O Quim e o Manecas são importantes?

O AmadoraBD 2015 decorreu sob o tema da criança, considerando que se comemorava o centenário do aparecimento das personagens Quim e Manecas.

Quim e Manecas são duas personagens criadas em 1915 por José Herculano Stuart Torrie d’Almeida Carvalhais (1887-1961). Exemplo de pioneirismo e modernidade no panorama artístico da sua geração, Stuart de Carvalhais, como ficou conhecido, foi um homem de sete ofícios, desenhador, fotógrafo, actor, decorador, cenógrafo, figurinista e designer gráfico. Na BD, o seu maior êxito foram justamente as “Aventuras do Quim e do Manecas”, publicadas inicialmente entre 1915 e 1918, no Século Cómico. As personagens estiveram em destaque no AmadoraBD na celebração do centenário do seu surgimento. Stuart ocupou mesmo o lugar de “autor em destaque”.

Houve quem questionasse esta homenagem, com o “argumento” de que, basicamente, as personagens estão datadas e são pouco apelativas. É um argumento que evidencia desconhecimento sobre a importância das personagens.

Dou apenas um exemplo da importância da série.

Em 1989, um grupo de especialistas em banda desenhada (que integrava o português Vasco Granja) decidiu uma data oficial para o nascimento da banda desenhada. A data escolhida foi 25 de Outubro de 1896, momento em que a personagem Yellow Kid, pela primeira vez, utiliza um balão para expressar a sua fala.

A invenção do balão é, portanto, um elemento suficientemente importante para que estes estudiosos de renome o tenham considerado o momento fundador da BD.

É, naturalmente, uma decisão controversa e contestada, mas, como referi, atesta bem a importância do balão.

Em causa está sobretudo um instrumento de linguagem específico, que permite, num determinado momento, distinguir a banda desenhada de outras formas (desde logo, o texto ilustrado).

Na Europa, esta nova invenção demorou algum tempo a ser interiorizada e utilizada. Sam et Sap: aventures surprenantes d’un petit nègre et de son singe, publicado inicialmente em 1908 no jornal infantil Saint-Nicolas (e recolhida em álbum no mesmo ano), com texto de Georges Le Cordier e desenhos de Rose Candide (pseudónimo de Émile Tap) é a primeira banda desenhada europeia a assumir (de forma regular) a modernidade do balão.

Em Portugal, Stuart Carvalhais foi o primeiro a utilizar os balões nas suas bandas desenhadas (ainda muito antes de autores como Saint-Ogan, que popularizaram a técnica). E fê-lo exatamente na série Aventuras do Quim e do Manecas, que é, portanto, um símbolo de vanguarda na BD europeia.

Assim (e sendo que a modernidade da série vai muito além da utilização do balão), a série é um marco fundamental na história da BD portuguesa. Seguindo o critério do balão, é mesmo com ela que nasce a BD portuguesa.

Poderá dizer-se que considerar o Quim e o Manecas como o nascimento da banda desenhada portuguesa é seguramente ir longe demais, equivalendo a, entre outros pecados, ignorar Rafael Bordalo Pinheiro (e, sobretudo, o álbum de 1872 o álbum Apontamentos de Raphael Bordallo Pinheiro sobre a Picaresca Viagem do Imperador de Rasilb pela Europa, que até correspondia ao sentido inicial de voto de Vasco Granja para definir o nascimento da BD mundial). Já para não falar de ignorar aquela que, seguindo um outro critério relevante – o da publicação -, tem sido efetivamente considerada a primeira banda desenhada portuguesa: as Aventuras Sentimentaes e Dramáticas do Senhor Simplício Baptista, assinada por Flora e publicada em 1850, na prática copiando e resumindo as Aventures Sentimentales et Dramatiques de Mr Verdreau que Stop publicara no mesmo ano.

Na próxima crónica, voltarei ao problema de considerar o balão como identificador da BD.

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