Pedro Moura: “A maioria do público não terá grande interesse nestas abordagens académicas”

Pedro Vieira Moura, crítico e divulgado de BD, é o responsável pela realização das Conferência de Banda Desenhada de Portugal (CBDPT) cuja terceira edição se realiza na próxima quarta-feria, dia 18 de Setembro.

Pedro Vieira Moura, crítico e divulgado de BD, é o responsável pela realização das Conferência de Banda Desenhada de Portugal (CBDPT) cuja terceira edição se realiza na próxima quarta-feria, dia 18 de Setembro, na Faculdade de Letras de Lisboa.

Esse é o ponto de partida para esta curta entrevista.

Bruno Campos: Como surgiram as CBDPT? Quais os seus objectivos?
Pedro Moura: A ideia de partida das Conferências de Banda Desenhada em Portugal foram lançadas algum tempo por volta de 2007 ou 2008, e tentaram ter uma configuração totalmente diferente, sobretudo porque associada a outras plataformas dedicadas à banda desenhada. No entanto, por vários motivos, alguns dos quais orçamentais e outros de, digamos, vontade política (mas nada de grave nem controverso, atenção!), as coisas não poderem ser coordenadas como se imaginou. Passei então a organizá-las solitariamente, sempre com o apoio de muitos indivíduos e de instituições, e tive a sorte de contar com o patrocínio mesmo de entidades (Nouvelle Libraire Française, Instituto França em Portugal, etc.) que permitiram sempre arranjar espaços dignos, etc.

Quanto aos objectivos, são muito simples, é o de providenciar um ponto de encontro para todos aqueles que estejam interessados em dedicar algum tempo a uma abordagem mais crítica e analítica da banda desenhada, com uma sustentação teórica sólida. Não há qualquer obrigatoriedade das pessoas estarem associadas a uma estrutura académica, mas há pelo menos a exigência que se elabore um qualquer tipo de discurso que revele alguma capacidade argumentativa, e de relevância intelectual e cultural que tenha a banda desenhada (ou outros territórios que façam sentido aproximar a ela) como objecto de  estudo.

O que é o LEBD (Laboratório de Estudos de Banda Desenhada)? Quem são os seus objectivos e quem é que o integra?
O LEBD é mais uma desculpa de “institucionalização” do que outra coisa qualquer. Trata-se tão-simplesmente do meu espaço de trabalho pessoal, uma espécie de pequena biblioteca especializada em estudos de banda desenhada, onde estão disponíveis, por exemplo, quase todos os livros  académicos de banda desenhada que tenho a sorte de receber para fazer reviews no meu próprio blog.

A ideia é transformar este espaço num outro ponto de encontro, mais físico, onde se podem apoiar pessoas que estejam à procura de informações, pistas bibliográficas, contactos interdisciplinares, etc., sobre qualquer assunto relativo à banda desenhada. Não se trata de ser eu a dar respostas, já que não domino, nem pouco mais ou menos, todas as disciplinas. Eis um exemplo: se houver alguém que se queira dedicar a um estudo sociológico da banda desenhada portuguesa, poderá precisar de saber se existem estudos já sobre esse assunto em Portugal, ou se existem modelos internacionais. Ora eu não sendo sociólogo, posso ajudar ora a dar conta de bibliografia (livros, artigos, fontes digitais) que verse ssobre o assunto ou posso ajudar a pessoa a entrar em contacto com um especialista desse assunto, nacional ou estrangeiro. Portanto, um papel de guia, nada de muito mais. Posso dizer que esta pequena rede já permitiu fazer algumas orientações de tese de Mestrado, trocas de bibliografias com candidatos a doutoramento ou mesmo alunos universitários que procuram terminar um paper, etc.

Portanto, cada vez que conheço novos investigadores, especializados ou não, convido-os a mostrarem-se disponíveis para poderem ser contactados por outras pessoas que poderão expandir, dialogar ou confrontar-se com pontos de vista diferentes, mas cuja coordenação e conhecimento recíproco aumentará a massa crítica deste tipo de conhcimento sobre  a banda desenhada em Portugal (se bem que compreenda que a esmagadora maioria das pessoas não está particularmente interessada por essa abordagem).

