Paper Girls, de Brian K. Vaughn, Cliff Chiang e Matt Wilson

Vencedor em 2016 de dois prémios Eisner para melhor série e desenho/cores, e de dois prémios Harvey nas categorias melhor nova série e melhor escritor, Paper Girls encontra agora edição em português pela Devir.

A Madrugada é um Portal para a Aventura das Paper Girls

Tudo começa na noite de Halloween, com a sua promessa de horrores e assombrações metastizados na criançada que se disfarça como os seus monstros favoritos e percorre a vizinhança em busca de doces ou travessuras. Um sublimar sanitizado dos velhos temores do escuro e das forças que nele se ocultam na noite que antecede o dia em que celebramos os defuntos. Aliás, em bom rigor: tudo começa na madrugada que se segue à noite de todos os santos, com o toque implacável do despertador a acordar uma jovem estremunhada e nervosa que tem nessa manhã o seu primeiro dia de trabalho como distribuidora de jornais no bairro suburbano onde vive. Nas mitografias suburbanas americanas, é uma paper girl, o trabalho temporário perfeito para adolescentes que procuram alguma independência e querem uns trocos para gastar nos seus interesses.

Paper Girls
O empoderamento feminino em evidência.

Nervosa e inexperiente, mas determinada, esta jovem ver-se-á envolvida numa tremenda aventura que ultrapassará os limites do espaço-tempo. Mas já lá vamos.

Ameaçada por adolescentes com hormonas aos pulos, cruza-se com um grupo de outras raparigas que já são veteranas no mester de entregar jornais de bicicleta. A união faz a força e protege-as das correntes de violência que estão mal disfarçadas sob o verniz da tranquilidade suburbana. Quando outra destas jovens é atacada por um bando de encapuçados que lhe rouba o seu querido walkie-talkie, unem-se novamente para lhes dar caça e recuperar o objeto roubado. É aqui que as coisas começam a resvalar para o estranho.

Paper Girls
O momento em que nos apercebemos que esta história nos vai levar por futuros convolutos.

A busca pelo objeto leva-as a cruzar-se com um outro bando de adolescentes, vindos de um futuro talvez não muito distante, que se dedicam a ir ao passado para roubar objetos. Não se fica a saber se por gosto colecionista, se por viverem num futuro distópico onde são desprivilegiados e a captura de artefatos ser uma forma de sobrevivência. O seu aspeto, com implantes cibernéticos, aponta para a segunda. Para complicar a situação, toda a cidadezinha das paper girls parece estar sob ataque de uma divindade que envia entidades angelicais montadas em pterodáctilos para raptar os seus habitantes, posteriormente colocados em tubos arquivados num imenso armazém. Um aceno à velha trope da FC de seres encerrados em tubos. Divindade talvez não seja o conceito, uma vez que o líder destes agentes parece ter cooptado as estruturas organizativas da religião para a sua organização. Estão lançadas as bases para aventuras alucinantes que dobram o espaço e o tempo.

Entre Fantástico e  Nostalgia nas Paper Girls

Brian K. Vaughan sintetiza, como já é habitual na sua obra, elementos de ficção científica em estruturas narrativas de fantasia para jovens. Colocar jovens raparigas como protagonistas desta aventura é um tremendo aceno às necessidades de multiculturalidade e empoderamento que se sentem no mundo dos comics. Esta característica não define a série, funcionando como base para aventuras entre a ficção científica tradicional, com choques futuristas e viagens no tempo, e o fantástico, com criaturas míticas e personagens de poderes misteriosos. Um pouco do que fez em Saga, mas sem o lado de ironia hipster que a caracteriza. O resultado desta mistura é uma história intrigante e apelativa, que mergulha o leitor numa deliciosa espiral de estranheza.

Paper Girls
Ficção Científica em confronto com as personagens.
Paper Girls
Cavaleiros e pterodáctilos: o toque de fantasia que se espera deste autor.

As intrigantes esquisitices do argumento são sublinhadas pelo estilo visual da série. O traço de Cliff Chiang é duro, mas eficaz. O trabalho de cor de Matt Wilson é arrojado. Embora não utilize uma paleta de cores gritante, usa tons suaves numa forma fortemente contrastante. O efeito visual final, sobre o leitor, é de mergulhar num ambiente twilight zone. Não por a aventura se desenrolar nas horas mortas da madrugada, mas pelo trabalho de cor reforçar as sensações de estranheza contidas no argumento.

Paper Girls
Referência à trope visual clássica de humanos dentro de tubos de vidro na Ficção Científica.

