Os Labirintos da Água, de Diniz Conefrey

Adaptação de três textos de Herberto Hélder por Diniz Conefrey, Os Labirintos da Água desafia classificações e formalismos.

Editado em 2013, Os Labirintos da Água mostra a força pictórica do estilo visual de Diniz Conefrey. Um livro que surpreende pela estética, afastado do formalismo da Banda Desenhada, lendo-se como registo de estética pessoal, mais focada nas possibilidades visuais da pintura do que na narrativa em BD.

Formalismo que Sustenta a Criatividade

Há livros que quebram intencionalmente as estruturas narrativas da Banda Desenhada, mostrando-nos o quanto esta depende de uma certa rigidez formal. Esta forma de expressão artística e meio de comunicação que cruza as linguagens do desenho, pintura e narrativa literária, depende de uma sólida e afinada estrutura para comunicar com eficácia. Os estilos visual e narrativo são elementos subordinados a uma férrea estrutura gramatical, que tem vindo a evoluir ao longo dos anos num género que se assume como uma linguagem própria entre o cinema, grafismo e narrativa. É uma condição que lhe dá um certo formalismo. Os autores e desenhadores que celebramos distinguem-se pela forma como contam histórias dentro dos constrangimentos da gramática visual da Banda Desenhada.

Não sendo alheia ao experimentalismo, a esmagadora maioria da Banda Desenhada publicada define-se por espartilhos formais bem definidos, onde o realismo visual se conjuga com narrativas estruturadas. É este o molde que sustenta as vertentes mais comerciais dos comics, fumetti e mangá, que dos quais se abstrairmos o grafismo, histórias e personagens se reduz a uma estrutura narrativa elementar, igual dentro do seu sub-género, independente das temáticas e autores. No seu pior, é banda desenhada a metro. O crescimento da importância estética e crítica do género mostra que o talento dos argumentistas e desenhadores permite, a partir de uma estrutura férrea, criar histórias que ultrapassam os limites formais.

Para lá (ou para cá) das Estruturas da BD

Reduzida ao mais elementar, e na sua génese, a Banda Desenhada é uma forma narrativa visual de contar histórias com sequências de imagens. No seu limite não são precisas palavras, tudo se conta com a sequência visual (Peter Kuper é talvez o melhor exemplo disso). Recordemos que o género começou como desenho complementado por texto.

Foi a redução a esse mínimo primordial, não sei se intencional ou não, que me surpreendeu neste Os Labirintos da Água. É-me difícil entender este livro como de banda desenhada, talvez pelos vícios adquiridos como leitor, de habituação à estrutura mecanizada dos comics. Senti-o mais como uma exposição de pintura, cujos quadros se organizam num contar de histórias.

A ligação à pintura é notória neste livro. Cada vinheta funciona como um quadro, oscilando entre o abstracionismo e um realismo sujo que homenageia claramente os pintores neo-realistas portugueses. Não há uma preocupação clara de domar a imagem com as exigências da narrativa, colocando as técnicas de enquadramento acima do caráter pictórico das vinhetas. Pelo contrário, só as palavras lhes dão o enquadramento narrativo necessário à leitura como banda desenhada. As preocupações estéticas que Conefrey evidencia estão claramente no domínio da pintura e não da BD.

BD na Soma de Pintura com Literatura

Os Labirintos da Água colige adaptações por Diniz Conefrey de três textos de Herberto Hélder. São adaptações diretas, sem vergar as palavras originais a pressupostos de narrativa visual. No primeiro texto, Aquele que dá a Vida, a inspiração na pintura neo-realista é notória numa história que desmente a ideia do campo como um lugar pacífico e bucólico. A tranquilidade e beleza da paisagem, ou o tipicismo da arquitectura, são o pano de fundo para atos da violência mais bruta. Conefrey interpreta Hélder com uma visceralidade que recorda alguns dos momentos mais negros da obra de Aquilino Ribeiro. A história é implacável, desde o primeiro momento em que um homem mata um touro na arena até à humilhação final de um assassino nessa mesma arena, passando pela violência de um grupo de homens que entre copos de tinto e fatias de pão com queijo esfaqueia um amigo, num acto de pura vingança. Visualmente, Conefrey equilibra o registo incómodo, de semblante carregado e traço vincado, com cores escuras e avermelhadas, com um profundo naturalismo na captura da paisagem campestre e da arquitectura das aldeias.

(uma ilha em sketches) segue um traço mais experimental, como experiência de descentramento de ponto de vista em banda desenhada. Começamos com páginas de texto, que nos conta a história de uma ilha em forma de cão sentado sobre o oceano e os seus curiosos habitantes. Finda a narrativa, começa o recontar da história em modo puramente visual, sem textos nem diálogos. O confronto entre a imagem mental que formamos da narrativa pura é destruído pela iconografia de uma ilustração que só nos mostra à posteriori, contrariando o equilíbrio natural entre narrativa textual e visual da BD.

O livro termina no experimentalismo em estado puro de A Máquina de Emaranhar Paisagens, com um texto poético construído a partir de fragmentos literários. A ilustração segue o mesmo caminho, entre um realismo sujo e a abstração pura, misturando registos gráficos com fotografia e imagem de síntese. As imagens sucedem-se entre realismo e sonho em paisagens que fluem no registo visual único de Conefrey.

Diria que Os Labirintos da Água desafia classificações e formalismos, mas não se sente que foi criado como resposta erudita às discussões estéticas sobre banda desenhada. Formalmente está muito afastado do género, sendo um registo de estética pessoal, mais focada nas possibilidades visuais da pintura do que na narrativa em BD. Interpretamos cada vinheta como um quadro, e reside aí a maior força de um livro visualmente espantoso.

Os Labirintos da Água

Autores: Diniz Conefrey
Editora: Quarto de Jade
Páginas: 104, capa mole
PVP: 18 €

9 Argumento

3 Planificação

7 Temática

10 Desenho

10 Arte Final

10 Cor

6 Legendagem

8 Produção

Os Labirintos da Água mostra a força pictórica do estilo visual de Diniz Conefrey. Um livro que surpreende pela estética, afastado do formalismo da Banda Desenhada, lendo-se como registo de estética pessoal, mais focada nas possibilidades visuais da pintura do que na narrativa em BD.

7.9
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