Os Minotauros, de Pedro Franz

A entrevista de Pedro Moura a Pedro Franz, por ocasião da sua visita a Portugal, centradas num projecto de serigrafia e, a partir daí, no trajecto deste artista.

Por ocasião do AmadoraBD 2013, e no quadro da exposição “Seis esquinas de inquietação”, em torno de seis artistas brasileiros contemporâneos, que comissariei, Pedro Franz, autor de Promessas de amor enquanto espero o fim do mundo e outros títulos, esteve em Portugal durante uns dias. Para aproveitar a sua estadia, Franz foi convidado a colaborar no projecto Check Point, de António Coelho, do atelier de serigrafia Mike Goes West (MGW), e que havia começado com uma curadoria de Marcos Farrajota, editor da Chili Com Carne. Trata-se de um projecto que aproveita a passagem por Portugal de autores de banda desenhada e/ou ilustração, usualmente afectos a círculos alternativos, para que desenvolvam uma serigrafia, procurando envolver-se o mais possível na sua produção. Por vezes esse processo é mais intenso, permitindo-se ao artista estar envolvido em todas as fases da produção, outras vezes essa participação é mais comedida.

Serigrafia

Por uma questão de tempo e disponibilidade, Pedro Franz elaborou uma imagem, afecta a um novo projecto de banda desenhada que se encontra agora a desenvolver. Essa imagem foi depois trabalhada para que cada camada de cor correspondesse a um layer no PhotoShop. Essas layers foram depois transformadas em manchas isoláveis nas tramas serigráficas, através de fotolitos, de maneira a corresponderem a cada cor aplicada, as quais, depois de misturadas em cada folha, chegariam ao resultado final.

Na primeira visita de Franz ao atelier de MGW, ao Montijo, escolheu-se o papel (de acordo com preferências de gramagem, textura e nível de brancura e brilho), e procederam-se a vários testes de cor (densidades, misturas, passagens, etc.). É a esta visita que corresponde o grosso desta reportagem fotográfica (que não tem a veleidade de ter grande qualidade a esse mesmo nível). Num segundo momento, após António Coelho ter imprimido todas as provas, Pedro Franz voltou ao local, para assinar em punho as mesmas (um dos modos de tornar autênticas as mesmas, de acordo com o processo usual deste tipo de arte de múltiplos).

Como é habitual deste projecto, foram feitas 50 provas, sendo dez entregues ao artista, 3 colocadas hors-commerce, ficando as restantes para venda. As suas dimensões são 61 x 50 cm, o preço é de 25 Euros e encontra-se à venda exclusivamente através do blog da MGW.

A entrevista que se segue foi feita no âmbito destas visitas, destiladas de longas conversas, mas aqui centradas neste projecto de serigrafia e, a partir daí, para seguir o trajecto deste artista.

A entrevista

Pedro Moura – Pedro, queres começar por explicar a imagem que criaste para a serigrafia e como é que ela está relacionada com um teu projecto de banda desenhada/histórias em quadrinhos?

Pedro Franz – Acho que a imagem partiu principalmente do desejo de desenhar essas criaturas que eu vinha imaginando há algum tempo, esses minotauros com cabeças de bisontes e da ideia desse palíndromo que o Debord cita “in girum imus nocte et consumimur igni” (algo como ‘Nós vagaremos pela noite e seremos consumidos pelo fogo’). Eu queria explorar esses dois conceitos tentando mostrar algo que, de alguma forma, sugerisse uma narrativa mas, ao mesmo tempo, não entregasse muito, como se a narrativa estivesse no que não se mostra, nas perguntas que o espectador faz diante da imagem. Então, tentei juntar essas ideias, testando as possibilidades de usar o grafite, com o qual venho trabalhando bastante, manipulando o contraste dos tons de cinza, e usá-lo junto a cores vibrantes, que me parecia que poderia criar um visual gráfico interessante quando impresso em serigrafia.

PM – Em que medida é que esta imagem se relaciona directamente com a narrativa que vais contar ou como ela é independente disso?

