One-Punch Man Volume 1, de One e Yusuke Murata

A cidade de Z está sob constante ameaça dos mais devastadores monstros. Só One-Punch Man, um herói muito especial os consegue travar. Fá-lo de uma forma inesperada, aguentando toda a violência que os adversários exercem sobre si, travando-os com um murro sempre certeiro e terminal. Foi com este conceito que o argumentista One e o desenhador Yusuke Murata criaram um manga divertido e corrosivo, conquistando de tal forma o seu público na internet que passaram a fronteira para a edição em papel. Este curioso anti-herói é uma das novas ofertas do alinhamento de títulos mangá da Devir para 2017.

O Mangá revisto com ironia em One-Punch Man

Suspeito que é disto que aconteça a quem tenha tido uma dieta mediática composta por séries de televisão japonesas, daquelas onde duplos em fatos exuberantes de espuma e borracha combatem em tentivas de coreografia de luta com maus efeitos especiais, depois de umas generosas destruições urbanas de uma cidade que, se prestarmos atenção, é consistentemente o mesmo cenário, visto de diferentes ângulos para reaproveitar. Se tiverem kaiju à mistura, melhor, naquele sentido de não é assim tão mau que se torne bom, é apenas mau. Ou, talvez, alguma obsessão por jogos de artes marciais indutoras de tendinite carpal, diretos dos velhos tempos das máquinas come-moedas dos salões de jogo. Videojogos onde a combinação repetitiva de botões deveria levar um herói à vitória sucessiva sobre inimigos cada vez mais poderosos, mas que na realidade mal permitiam a aproximação aos mínimos do highscore.

One-Punch Man Volume 1
Um herói relutante.

Surpreende a forma como todo um sub-género da cultura popular, o das artes marciais com lutas contra criaturas poderosas, é desmontada e caricaturada neste One-Punch Man. Este mangá é a destilação máxima de todos quadros de conceito, personagens icónicas e estruturas narrativas de milhares de produtos culturais pop. Filmes, séries, mangá e jogos deste género são coisa que abunda nos canais de comunicação, infidas variações feitas com níveis assimétricos de criatividade e qualidade. Inúmeros títulos que, abstraindo as diferenças superficiais, sabemos serem em essência sempre iguais.

One-Punch Man é de um minimalismo absoluto. Temos o herói, cujas motivações não são muito exploradas ao longo da série, capaz de derrotar com um único murro os mais poderosos adversários. Temos a cidade prototípica, de anódina arquitectura internacional, daquelas cidades que podia estar em qualquer parte do mundo e que os criadores, reforçando a inverosimilidade da série, chamam simplesmente de Z. Este corte com a técnica tradicional de desenrolar as histórias em cenários reconhecíveis do real é um dos sintomas da vertente caricatura desta série. E os inimigos, claro, bizarros nas suas aparências, tonitruantes nas suas aparições, calamitosos e destrutivos até serem inevitavelmente travados pelo murro certeiro de One-Punch Man.

One-Puch Man: Elogio da Violência Gratuita

one-punch man Volume 1
Um encontro com Mr. Hyde, versão One-Punch Man.

Saitama, o verdadeiro nome deste One-Punch Man, enfrenta neste primeiro volume das suas aventuras temíveis adversários. Começa com a luta contra uma criatura de aspecto demoníaco, encarnando os desastres ambientais excercidos sob o planeta. Segue-se um gigante, resultado da toma de uma poção que tornaria o seu tomador no homem mais forte do mundo. Seres subterrâneos, invasores da superfície. Uma misteriosa mulher mosquito, que controla bandos destes insectos sugadores. A ameça dos seres evoluídos por cientistas que manipulam a evolução. Criaturas que semeiam um tremendo rasto de destruição, até serem travados pelo murro certeiro. Saitama é um lutador entediado, para quem o ato da luta é algo banal, permanentemente frustrado por não consegiur encontrar rivais à altura. Este tédio do herói é um fortíssimo elemento caricatural, símbolo da banalização temática e narrativa do género com que ironiza.

One-Punch Man Volume 1
A frustração de um herói imparável.

Não há muito mais nos episódios contidos neste volume, mesmo tendo em conta a aparição de um cyborg que, rendido à mestria marcial de One-Punch Man, quer vier a ser seu discípulo. As histórias são a justificação para intensas e prolongadas lutas, desenhadas de uma forma tão cinética que quase sentimos falta daquele aviso sobre o risco para epilépticos que caracterizava algumas séries de anime. A luta entre o herói e o vilão, o verdadeiro cerne da narrativa, é-nos dada como uma clareza minuciosa, sequencializada ao detalhe em vinhetas de voyeurismo violento, quase de slow motion. Afinal, é isso mesmo o que interessa ao leitor, a geometria cinética do combate. Algo que este título assume por completo.

One-Punch Man Volume 1
A coreografia cinética da violência em One-Punch Man.

One-Punch Man destila em minimalismo hiper-cinético o essencial de todos os produtos culturais nipónicos dedicados às lutas. Um homem, múltiplos inimigos, um cenário para ser destruído, e um murro a finalizar. A verdadeira história está na coreografia de violência das vinhetas. Assume o que realmente pretende ser, sem disfarçar o querer ser um mangá de lutas com enredos complexos ou trágicas histórias de origem. O único fio condutor da série é o tédio de Saitama, e a sua busca acidental por um adversário à altura. Uma divertida aposta da Devir, destinada a um público que sabe apreciar a elegância desta abordagem irónica ao mangá.

One-Punch Man Volume 1One-Punch Man Volume 1

Autores: One, Yusuke Murata
Editora: Devir
Páginas: 192, capa mole
PVP: 9,99 €

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