O Rio Salgado, de Jan Bauer

O Rio Salgado
Uma das novidades editoriais da Polvo apresentadas no Amadora BD, O Rio Salgado de Jan Bauer surpreende pelo seu rigor estético e plasticidade do grafismo.

Em O Rio Salgado, uma caminhada no remoto deserto australiano é o palco de um amor condenado, com a omnipresente paisagem a captar o olhar do leitor.

Viagens de Autodescoberta

A busca pela solidão num dos locais mais ermos do planeta não corre bem a um caminheiro alemão. O desafio que se colocou a si próprio era o de atravessar a pé o outback australiano, explorando os caminhos pedestres. Ver um mundo árido um passo de cada vez, refletindo e aproveitando o isolamento para se redescobrir após um forte desaire amoroso que lhe reformulou a vida. Mas mesmo nos locais mais isolados não há escapatória possível aos outros. Cruza-se constantemente com outros viajantes, por vezes nos acampamentos onde pernoita e restaura os seus víveres, outras quebrando o silêncio da paisagem no meio do percurso.

Apesar de procurar estar só, um impulso leva a juntar-se a uma caminheira que também está a testar-se na aridez dos desertos australianos. Deste encontro fortuito irá nascer uma paixão forte e profunda, apesar de condenada. À profundidade da paixão sobrepõe-se, no caso da mulher, uma intensa necessidade de liberdade, que a leva a rejeitar o impulso dos seus sentimentos. A viagem a pé deste inesperado casal de caminheiros pela dura paisagem desértica torna-se, ao mesmo tempo, um idílio e uma tragédia anunciada. Esta é uma história de amor que terá um ponto final definido.

Rio Salgado, Entre o Rigor Formal e a Expressividade

Dois aspetos tocaram-me de imediato neste livro. O seu fortíssimo rigor formal, e o poder visual da paisagem retratada pelo ilustrador. É fácil de falar de rigor formal, mais difícil praticá-lo, e são poucos aqueles que o conseguem utilizar de forma fluída, fazendo parecer natural um processo que implica muita reflexão sobre o que se quer transmitir com cada vinheta.

Neste livro, foram raros os momentos em que não senti o meu olhar a ser conduzido pela forma como Bauer estrutura o que desenha. Poderíamos reduzir as suas vinhetas a abstrações, e este efeito de guia rigoroso continuaria. Conceitos de história de arte sobre enquadramentos, questões de percepção sobre peso visual, linha, cor, sobre a estrutura do desenho, encontram aqui expressão numa obra com momentos gráficos de tirar o fôlego. Enquanto forma narrativa, a banda desenhada é muito mais do que a justaposição de texto e imagem, o uso da sua gramática é um elemento narrativo fundamental que de facto a caracteriza enquanto meio. Este livro é um excelente exemplo disto. Quase diria que seria um excelente exemplo académico de uso da linguagem visual.

Na história que Bauer conta, a imensidão da paisagem árida dos desertos do outback australiano é mais do que um cenário para suportar a narrativa. É, talvez, a grande personagem de uma outra história implícita, sobre a qual as aventuras humanas são fugazes e inconsequentes. Por pretensioso que isto soe numa análise a um livro que conta uma história bem humana, é a sensação que fica da forma como Bauer enfatiza esta paisagem.

A imensidão desolada do deserto australiano é retratado num traço que oscila entre o naturalismo, quase remetendo para os pintores e desenhadores que acompanhavam as expedições a lugares remotos e nos trouxeram os primeiros vislumbres dessas terras desconhecidas, e a quase abstração da pincelada plástica. Não por acaso, a exposição sobre este livro no Amadora BD destacou esta vertente. A força com que o desenhador invoca o ambiente seco, poeirento, desolado, quente, de vegetação esparsa e solo tisnado pelo sol num registo a preto e branco é notável. É este o ponto fundamental do livro.

Entre Ficção e Realismo

Algures na história, quando a leitura já vai bem lançada lá para o meio do livro, sofremos uma curiosa intrusão de realidade que nos diz que, talvez, esta não seja uma narrativa de todo ficcional. Uma simples foto, inserida no desenho, quebra a barreira da ficção e leva-nos para o campo da biografia, da história, ou melhor, das estórias de vida. É um pequeno detalhe, mas que altera totalmente a empatia que sentimos com os personagens. Apesar de bem escrita e bem desenhada, uma história de amor é em essência o tipo de tema banalizado que já pouco nos diz, a menos que tenhamos uma queda para o romantismo.

Quando sentimos que o narrado de facto aconteceu, talvez não nos pormenores que nos contam, a história ganha outro interesse. É o sublimar de sensações reais que, de forma ou outra, todos já experimentamos. O final, não o final da história mas o final do livro, em quatro pranchas para lá do fim que prolongam a agonia do personagem, sublinha bem que as páginas que estamos a terminar de ler estão nas nossas mãos precisamente porque a história real correu mal. Restam as artes para exprimir as dores da alma, sublimar as sensações, solidificar a emoção em papel e tinta da china.

Outras histórias são verdadeiras, isso quer dizer que foi a vida a escrevê-las” é talvez a frase que melhor explica este livro. Junto com a assombrosa ilustração paisagística, forma uma muito interessante proposta de leitura.

O Rio Salgado

Autores: Jan Bauer
Editora: Polvo
Páginas: 240, capa mole
PVP: 15,79 €

8 Argumento

9 Planificação

6 Temática

8 Desenho

8 Arte Final

8 Cor

8 Legendagem

8 Produção

Uma caminhada no remoto deserto australiano é o palco de um amor condenado, com a omnipresente paisagem a captar o olhar do leitor. Uma das novidades editoriais da Polvo apresentadas no Amadora BD, O Rio Salgado de Jan Bauer surpreende pelo seu rigor estético e plasticidade do grafismo.

7.9
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