PF – Os três minotauros da imagem são os personagens de um projeto de BD chamado ‘Jardim’. Eu imaginava esses minotauros há algum tempo enquanto pensava e elaborava o projeto mas havia apenas feito alguns esboços deles. Então essa foi a primeira imagem desse projeto, que ainda deve levar um tempo para acontecer realmente. Acho que dá pra dizer que ‘Jardim’ é uma BD sobre a perda do selvagem mas também sobre envelhecer talvez. E a ideia do palíndromo que citei volta aqui, como se a história fosse contada em dois momentos, como se fossem duas etapas de um relacionamento. Uma primeira é a paixão e a segunda, o fim da paixão. É sempre um pouco estranho falar sobre esses projetos que ainda não existem, que ainda são ideias, e que, com o tempo e o trabalho, podem mudar completamente.

PM – Já tinhas trabalhado com serigrafia, mas esta colaboração foi algo diferente do que estavas habituado. Ficaste satisfeito com o processo de trabalho e com o resultado?

PF – Sim, foi bastante diferente porque aqui desde o começo foi um projeto colaborativo com o António Coelho, que fez várias contribuições que deixaram a imagem mais interessante, sugerindo como funcionariam melhor as cores sobrepostas, como poderíamos trabalhar a separação de cores para criar um efeito interessante do grafite na serigrafia, a escolha do papel, além, é claro, de toda a parte técnica da serigrafia. Foi um grande prazer trabalhar com ele e foi ótimo ver o resultado final.

PM – Tendo em conta o nível de experimentação do teu projecto mais pessoal, se assim se pode dizer, Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo, qual é a importância dessa atenção para com a dimensão material do objecto final?

PF – Acho que as relações quanto à materialidade da obra surgiram muito a partir do fato de Promessas ter sido publicada primeiro em capítulos na internet, em um blog, e que depois, eram reunidos em uma publicação impressa, numa época em que se falava muito sobre como a pirataria afetaria/afetava o mercado de quadrinhos.

Então, assim, havia o interesse de pensar essas questões também aplicadas ao objeto impresso, de tentar entender qual a função de imprimir algo que já existe no meio digital, de evidenciar a estrutura do objeto impresso como parte da narrativa e de pensar o livro/revista como um espaço expositivo. Ou seja, a dimensão material do objeto final é, para mim, mais uma das partes que compõem o todo da narrativa. Ela altera a forma como o leitor lerá o trabalho e isso me parece fundamental de ser pensado. Aliás, tem uma coisa que o César Aira fala com que me identifico bastante. Ele diz que ele não tem um público, mas sim leitores. E acho que é isso.

No Promessas a relação com o leitor se dava em diferentes âmbitos que creio criava um imaginário na obra, desde o pedido que fiz para que me enviassem fotos 3×4 que estariam presentes no projeto gráfico ao último volume que foi financiado com a venda dos originais de todas as páginas, a publicação tornava-se algo à deriva, que dependia do engajamento do leitor para que existisse.

Pedro-Franz---Promessas

PM – Promessas apresenta uma vasta panóplia no que diz respeito a técnicas de representação e estilo gráfico, de composição de página, dinamismo das acções e personagens, mas também em formato, tipo de papel, objecto mesmo, escalas cromáticas, etc. Essas mutações são importantes?

PF – Acredito que sim. Essas questões relacionadas a aspectos visuais e textuais são tão importantes pra mim quanto a construção dos personagens ou do enredo.

Vejo essas mutações no Promessas como se fossem, talvez, as diferentes vozes narrativas em um romance. Como se o desenho fosse usado não apenas para representar algo, mas para produzir algo. E essas transformações no desenho são lidas. Se desenho algo (por exemplo, um rosto) com um traço fino e preciso isso é lido de uma forma, por outro lado, se desenho o mesmo rosto, mas utilizo um traço de pincel, grosso, desequilibrado, isso talvez crie uma leitura completamente diferente. Se estamos falando de narrativas, me parece que o traço então não pode ser uma questão apenas autoral. Ele deve trabalhar em função do que se está querendo dizer.

E no Promessas havia uma vontade de evidenciar isso, de contar as três partes da história de forma diferente, até porque eram situações muito diferentes. Esses três volumes, Limbo, Underground e Potlatch, a escolha desses nomes se deu como uma analogia entre Purgatório, Inferno e Céu. O primeiro, mesmo sendo a primeira parte, era quase como uma transição, uma passagem para algo, muito mais convencional que os outros dois e isso se refletia no formato impresso, na escolha de um papel jornal e de ser um objeto mole, meio descartável, mais próximo às revistas antigas de banca. O segundo, Underground, era o extremo da situação.

