O Umbigo da BD Nacional

Por obra do acaso, o aCalopsia publicou a minha crónica “E a Amadora mexe”, e o eco da mensagem de Mário Freitas sobre os Prémios Profissionais de Banda Desenhada, no espaço de poucos dias.

Lendo os dois textos de forma integrada, ocorre-me falar de um problema crónico da banda desenhada portuguesa: o umbigo.

Repare-se nos referidos textos.

De um lado, temos uma associação, o Clube Português de Banda Desenhada, existente desde 1976, a anunciar vontade de renovação e de criação de dinâmicas com vista a uma série de objetivos ligados à promoção e divulgação da banda desenhada.

Do outro lado, temos Mário Freitas a concluir que uma das opções de solução é “a constituição de uma associação com capacidade e força negocial perante as instituições ou lobbies estatais”.

Não haverá aqui alguma hipótese de juntar o útil ao agradável? Não poderemos, pelo menos em teoria, estar a falar da mesma coisa? Não poderá a continuidade dos Prémios Profissionais de Banda Desenhada passar por um renovado Clube Português de Banda Desenhada, na perspetiva adiantada por Mário Freitas?

A solução na banda desenhada portuguesa passa, normalmente, por fazer ao lado. Cada um na sua concha, trabalha numa hipótese de solução. A dos outros tende a estar mal. A nossa é mais trabalhosa e faltam-lhe (sempre com grande injustiça) apoios, mas tende a ser a boa visão. Os Prémios Nacionais de Banda Desenhada (Troféu Zé Pacóvio e Grilinho) têm defeitos? Criam-se os Prémios Profissionais de Banda Desenhada. O AmadoraBD não promove suficientemente a vertente comercial dum evento de BD? Cria-se o BDFórum. E por aí fora.

Esta solução de inventar o nosso próprio universo em vez de trabalhar com o universo existente leva (com a honrosa excepção do Anicomics que é um caso de sucesso) a um duplo fracasso: o nosso universo alternativo cai ao fim de poucos passos por problemas estruturais, e o universo existente acaba por não ser melhorado, continuando com os mesmos vícios.

Remando contra esta corrente do umbigo, merece uma especial nota o esforço do Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, que mantém uma aposta generalista, que permite acolher os mais variados géneros, projetos e ideias. Ali se fez um encontro de festivais de BD, ali se anunciaram nomeados e premiados de diferentes troféus, ali se exibiram mostras produzidas por outras entidades nacionais, ali se acolheu até uma edição da tertúlia BD que é (por natureza e definição) lisboeta. Sempre numa perspetiva de integração e com a consciência de que a realidade portuguesa da BD é demasiado pequena para poder tirar algum benefício de separações.

As necessidades básicas da banda desenhada portuguesa não são difíceis de identificar. Ao nível da formação dos autores, dos apoios à criação e à edição, de promoção e divulgação num sentido de internacionalização, etc. E olhando ao tal universo existente, temos autores, associações, editoras, festivais e leitores. Resta-nos escolher se vamos trabalhar com o que temos, ou se vamos criar mais um universo só nosso, à imagem do nosso umbigo.

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