematográfica de natal.

Não temam, fãs da banda desenhada japonesa. O argumentista de Platinum End não decalca as desventuras da sua personagem a partir do argumento de filmes a preto e branco. A intervenção do anjo (deveria escrever “da anja”, mas não consigo) no momento máximo de desespero humano não é um acto de benevolência, antes, é o elemento que lhe permite entrar numa bizarra competição entre anjos. Um jogo que tem como fim último escolher a divindade.

Deus, na mitografia desta série, é um mortal apanhado num momento de desespero, salvo por um anjo, e que sobrevive às tribulações de uma competição entre treze anjos pelo privilégio de elevar o seu humano à condição de divindade. A proximidade do abismo é a condição essencial. É preciso sentir-se que nada vale a pena para compreender o prazer de viver, e com isso querer assumir em pleno o papel de deus. A intervenção do anjo (aliás, anja) Nasse garante-lhe um lugar numa competição geralmente reservada para anjos mais poderosos. O jovem Mirai é o seu peão neste jogo pelos destinos do universo.

Ser salvo por anjos tem, neste universo ficcional, algumas vantagens. O humano ganha asas, não como metáfora, como um par de membros extra que lhe cresce nas costas quando necessita de se deslocar com rapidez, e ainda recebe o poder de setas coloridas, a primeira das quais serve para fazer que quem quer se seja por ela atingido fique irremediavelmente apaixonado durante trinta e três dias. Há uma lógica por detrás destas dádivas. Os anjos precisam de mostrar aos seus humanos o valor da felicidade, e estas dádivas permitem-lhes, crêem, que os humanos consigam tudo aquilo que desejam. É esse o valor máximo da felicidade, vista por estes anjos em luta. Esta visão quase maniqueísta da humanidade, com anjos que agem como demiurgos em nome de um conceito de bem compreendido como satisfação egoísta dos desejos mais íntimos, é o intrigante cerne conceptual desta série.

Para surpresa de Nasse, Mirai irá revelar-se um humano atípico, que não está interessado em felicidades atingíveis com pouco esforço. Para o convencer a usar as suas dádivas, vai-lhe revelando segredos sobre a sua vida, um dos quais terá consequências catastróficas. Graças às revelações angélicas, Mirai descobre que os seus pais não morreram acidentalmente, foram assassinados pelos tios, num plano para lhes ficar com as riquezas. Mirai sobreviveu por puro acaso, e os assassinos vêem-se obrigados a tomar conta do sobrinho que os impede de gozar plenamente da herança. Para descobrir se o anjo lhe fala a verdade, Mirai usa os seus dons, provocando a morte da sua tia após um momento intenso de revelações emotivas. No entanto, o jovem não procura a vingança sobre os seus tios. Não os perdoa, mas recusa-se a seguir a lógica do olho por olho, dente por dente. Um sentimento incompreensível para Nasse, que julga que os humanos são felizes apenas na satisfação imediata das suas necessidades.

A Natureza do Homem

Se tens o poder de fazer com que todos te adulem e se atirem aos teus pés, porque não o usas? Afinal, se para superar qualquer dificuldade, receber benesses ou satisfazer os desejos mais lúbricos, basta atingir pessoas com setas angélicas, para quê se resignar à normalidade? Nasse assiste, incrédula, à recusa de Mirai em utilizar os seus dons para atingir os seus objetivos. Recuperando a vontade de viver, Mirai luta por ter rendimentos e inscreve-se, como qualquer adolescente da sua idade, nos exames que lhe permitem o acesso ao liceu para prosseguir estudos. Em todos os momentos a anjo o insta a não perder tempo, usando os seus dons para obter felicidade imediata. Mirai resiste, sempre, fazendo as coisas à sua maneira, mostrando à anjo que para si ser feliz implica lutar humildemente pelo que mais anseia, sem atalhos nem batotas. Com a sua atitude obstinada, começa a fazer compreender à anjo o verdadeiro valor da felicidade humana.