Quando comecei a trabalhar tornou-se inevitável representar aquelas cenas com um traço mais violento, mais brusco ou “sujo” porque era violento. E tornou-se também inevitável escolher um outro formato, levar a discussão sobre ordem e caos para todos os aspectos da BD.

Por sua vez, Potlatch explorava a ideia desse desapego, de se desfazer de algo que você possui, de abrir mão de algo que lhe dá segurança. Talvez isso seja a própria ideia de experimentação… buscar algo que você sabe que nunca vai encontrar, ou talvez que quando você encontra já não é mais o que você está procurando. A experimentação é então o caminho e que funciona para mim como uma espécie de jogo no qual você convida o leitor a jogar com as suas regras e me interessa a cada projeto rever/questionar essas regras para, se necessário, poder criar regras novas, conforme as possibilidades e necessidades narrativas do projeto.

Acredito ainda que essa mutações evidenciam o processo e também, de forma quase paradoxal ao que eu disse anteriormente, mostram que existe uma pessoa fazendo aquilo, alguém tomando decisões de como contar uma história a um leitor, tornam o processo parte do narrado. Talvez por isso, cada vez mais me interessa trabalhar sem esboços ou sem um texto predeterminado e as possibilidades que o grafite traz, quando apagado, de deixar vestígios no desenho. E penso, cada vez mais, que há algo honesto nisso, que há uma escolha ética em manter esses vestígios pro leitor.

 

Pedro-Franz---Suburbia

PM – Até que ponto é que conseguiste liberdade para dominar essas questões nos outros projectos para editoras mais profissionais, como nos casos de Bukkake, Suburbia, Ensaio do vazio, e o que se vai seguir?

PF – O Bukkake, sendo parte do projeto Mil, já vinha com um formato bastante definido, quanto a número de páginas, tamanho, tipo de papel e o uso da impressão preta sobre alguma cor. Nos outros projetos, me interessa a negociação que se cria entre o desejo e o possível e, neste sentido, os editores com quem trabalhei foram sempre bastante abertos a ideias e generosos em muitos sentidos. O Ensaio do Vazio foi um caso bastante particular, no qual, num primeiro momento, fui convidado pelo próprio autor, o Carlos Henrique Schroeder, para realizar sozinho a adaptação do romance para os quadrinhos.

Por ser um dos poucos casos de adaptação de romance literário contemporâneo e para tentar pensar a própria ideia de adaptação literária (que no Brasil se transformou quase em um gênero devido a um nicho de mercado surgido pelas compras governamentais para bibliotecas de escolas públicas – ainda que essas compras foquem num tipo de adaptação normalmente facilitadora de acesso a um texto literário), sugeri então que cada capítulo do livro fosse realizado por um artista diferente e sugeri o nome dos outros quatro autores envolvidos. O Carlos e a editora acharam interessante a ideia e levamos adiante.

Em Suburbia, por sua vez, acho que o resultado dessas questões se materializou muito em função do trabalho que eu vinha realizando em Potlatch. tanto no uso das cores, quanto no formato do livro, e foram decisões que surgiram conversando com os editores. Atualmente trabalho em Bellini o Corvo, que é uma HQ feita em junto com o escritor Tony Bellotto, e todas essas questões voltam a ser discutidas e pensadas tanto com o escritor quanto com o editor. Não partimos de uma certeza, vamos definindo de forma colaborativa no processo como será o livro, ainda que, naturalmente, exista nesses projetos um tipo de experimentação muito diferente e mais contido do que o que houve em Promessas. Mas me interessa muito esse diálogo entre o desejo e o possível e essa incerteza diante de um projeto novo.

PM – Posso estar muito enganado, mas se sempre existiu uma rede de autores alternativos no Brasil, e com trabalhos muito vincados, penso que apenas mais recentemente vemos experiências acabadas nesse tipo de experimentalismo, inclusive na materialidade das BDs/HQs.

Estou a pensar não apenas nas tuas coisas, mas no projecto Gazzara, da Narval, ou nalgumas coisas em que o Rafael Sica tem estado envolvido (1000 quadros, Friquinique)… Concordas com esta visão (de “forasteiro”)? Notas alguma mudança recente na tua geração?