A terceira edição das CBDPT estiveram para não se realizar. Quais eram os motivos que impediam a sua realização? 
O que aconteceu foi que eu nas 2ª CBDPT disse que não as faria em 2013, pois estou a meio do meu doutoramento, e pensava que estaria sem tempo e disponibilidade, além de que angariar o apoio é relativamente difícil. No entanto, a minha integração enquanto investigador no Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Lisboa permitiu-me organizá-las no seu seio, sem gastos, mas com o apoio indispensável da sua equipa. Ou seja, voltei com a palavra atrás, mas penso que por um bom motivo…

04) Como é que esses obstáculos foram ultrapassados?
Ver resposta anterior. No entanto, convém sublinhar não só a disponibilidade da Nouvelle Libraire Française e o FIBDA em apoiarem a vinda dos convidados estrangeiros, a destes em estarem disponíveis para participar, e os apoios que conseguimos junto à FCT e a Reitoria da UL. Todas as Conferências são a custo zero, mas a vinda de nomes internacionais implicam algumas despesas, que se conseguiram garantir.

Em entrevista ao Ave Rara mencionou um projecto chamado Rei Rubro? O que era o Rei Rubro e o que lhe aconteceu?
O Rei Rubro é o site que, famigeradamente, teima em não arrancar, por culpa minha. Mas trata-se da plataforma online onde estarão disponíveis os papers ou actas das Conferências, assim como outros artigos de natureza académica relativos à banda desenhada, ilustração e animação. Esperamos vir a contar, depois, com várias contribuições, o mais alargadas possíveis (mas sempre no espírito das CBDPT, etc.).

As CBDPT vão-se realizar numa quarta-feira, com início às 10 horas. A que se deve este horário complicado para quem tem compromissos profissionais durante os dias de semana?
O problema das datas é que nunca satisfazem todas as pessoas, pois quando foi num Sábado, também houve pessoas que não puderam participar. No entanto, como agravante, digamos assim, é que todas e quaisquer conferências deste tipo – académicas, pequenas, etc. – têm de ser apresentadas num calendário renhido na universidade, e era impossível ter outras datas. Não há outra hipótese, ou pelo menos, este ano não há.

Este facto não pode afastar eventual publico que esteja a trabalhar?
As circunstâncias da vida de cada um a essas pessoas diz respeito, e não me pronunciarei sobre isso. Espero apenas que quem esteja disponível e interessado neste tipo de diálogo que possa aparecer e até participar nas discussões após as apresentações.

Blog: cbdpt.blogspot.pt
Programa das Conferências

Quais são os grandes destaques que faz nesta edição das CBDPT?
De forma alguma em detrimento de todos os participantes, que apresentaram propostas muito variadas e de extremo interesse, e que esperam se tornem estímulo para trabalhos futuros, também de outras pessoas, os destaques têm de ir para os dois convidados estrangeiros, Ann Miller e Renaud Chavanne. A primeira é uma professora inglesa que se tem especializado no estudo sobre banda desenhada francófona, e tem contributos decisivos no cruzamento dessa arte com saberes disciplinares como a crítica literária, a narratologia, a abordagem psicanalítica, de algumas facetas dos estudos culturais, etc., todos instrumentos contemporâneos da crítica. Quanto a Chavanne, a forma como ele se tem dedicado particularmente ao estudo das estruturas formais da composição de páginas, fez com ele criasse instrumentos analíticos que, mal sejam entendidos pelos seus leitores, tornam-se imediatamente indispensáveis em ler e compreender melhor a razão pela qual algumas bandas desenhadas funcionam melhor ou transmitem melhor o seu “sentido”.

Quais os motivos que considera relevantes para o público aderir às CBPT?
Sejamos francos. A esmagadora maioria do público, mesmo o de banda desenhada, não terá grande interesse nestas abordagens académicas. Nem ninguém tem a veleidade de pensar que todos se deveriam interessar. Claro que não. É possível lê-la descomprometidamente, apenas com um prazer forte e passageiro, se quiserem. Ou procurar formas de impacto emocional sem que passem pela sua leitura analítica, pormenorizada, etc. No entanto, se as pessoas tiverem interesse em ir um pouco mais além desses sentimentos epidérmicos, e compreenderem a relevância cultural, o impacto social e político, as formas de criação de significado, da banda desenhada, dos seus autores e produções, então haverá certamente matéria suficiente para desafiar o pensamento nestas apresentações. Espero também que seja um contributo, em termos gerais, a demonstrar que a banda desenhada também pensa, ou que se pode pensar com a banda desenhada, ou seja, que ela é um objecto digno de tanta atenção como qualquer outra produção cultural.

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