Os problemas da divulgação

Parece ser consensual de que a divulgação é uma das lacunas que existe no “mercado” português de BD. Contudo, quando se fala de “divulgação”, aquilo de que as pessoas falam realmente é da falta de divulgação nos órgãos de comunicação social generalistas, porque quando se trata de meios de divulgação alternativa, existem alguns que simplesmente ignoram, parcialmente ou na totalidade.

Estes são alguns exemplos dos motivos que levam autores, editores e organizadores de eventos a ignorarem meios de divulgação alternativos no geral, e o aCalopsia em particular.

  1. Não gramam o editor do aCalopsia (algo que não é exclusivo do Farrajota e se aplica a outras pessoas, incluindo algumas com gostos mais, mas mesmo muito mais comerciais).
  2. Não estão para se dar ao trabalho de enviar a informação.
  3. Não sabem que o projecto existe.
  4. Acham piada a que as pessoas andem a correr atrás delas para sentirem que são alguém.

Depois existe uma situação que advém de haver um défice na qualidade da informação online sobre BD. A maioria dos autores, editores e organizadores de eventos não está habituada a colaborar com alguém que pretenda divulgar publicações ou eventos ou até queira (e saiba) fazer mais do que uma notícia sobre um evento ou publicação.
Existe uma secundarização dos meios de divulgação generalistas da especialidade (blogues e sites) para existir uma primazia pelos meios de divulgação próprios: blogue pessoal da editora/autor, página em redes sociais como o Facebook, etc. e tal.

As notícias são dadas em primeira mão pelos canais próprios em vez de se dar esse “exclusivo” a quem possa trabalhar essa notícia.

É uma situação que é contraproducente para quem divulga, mas não só. Meios como o Facebook têm um bom alcance, mas a notícia fica rapidamente enterrada entre actualizações e a maioria das pessoas, se não vir o post, não vai à timeline ou página de um autor ou editora à procura de uma informação específica.

Depois, dar a notícia em primeira mão no canal próprio tira-lhe, no minímo, algum impacto. O público alvo da editora ou autor (que é limitado) já sabe dessa notícia quando é divulgada num site ou blogue. Estar a escrever um texto próprio (para o aCalopsia, por exemplo) acaba por ser (quase) uma perda de tempo – em particular quando se concorre com o copiar e colar de notas de imprensa – porque os leitores potenciais desse artigo já “sabem” da notícia.

Em termos de divulgação viral, ou seja, partilha e comentários em redes sociais, também será perto do inexistente, uma vez quem tinha interesse nessa notícia já a partilhou e comentou quando foi dada em primeira mão na página/blogue pessoal da editora/autor.

Existem informações em que faz sentido ir divulgando num meio próprio, até para promover a interação com os fãs e leitores. Existem outras que fazem sentido divulgar em primeira mão noutro meio de divulgação que, à partida, irá atingir outro público, não se limitando só à audiência que o autor/editor já tem.

Para além disso, a divulgação em primeira mão num canal alheio não implica que não exista divulgação num canal próprio, seja através da partilha do link nas redes sociais, seja através dos blogues e sites próprios.
Para mim, existem três factores determinantes para esta situação:

  1. Não existe um hábito de incluir blogues e sites na política de divulgação para além do press release da praxe, em parte porque também existe um hábito dos sites e blogues de só publicarem o press release e não trabalharem uma notícia.
  2. Não existe uma garantia de a notícia ser dada exactamente como queriam: afinal a regra é verem publicado o texto tal e qual o escreveram, tanto que existe quem estranhe quando vê textos originais escritos, em particular se eles se desviam do discurso “oficial”.
  3. Existe uma necessidade de ter esse “exclusivo” para os meios próprios e o conceito de dar um exclusivo, de optar de modo deliberado por um meio de divulgação em detrimento de outro, parece ser completamente alienígena para algumas pessoas, quando é prática corrente em qualquer mercado adulto, e em outras áreas. Mas estamos em Portugal, damo-nos “todos bem”.

Além do conceito de oferecer um exclusivo parece inexistente na BD, existe o conceito de sonegar informação. Isto é, só se envia informação para quem “brinca” da maneira que os autores e editores gostam e não levanta muitas ondas. Por algum motivo, o aCalopsia não recebe informações da Chili Com Carne nem da Levoir, por exemplo. Garanto que não é por desconhecerem a sua existência ou não terem sido contactados.

Curiosamente, apesar do envio de informações da Levoir e G. Floy ser realizada pela mesma pessoa, José Hartvig de Freitas, as informações de uma editora chegam cá, as de outra não… mistérios da banda desenhada nacional!

Era suposto existir uma sinergia entre meios de divulgação, autores, editores e promotores de eventos. Porém, em Portugal a malta gosta muito de ficar toda no seu cantinho, ter o “seu exclusivo” e tem alguma dificuldade em optar por dar a primazia a algum meio de divulgação “amador”, e ainda existe quem fique chateado quando as notícias são divulgadas antecipadamente, antes de o editor ou autor enviar o press release da praxe.

É por estas e por outras que cada vez tenho menos paciência para falar com autores e editores. É que isto não é mal de um autor ou editor, é mal geral e as excepções só confirmam a regra.

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2 Comments

  • Na minha opinião, tão mau como isso, é que a impressão que me dá é que os autores de BD em Portugal queixam-se que não conseguem viver da BD ou que não há sequer um “mundo de bd” por cá. No entanto, ao mesmo tempo, parecem não querer que isso exista sequer, porque, como referem aqui e bem, parecem querem ser o “artista que acha piada a que andem atrás dele”. É como se quisessem ser underground á força toda. E pior do que isso, é que, ao que me parece de forma geral (e ao que tenho dado conta ao longo dos anos), parecem ter algo contra o que seja BD “mainstream”. (mas isso já é outro assunto mais off-topic).
    O que quero com isto dizer é que, enquanto pessoa que ambiciona ter publicações de BD, cada vez tenho menos vontade de o fazer em Portugal, ou de contribuir para a BD em Portugal sequer. (Embora tenha plena noção do bocadinho utópico que isto seja).
    Abraço e boa continuação de blog :)

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