PF – Acho que sim. Bom, talvez nessa questão geracional, o Fábio Zimbres seja uma das exceções e é interessante ver como ele é provavelmente a maior referência para essa geração atual de autores. Posso estar fazendo uma análise superficial, mas arrisco dizer que mais do que algo em comum em aspectos estilísticos ou de abordagem de temas, talvez o que mais caracterize os autores dessa geração seja uma espécie de ‘faça-você-mesmo’ em rede.

Quase todo quadrinista é um pouco editor, assessor de imprensa, designer, produtor gráfico, distribuidor, vendedor e camelô, não só do próprio trabalho, como também do trabalho de outros autores. E mesmo autores que publicam por editoras, continuam exercendo muitas dessas atividades. Digo isso, pois acredito que a partir do momento que esse “mercado paralelo” vem se consolidando, os próprios autores puderam realizar experiências também quanto à publicação e à materialidade das HQs e pensando, assim, novos formatos, possibilidades e experiências.

Se antes, o editor de quadrinhos brasileiro era quase sempre “apenas” um leitor de quadrinhos, agora ele é, muitas vezes, também um autor. E assim temos a Narval Comix, do Rafael Coutinho, o pessoal da Samba, da Beleléu e tantos outros, que não apenas publicam seus próprios trabalhos, mas também publicam o trabalho de outros autores. São como coletivos e autores trabalhando em rede, sem com isso deixar de trabalhar para as editoras, digamos, convencionais. Neste sentido, há um interesse dos autores de fazerem as coisas acontecer. Claro que tudo isso (e, em parte, também a própria experimentação na BD) se deve muito ao avanço da tecnologia, tanto dos computadores/scanners pessoais, quanto da redução de custos e novas possibilidades de impressão, assim como as novas relações que a internet possibilitou desses artistas estarem em rede, manterem contato e publicarem, divulgarem e venderem seu trabalho pela internet. Ou seja, quando falo em “mercado paralelo” não tanto a uma ideia no sentido de mercado (como venda) mas sim muito mais como uma rede que vem criando possibilidades para o quadrinho.

Talvez isso aconteça em todos os lugares, talvez seja uma característica do quadrinho atual no mundo, não sei. Mas enxergo uma situação um pouco diferente aqui no Brasil, um engajamento coletivo para que as coisas aconteçam.

PM – Na exposição “Seis esquinas”, tentei criar uma rede de artistas que partilham algumas afinidades a nível de preocupações político-sociais expressas nas suas obras, de maneiras bem diferentes. Seguramente que poderíamos encontrar outros exemplos, mas o que gostaria de propor-te à discussão é se aceitas conscientemente esse papel, e até que ponto é que um artista – e de HQ, que é um modo artístico que muitas vezes esteve algo à margem dos desenvolvimentos de outras áreas no desenvolvimento do pensamento – pode ou mesmo deve estar envolvido nas resistências políticas do seu país?

PF – Eu penso bastante sobre isso e acho que sim, que enxergo isso e aceito conscientemente esse papel. Mas é um terreno bastante complicado e no qual eu tenho muitas dúvidas. Acho que, em primeiro lugar, o artista não tem esse dever, acho que não pode ser visto como uma obrigação, algo a priori do ser artista. Mas, sim, falando por mim, ou seja, na minha posição como artista/quadrinista, eu acho importante e me interessa pensar e trabalhar com essas questões, que no Promessas ficam bastante evidentes acredito. E foi interessante, agora em 2013, com todas as manifestações que aconteceram no Brasil, ver várias questões que eu tentava entender enquanto fazia o Promessas ganharem luz nos debates.

Acho que, para mim, quando escolho fazer uma HQ sobre algo ou a partir de uma questão, está muito ligado a própria ideia de tentar entender melhor essa questão. E política é importante, neste sentido, porque acho que ela está intimamente ligada a forma como vivemos. Tenho interesse no trabalho de artistas que reflitam sobre seu tempo, que falem sobre a realidade, ou sobre um mundo palpável, que eu identifique com o meu mundo, e sei que pode soar um clichê, mas acho que o papel do artista trazendo essas para seu trabalho é muito mais o de lançar novas perguntas do que o de respondê-las. A arte que tenta dar respostas políticas quase sempre se converte em propaganda e não é onde está o meu interesse. Mas não isento de forma alguma o artista de tomar uma posição e tenho pensado muito no que a Tania Bruguera sugere, de trabalhar mais do que um projeto que seja feito sobre uma questão política, trabalhar em uma arte que seja feita politicamente, que busque dar voz àqueles sem espaço social.