Muito fica em aberto neste primeiro e explosivo volume de Paper Girls, intencionalmente. Brian K. Vaughan dá-nos um arranque lento, claramente a pensar numa longa continuidade. Talvez não tão longa como a de Saga, embora apostando na mesma mistura de FC e fantasia. Especialmente centrada num público jovem adolescente, a série puxa também para os campos da nostalgia cultural.

Os Mercados da Nostalgia Visíveis em Paper Girls

No verão passado o grande sucesso em séries televisivas tinha uma relação muito especial com os anos 80. Stranger Things, a série de que todos falavam e apreciavam, centrava-se em três jovens pré-adolescentes. Inveterados jogadores de Dungeons and Dragons, cruzam-se com uma rapariga com poderes estranhos, vítima de experiências secretas num laboratório das redondezas da vila suburbana onde vivem. As experiências para-científicas levadas a cabo no laboratório abriram a porta a um outro universo, do qual se escapou uma criatura mortífera e hedionda. Este poderia ser mais um enredo de série ou filme B, se não pela atenção colocada pelos realizadores em elementos nostálgicos. Dos adereços às cenas, passando pela banda sonora e o design visual, as referências à iconografia dos anos 70 e 80 eram imensas. Mais do que uma história de terror, Stranger Things foi uma poção bem engendrada de nostalgia pura, fator que lhe garantiu o sucesso nas paisagens mediáticas saturadas.

Esta série foi a face mais visível, nos tempos recentes, de uma tendência económica que se apropria da iconografia cultural. Estes mercados da nostalgia são uma das respostas das indústrias culturais aos turbilhões trazidos pelo digital. Nos novos mercados incertos da internet, apelar aos sentimentos inerentes a um segmento de mercado de saudade sobre um tempo que passou é uma aposta lucrativa. Substanciada em bandas antigas que continuam a encher estádios, tocando a música de sempre, em inúmeros remakes de filmes clássicos e redesign de produtos. No fundo, re-empacotar para voltar a vender o antigo, com um toque de verniz renovado.

Não sei até que ponto Brian K. Vaughan levou estes mercados da nostalgia em conta quando concebeu Paper Girls. É nítido, na leitura, o constante apelo visual e temático aos anos 80. Só lhe falta o lado sonoro. As roupas dos personagens. O cenário da série, aquele prototípico bairro americano de vivendas suburbanas imortalizado em incontáveis filmes. A aventura vivida num tempo em que era seguro adolescentes saírem de madrugada para ir entregar jornais, embora se ressalve que o argumentista soube desvirtuar nalguns momentos essa nostalgia dos bons velhos tempos de segurança. Ou, até, a recordação do tempo em que o jornal em papel era culturalmente significativo.

São muitos os elementos que exploram este lado nostálgico. Se a aventura de Ficção Científica poder agarrar os leitores mais novos, as inúmeras referências passadistas seduzem os mais velhos. Pessoalmente, seduziu-me, levando-me a ultrapassar o viés de fantasia young adult que sublinha esta série. Vaughan poderia ter seguido outros caminhos neste campo. Outra série que mistura muito bem Ficção Científica e young adult é The Woods, escrita por James Tynion IV para a Boom! Studios. Nesta, todo um liceu é transplantado para um outro mundo, uma enorme floresta cheia de perigos e grupos de outros transplantados, vindos de todas as épocas da história humana ou de mundos fantásticos. Uma espécie de Lost num mundo misterioso, que se aguenta bem no seu mundo ficcional sem apelar a iconografias externas. Apesar do enredo de pura FC, com viajantes do tempo e misteriosas forças futuristas, o chamariz de Paper Girls não é a solidez do seu mundo ficcional, mas sim o saber valer-se na moda dos consumos culturais nostálgicos.

Paper Girls
Não se consegue ir mais à anos 80 do que um sonho com Reagan, mísseis soviéticos e vai-véns espaciais.

Tocando em múltiplas vertentes, esta série escrita por Brian K. Vaughan diverte pela forma como aborda uma temática de ficção científica. A ilustração sólida de Cliff Chiang e o irrealismo do trabalho de cor de Matt Wilson dão a Paper Girls uma vertente fortemente surreal, ultrapassando o seu caráter de aventura juvenil. Uma boa surpresa para os leitores portugueses, quer sejam mais fãs de banda desenhada, quer de ficção científica. O arco narrativo termina numa forma muito aberta, mantendo o nível de curiosidade sobre o que se seguirá muito elevado.

Paper Girls 1

Autores: Brian K. Vaughan, Cliff Chiang, Matt Wilson
Editora: Devir
Páginas: 144, capa mole
PVP: 9,99 €

Written By
More from Artur Coelho

Programa do Fórum Fantástico 2017

Fiéis à promessa feita na sessão de apresentação, Rogério Ribeiro e João...
Read More

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *