O Preço dos Originais

Um dos problemas com que se debate uma cidade como a Amadora no desenvolvimento de um projeto em torno da banda desenhada é o inesperado desenvolvimento do mercado de originais na Europa francófona. Os originais de banda desenhada franco-belga, que até há bem pouco tempo eram muito desvalorizados, conheceram, nos últimos quinze ou vinte anos, uma enorme valorização.

Naturalmente, torna-se mais difícil que um autor (ou coleccionador ou entidade pública ou privada) empreste originais, se não conhecer bem o projeto da cidade. Os valores dos seguros envolvidos tornaram-se muito superiores aos que estavam em causa há alguns anos atrás.

Para se ter uma ideia dos valores actualmente praticados, vale a pena dar uma olhadela ao catálogo do leilão que, no dia 5 de Abril, é promovido em Paris pela Christie’s.

150 mil euros
150 mil euros

A estrela do leilão é o original da capa de “O Adivinho”, de 1972, uma das poucas capas de Astérix que consegue reunir o elenco da aldeia irredutível. Valor estimado? Entre 150 mil e 170 mil euros. A venda deverá chegar acima desse valor. Na mesma ordem de valores está o lápis da prancha 54 de “Tintin no Tibete” (1960), pela mão de Hergé.

Estes valores traduzem um reconhecimento que nem sempre existiu. Durante muitos anos, os originais eram considerados meros documentos preparatórios do trabalho de impressão. O que valia era o que chegava ao leitor. Nos Estados Unidos da América, chegou a haver quem, como profissão, destruía originais. Em França, no tempo dos primeiros festivais, recortaram-se margens de originais para melhor caberem nas molduras. Tudo isto é hoje impensável. Mesmo os mais recentes tempos dos originais expostos com fita adesiva e sem qualquer protecção também já lá vão.

A cidade da Amadora possui uma valiosa colecção de originais, com cerca de uma dezena de milhar de originais sobretudo de autores portugueses (como Artur Correia, Augusto Trigo, Eduardo Teixeira Coelho, João Fazenda, José Carlos Fernandes, José Garcês, José Pires, José Ruy, Miguel Rocha, ou Victor Péon). A colecção é valiosa não só em termos patrimoniais, mas também porque consegue ter trabalhos representativos de épocas em que não é muito fácil reunir bons originais.

É importante que esta colecção seja parte integrante do projeto da cidade, com o apoio à aquisição de originais pelo Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem (CNBDI), de acordo com um plano previamente definido e um orçamento anual, no sentido de conferir unidade à colecção, e de preparar e complementar exposições temáticas a apresentar no AmadoraBD, no CNBDI ou fora da Amadora.

E é igualmente importante o apoio à conservação, tratamento e inventariação, com conhecimento do valor patrimonial dos originais. Os originais norte-americanos, italianos ou espanhóis não acompanharam a supervalorização dos franco-belgas, pelo que estes não devem ser utilizados como referência. Ainda assim, é possível, naturalmente, estimar o valor da colecção da Amadora, até para que, quando se emprestam originais a entidades cujo projeto se conhece, possam ser estabelecidos contratos de seguro em concordância com o real valor dos originais.

Autor, coleccionador, crítico e divulgador de banda desenhada, Pedro Mota colabora com o AmadoraBD desde 1995. aElipse é uma crónica semanal que será publicada no aCalopsia aos sábados.

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