Esses tempos vi uma entrevista com um quadrinista brasileiro que desenha super heróis e ele dizia que era contra qualquer tipo de cotas e que era a favor do livre comércio. E isso, claro, se reflete no tipo de quadrinho que ele faz. Você vê aqueles caras fortões e mulheres siliconadas e pensa que não há nenhuma posição política ali, mas claro que tem. Então, talvez mais importante do que abordar ou mesmo envolver seu trabalho em questões relacionadas a resistências políticas, o que me parece fundamental são as questões éticas que o artista apresenta e desenvolve em seu trabalho.




PM – Do ponto de vista português, o Brasil parece ter um mercado mais pujante: há mais traduções de material estrangeiro, e muito diversificado, muita edição de autores nacionais, também diversos, festivais, locais de estudo e alguma discussão crítica, etc. Essa é também a tua perspectiva, ou vês o estado actual das HQs brasileiras de modo diferente, sendo um agente envolvido em vários círculos?

PF – Acho que é mesmo um bom momento para o quadrinho brasileiro. Mas isso é algo bastante recente e, claro, foi um processo que foi acontecendo e que se deve muito também a situação econômica (e política) do país nos últimos anos. Novamente, posso estar fazendo uma análise superficial, mas acho que o Brasil teve uma mudança de leitor de quadrinhos nos últimos anos. Existe ainda, claro, o leitor que só lê super-heróis, o que só lê infantil ou mangás mais massificados, mas no geral, acredito que o leitor de quadrinhos brasileiro passou a se interessar pelo quadrinho brasileiro contemporâneo. Existe então um público que acompanha o trabalho desses autores e em eventos como o FIQ, por exemplo, os próprios autores montam estandes e é provavelmente o melhor lugar para se entender a cena que está acontecendo, porque você tem acesso tanto a fanzines quanto a publicações de grandes editoras. E algumas lojas especializadas e instituições culturais também promovem lançamentos e pequenos eventos. Então é um período, digamos, efervescente, mas ao mesmo tempo, acredito que é uma época na qual parecem surgir muitos artistas com um trabalho interessante, mas talvez ainda sejam poucos os que conseguem desenvolver um projeto de maior fôlego e acho que isso se deve muito à dificuldade que ainda existe em se dedicar a longo prazo a um projeto de quadrinhos.

É preciso dizer também que ainda se tem aqui uma ideia muito forte no quadrinho brasileiro, que se vê muito em eventos e exposições, de se contemplar o todo dos quadrinhos, misturando quadrinhos infantis e massificados a propostas mais artísticas e autorais, e creio que isso se deve também à pouca discussão crítica que se tem por aqui. Não existiu, por exemplo, uma iniciativa como o Tinta nos Nervos que organizaste e que penso que é excelente e que seria muito importante acontecer algo com esse tipo de critério.

PM – É claro que a pergunta anterior peca por querer ver toda a produção de um país sob uma mesma óptica, o que é impossível. Como é que tu vês a “cena” da HQ do Brasil? Ela é unida, existem vários territórios divididos por questões comerciais, estilísticas ou mesmo ideológicas? Deve ser vista como um universo diversificado de autores individuais?

PF – Existem, sim, vários territórios que se estabelecem por diferentes questões, sejam elas comerciais ou estilísticas e acho que o trânsito entre esses territórios é bastante comum e acontece em diferentes níveis. Conversando com o Rafael Coutinho esses tempos, ele falou sobre algo que a Françoise Mouly disse à respeito da liberdade que ela viu na cena da HQ brasileira e que ela comparou um pouco ao cenário dos quadrinhos independentes dos EUA dos anos 80. E talvez seja um pouco isso, um momento de muita gente nova surgindo, de muitos projetos acontecendo. E o mais interessante talvez seja essa incerteza que exista, porque parece que é uma cena que pode ir para diferentes lugares. Esses tempos lendo sobre o [Edouard] Glissant, pensei na metáfora que ele usa do arquipélago e acho que talvez ela seja interessante para tentar explicar essa cena do quadrinho brasileiro e as relações que surgem dela. Como um conjunto de ilhas, no qual podemos perceber ligações litorais e de horizontes, sem que cada ilha abandone suas características próprias que as definem.

