Os concorrentes e as conclusões do Prémio de Edição Independente da Oficina do Cego,

A Oficina do Cego publicou a listagem completa das obras que foram submetidas ao Prémio de Edição Independente da associação. Num texto em que é abordado a questão das características de uma edição independente (que já tinham sido afloradas anteriormente) é indicado ainda os critérios que presidiram à escolha do júri constituído por Alice Geirinhas, Jorge dos Reis e Pedro Moura.

A escolha final não se deveu de forma alguma ao demérito dos projectos apresentados, os quais, de resto, são reveladores sobretudo da variedade e validade das opções e instrumentos ao alcance de um, felizmente, um número cada vez maior de pessoas. Mas é precisamente esse um dos pontos pelos quais o projecto de Constança Saraiva chamou a atenção. Se ele é um objecto criado pela vontade primeira de uma só pessoa, à qual chamaríamos “autora”, a sua dimensão social e de interacção com os idosos do Centro Social da Sé e dos alunos da escola básica do 1º ciclo da Sé, Lisboa, assim como de outros colaboradores faz abrir esse leque autoral. Nesse sentido, o Arquivo poético sobre o envelhecimento tem um perfil participativo e, diríamos mesmo, de expansão democrática no que diz respeito ao livro – enquanto veículo de expressão. A autoria é partilhada. É conduzida, mas sem afogar, por assim dizer, as vozes das pessoas chamadas ao objecto, ao arquivo. Desta forma, o projecto torna-se um espaço para a voz de quem se exprime (os idosos sobre a sua experiência, as crianças sobre as suas expectativas e interacções com os mais velhos, a “autora-singular” na sua reflexão sobre este tema), mas sem que estas vozes se subsumam a um programa predeterminado. Não se tornam “Outros”, por assim dizer, preservando o seu “Eu”.

Aspectos de variedade material no interior do projecto, a inclusão de fotografias, desenhos, desdobráveis, objectos destacáveis, e pormenores técnicos de acabamento tiveram igualmente o seu papel. Enquanto objecto, é um livro denso, compacto e aparentemente fácil, mas o seu manuseamento, leitura e exploração vai revelando camadas cada vez mais complexas do modo como o arquivo funciona. Como escrevem outros autores que pensaram sobre o arquivo enquanto conceito, como Foucault ou Derrida, o arquivo elege o que é arquivável e o que fica de fora – objectivo primeiro de Constança Saraiva no “salvamento” destas memórias e experiências, que eram “deixados de fora” nos outros arquivos pautados por princípios utilitários – mas também, como as águas de um rio, nunca entramos no mesmo arquivo duas vezes, pelas suas transformações internas em relação a nós mesmos.

Foram este alguns dos motivos salientados no texto de Pedro Moura, na qualidade de Presidente da Associação Oficina do Cego e presidente do júri do prémio.

Embora alguns nomes possam ser desconhecidos da maioria, convém salientar que este prémio não é um prémio de edição independente de banda desenhada, tendo, apesar de terem estado a concurso publicações de BD e outras que são tangenciais a essa arte.

Fica aqui a listagem dos autores e obras a concurso:

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