O Que Mais Gosto no Festival de BD de Beja

Com mais ou menos disponibilidade de tempo, consegui estar presente em todas as edições do festival de Beja. E a minha opinião sobre o festival bejense é que, mais do que melhor ou pior que os outros, é sobretudo diferente.

Declaração de intenções: colaboro há quase vinte anos com o AmadoraBD, e tenho o festival da Amadora como o melhor festival português de banda desenhada.

[pullquote align=”right”]No Festival de Beja celebra-se tudo menos o fim[/pullquote]Dito isto, tenho um enorme carinho pelo festival de BD de Beja. Vou a Beja desde a primeira edição, onde pela primeira vez (e sem ser como concorrente em concursos de BD) tive originais da minha autoria em exposição. Desde então, tenho colaborado com textos, apresentações de autores, com a organização da mostra comemorativa dos 90 anos de Stan Lee (em 2013), e até já consegui voltar a ter trabalhos meus em exposição (mais uma vez, graças a Geraldes Lino).

Com mais ou menos disponibilidade de tempo, consegui estar presente em todas as edições do festival de Beja (a nota de vergonha do meu currículo é, sem dúvida, Moura, cujo salão – lamentavelmente – ainda não consegui visitar!). E a minha opinião sobre o festival bejense é que, mais do que melhor ou pior que os outros, é sobretudo diferente.

Na generalidade dos festivais de banda desenhada celebra-se um fim de um percurso. Um livro publicado ou uma condição de autor conseguida pela publicação permitem a um festival proporcionar um outro tipo de contacto entre o público (incluindo o leitor) e o autor ou a obra. Cada um sabe o seu lugar, e os papéis não se misturam. No fim do dia, todos cumpriram as respetivas missões, mesmo que não haja uma outra edição do festival, que o autor não volte a publicar, ou que o público abandone o gosto pela BD. Esta regra não vale para Beja.

No Festival de Beja celebra-se tudo menos o fim, e tudo se mistura. O autor lá está, misturado entre o público em geral, a ver exposições, a ouvir apresentações ou a comprar livros. Não é, certamente, uma despromoção, e não é, seguramente, um fim de um percurso. O público que aparece é convidado a entrar neste espírito singular, não apenas pela equipa do festival, mas também pela restante comunidade bedéfila que se desloca (já contagiada) e – surpreendentemente – pela acolhedora população da cidade que até pode nem ler BD. Todos estão envolvidos na celebração festivaleira.

E o que é que se celebra no festival de Beja?

  • Celebram-se autores portugueses com pouca ou nenhuma obra publicada, mas que não param. Miguel Mendonça, André CoelhoManuel Neto, José Smith Vargas ou os vários autores que homenagearam Hellboy têm uma qualidade de trabalho que só é possível quando não se para.
  • Celebram-se projetos de concretização que ajudam a redefinir as possibilidades da BD ao nível internacional (Comics 4= ou Aces Weekly, com David Lloyd) ou em Portugal (entre o retomar de uma personagem como Zakarella, a edição simultânea com vários países de Tony Sandoval, ou novas propostas editoriais). São iniciativas de gente que acredita no que faz, que o faz com paixão, e que não para.
  • Celebram-se autores estrangeiros cujo percurso dispara em todos os sentidos e direções, e que são “paulos monteiros” nos respetivos países, repartindo a vida de autor com a de outras vertentes ligadas à divulgação e promoção da BD, como José Aguiar ou Tommi Musturi (que já nem sequer conseguem saber parar).
  • Celebram-se autores que fazem arte popular, e que revelam autores entre os leitores, num processo apaixonado que justifica tudo, como Klévisson Viana ou Fabio Pochet. Celebram-se autores que acreditam tanto no que fazem, que nada os consegue parar, como Pedro Leitão ou Laudo Ferreira, que fizeram vingar projetos que contrariam a tradição editorial.
  • Celebram-se autores que se reinventam e redescobrem e nunca param, abraçando novos projetos com a mesma paixão, como André Diniz (o primeiro autor estrangeiro a repetir a visita a Beja), Étienne Davodeau, ou Laerte.

Esta energia de quem está, cheio de vida, envolvido na dinâmica de projetos novos ou atuais é o que distingue Beja e lhe confere identidade. O mérito vai todo para a equipa do festival, pois isto não é fruto do acaso. É trabalho de edição, feito com o mesmo empenho e a mesma dedicação que se procura (e consegue) receber na volta.

Veja-se que todos os exemplos que apresentei estavam em evidência na Casa da Cultura, num mesmo espaço que é o palco central do evento. A mostra de Guido Crepax foi colocada num outro espaço expositivo, mas não, naturalmente, por ter menor qualidade. Num outro exemplo, autores como Klévisson teriam certamente outro tipo de trabalhos que não foram selecionados para a sua exposição (mais uma vez, não por serem de menor qualidade, mas por critério editorial).

Neste sentido, também se celebra em Beja o próprio projeto da cidade em torno da banda desenhada, um projeto que envolve organização, autores, e diversos equipamentos municipais.

A mistura criteriosa de tudo o que se celebra, com ingredientes como a energia, a paixão, a vida, a generosidade e a disponibilidade, inspirada e inspiradora, numa fórmula que só a equipa do festival conhece, é o que mais gosto no festival de BD de Beja.

Nota do editor: como o autor – do texto – respeita o acordo ortográfico e o editor não esteve (com tempo) para converter o texto para pré-acordo, onde se lê “para” ou “não para” deverá ler-se “pára”, que aqui não se pára!
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