Refira-se que na série Platinum End os anjos agem mais como demónios tentadores do que forças benévolas. Seguem a iconografia clássica do anjo como ser alado perfeito, à imagem humana, mas na luta para designar o seu humano como deus não têm escrúpulos em agir com perfidez e violência. Toda a ideia de tornar o humano feliz através do conceder os seus desejos parece-se mais com actos demoníacos do que angelicais. É uma dualidade curiosa, que se sente mas não é aparente neste primeiro volume da série. Talvez estes anjos não o sejam, realmente, e o deus que resultará deste processo seja um demiurgo ajudado por forças malévolas. A anjo que auxilia Mirai encarna bem esta dualidade. Com um ar puro e sorridente, tem uma sublime inocência na forma como instiga ao mal.

Platinum End
A violência implícita nos dons angelicais.

Mas se há treze anjos a competir para colocar o seu humano no trono divino, por onde andam os outros doze? De repente, Mirai e Nasse assistem às notícias escabrosas de um comediante popular por quem, de repente, várias mulheres atraentes do estrelato japonês confessam publicamente o seu amor incondicional. Claramente, este é outro bafejado pelo poder angélico, mas que não tem escrúpulos em usar os seus dons para satisfazer os seus desejos lúbricos. É essa a sua felicidade imediata, mas acabará depressa, assassinado por outro candidato a deus. Insistente em manter a sua vida banal, Mirai percebe que a sua associação inesperada com Nasse o coloca em perigo.

O Herói Justiceiro

Tudo o que queres é viver a vida de anónimo estudante de liceu, e talvez conseguir chegar ao pé da rapariga que secretamente amas. Sabes que estás envolvido num jogo perigoso, em que não pediste para participar, mas se fores discreto talvez consigas sobreviver, certo?

Ou talvez não. A cidade de Tokio assiste ao impensável, à encarnação real de um super-herói de série televisiva que começa a aparecer nas ruas, resolvendo crimes violentos. Os ecrãs enchem-se de imagens do herói, num fato de mecha a travar um assalto a um banco. Claramente, é outro humano a usar os seus dons angelicais. É uma estratégia de confronto e visibilidade, que não passa despercebida a Mirai. Mas este ainda acredita no poder de ser discreto, e inicia as aulas no novo liceu. Nasse instiga-o a usar os seus dons para despertar a paixão na jovem que Mirai ama, mas este recusa, sempre. Qual é o sentido de uma paixão artificial, desperta por artimanhas, para quem procura a verdadeira felicidade? Claramente Mirai não é um personagem miltoniano, alguém que prefere reinar no inferno a servir no céu.

A grande surpresa que encerra este volume de Platinum End acontece nos primeiros momentos de Mirai no liceu. A cidade onde habita já revelou a existência de dois competidores ao lugar de divindade, mas o mundo é vasto e os restantes deverão estar espalhados pelo planeta, pensa. A grande surpresa está logo na entrada da escola, com outro anjo a pairar sobre a multidão. Quem será o humano deste anjo, a pessoa que atingiu os píncaros do desespero e é agora uma das candidatas a ser deus? A resposta surpreenderá, quase fatalmente, Mirai, ao ver-se trepassado por uma seta angelical segura nas mãos da rapariga por quem está apaixonado.

Platinum End: Uma Surpresa Inesperada

Conseguirá Mirai manter a sua moral humanista e não ceder à tentação do poder? Aprenderá Nasse quais os verdadeiros valores da felicidade, compreendendo melhor os humanos por quem vela? Conseguirão sobreviver aos assaltos iminentes das outras duplas anjo/humano, que os procurarão eliminar para assegurar a vitória final e a divindade? Conseguiremos perceber se a narrativa segue uma estratégia de inversão de pressupostos morais, mostrando-nos o mal como se fosse algo de bom e desejável? Temas a desenvolver nos próximos volumes de Platinum End, espero.

Platinum End, apesar de estar claramente destinada a um público jovem, quebra alguns dos pressupostos deste público-alvo. Tem elementos de sexualização aberta, não explícitos, mas nada inocentes. A sua moralidade é ambígua, apesar da força de caráter da personagem principal. Surpreende este nível de complexidade que se encontra por detrás do texto, algo muito pouco habitual nos mangá destinados a este tipo de público. Visualmente, a colisão entre estética japonesa e a iconografia barroca que está subjacente aos anjos como tema estilístico funciona muito bem, com um equilíbrio entre o kawaii, o chocante e vinhetas deliciosas que enchem o olho do leitor.

Platinum End

Autores: Tsugumi Ohba, Takeshi Obata
Editora: Devir
Páginas: 192, capa mole
PVP: 9,99 €

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