Bibliografia

Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundos

(auto-edição, 3 vols.: 2010-2013)

Para todos os efeitos, foi este título que projectou Pedro Franz num espaço de maior atenção ao seu trabalho. No entanto, a sua integração posterior em projectos de maior sucesso comercial e crítico não o desviaram da vontade em “fechar” o ciclo que havia prometido. No entanto, em retrospectiva, é muito surpreendente perceber que cada número, aparentemente, parece ser um trabalho singular, e não em continuidade.

Materialmente, cada publicação é diferente da seguinte: a primeira é uma revista em papel de jornal amarelo, impresso a uma cor, seguindo uma narrativa algo ambígua mas estruturalmente convencional; a segunda é apresenta sob a forma de um envelope com pranchas soltas que poderão ser combinadas à vontade do leitor; a terceira um enorme volume a quatro, e soberbas, cores.

Apesar de existir um “arco narrativo”, são vários os pontos de fuga e de desvio das convenções, tornando o título também um dos espaços em que o autor foi fazendo pesquisas da linguagem que ia descobrindo.

Pedro-Franz---Promessas
Ensaio do vazio

(7 Letras: 2013).

Este projecto começou por ser pensado para ser uma adaptação do romance de Carlos Henrique Schroeder apenas por Franz mas, aos instares do artista, tornar-se-ia um projecto colectivo, envolvendo mais quatro artistas, de banda desenhada e de artes visuais, brasileiros e argentinos, no qual cada um trabalha sobre uma parte do texto, insuflando assim uma nova dimensão textual não prevista no original.

O romance centra-se na vida de uma personagem masculina, Ricardo, que veio do interior para a cidade, de uma vida aparentemente “normal” para o mundo das artes, e do mundo imenso dos desprivilegiados para o estreito círculo de uma elite muito especial, não apenas em termos políticos e económicos, mas sobretudo moral.

Na verdade, o seu abandono no hedonismo é quase total e é mesmo o centro de atenção da narrativa, que as imagens acompanham de um modo curioso e criativo.

O contributo particular de Franz explora sobretudo as memórias contraditórias de Ricardo da sua infância, e as linhas nervosas do autor, que exploram sobretudo uma espécie de desarmonia, acabam por a tornar ainda mais ressoante nos seus efeitos no “presente”.

Pedro-Franz---Ensaio-do-vazio
Suburbia

(Globo Marcas/Retina 78: 2013).

Sendo este o trabalho mais “comercial” de Franz, trata-se ainda assim de um exercício relativamente inédito no que diz respeito a adaptações ou transmediação na e pela banda desenhada.

A partir de uma série televisiva escrita por Luiz Fernando Carvalho e Paulo Lins para a Globo, que se poderá encaixar numa série de recursos hodiernos à blaxpliotation para a adaptar à realidade brasileira actual, Suburbia é uma espécie de “conto de fadas” concentrando-se na chegada de Conceição do interior rural de Minas Gerais para a grande cidade do Rio de Janeiro, e a sua descoberta de uma forma de felicidade através da música e da dança. Se a narrativa segue, em linhas gerais, estruturas convencionais (causalidade, desenvolvimento de personagens, finalidade), Franz entrega muitas das páginas a composições absolutamente livres e barrocas de figurações fundindo-se umas nas outras e com cores exuberantes, muitas vezes tomando mesmo conta do espaço visual, como se se tratassem de matérias gráficas em valor próprio, ou efectivamente como tal, desligadas totalmente de qualquer vontade de representação pictórica. Paradoxalmente, então, Suburbia é, a um só tempo, o mais convencional e o mais viçoso livro de Franz.

Pedro-Franz---Suburbia
Bukkake

(Cachalote: 2013).

Parte do projecto 1000, em que vários quadrinistas contemporâneos brasileiros são convidados a criarem uma história “muda” para um mesmo formato (aproximadamente A4, impresso a uma cor sobre folhas coloridas, com capa da mesma cor), Franz resolve criar uma pequena história linear mas onde o grau de fantasia onírica toma conta totalmente da narrativa.

Focado num pequeno grupo de personagens infantis, a mistura de elementos díspares tanto poderá tornar possível a sua associação a contos tradicionais europeus como à mangá como ainda a títulos de terror “weird” (à la Chambers, Lovecraft, King).

Espectadores-fãs da primeira série de True Detective encontrarão aqui – num título anterior – matéria para debate.
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Pedro-Franz---Bukkake
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