O Broca é uma Moca

Descender
O Broca é uma moca mostra um trabalho de tradução cuidado na edição portuguesa de Descender, pela G.Floy.

Devo dizer que foi a primeira coisa que fui procurar ao folhear a edição portuguesa de Descender. Eu sei, estamos a falar de uma estupenda banda desenhada de ficção científica com um argumento excelente, tocando nas teclas do género, de Jeff Lemire e ilustrações pouco comuns de Dustin Nguyen, cujo traço aguarelado desafia a convenção que a FC visual precisa de ter um estilo hiperreal. Tanto elemento por onde poderia começar a degustar o livro, e o que fazia arder a minha curiosidade era saber como é que os tradutores deram a volta a uma das frases mais icónicas da série. Confesso, trocadilhos, jogos rítmicos e de sentido com as palavras são um dos meus prazeres culposos.

Descender, a par com Harrow County e Velvet, é uma das edições da G.Floy que vale mesmo a pena comprar. Saga e Fatale têm lugares honrosos nesta observação. O resto da oferta da editora é uma questão de gostos. Se se for fã da contínua reinvenção da banalidade dos comics de super-heróis, ou de histórias noir, há um pouco de tudo para todos, entre as piadolas básicas de Chew e a desconstrução original da iconografia mítica do herói de Miracleman. Já esta edição surpreendeu-me. Descender é um dos melhores comics de ficção científica publicados atualmente. Já tinha dito isto, não tinha? É sempre bom repetir. Mas confesso, a surpresa não foi muito grande. Já se percebeu que o ganha-pão da casa-mãe é co-editar títulos do catálogo da Image nos países onde opera.

Driller é um dos constantes personages da série. Não é especialmente inteligente, é apenas um robot de trabalho pesado em minas que defende lealmente o andróide Tim-21, um mistério de artefacto que promete pôr de pernas para o ar o equilíbrio de uma galáxia que, décadas atrás, travou uma guerra de sobrevivência contra robots assassinos. Se quiserem saber mais sobre o livro, só vos posso aconselhar a pegar nele e lê-lo. Vale bem a pena. Fiquemos por excelente argumento de space opera, com um vasto mundo ficcional, personagens sólidas em luta contra ameaças tremendas, espaços exóticos e muita aventura. Tudo ilustrado com um estilo visual admirável, com uma aguarela que faz respirar as vinhetas, sem sobrecarregar o leitor com barroquismos hiperrealistas. Parte da história constrói-se na mente do leitor, graças à indefinição deliberada do estilo visual de Descender.

Daqui vem o Broca é uma moca. É a frase-chave do robot Driller, traduzido para português como Broca. Tradução apropriada para uma máquina que é essencialmente duas brocas com pernas, tronco e cabeça, e uma personalidade a condizer com este brutalismo rude. No original, sempre que há confusão e Tim-21 é ameaçado, Broca avisa com a subtileza de uma locomotiva acelerada a descarrilar que Driller is a Killer. Parabéns merecidos aos tradutores Filipe Faria e Nuno Geraldo por terem conseguido dar a volta a este trocadilho. O português Broca é uma moca tem quase o mesmo impacto, e é fiel ao espírito da frase.

Digo que tem quase o mesmo impacto, porque Driller is a Killer é mais do que uma frase icónica e marca de um personagem. É também uma referência linguística a Driller Killer, um obscuro filme de terror realizado em 1979 por Abel Ferrara. O seu protagonista é um artista de sanidade duvidosa que usa um berbequim como instrumento de expressão pessoal. Não em paredes como o Vhils, este prefere carne humana de vítimas que caça nas ruas. Ferrara evoluiu deste shocker sangrento para nos legar tremendos murros fílmicos no estômago como Bad Lieutenant, com um inesquecível Harvey Keitel como polícia corrupto a bater abaixo do fundo nas ruas de uma Nova Iorque decaída. O filme não é uma influência directa em Descender, que segue caminhos muito diversos da estética de decadência urbana, mas a fabulosa combinação de palavras destrava-línguas está lá.

Diga-se que fiquei muito surpreendido quando li “uma mais espectaculares sagas de ficção-científica de sempre do autor” nos press-releases da G.Floy, disseminados pelos blogs câmara de eco das editoras nas redes, a qualificar o lançamento de Empress de Mark Millar. Pergunto-me se quem escreveu este copy sabia o que fazia. Empress é banal, como tudo o que Millar escreve. Vejo neste argumentista uma excelente técnica e narrativa, capaz de agarrar qualquer leitor, e uma capacidade invejável de criar histórias a metro que fazem as delícias dos produtores de cinema. É um entertainer consumado, afinou as suas ferramentas à acutilância total, mas não passa disso. Sempre que o leio sinto que é um argumentista que não está para se dar ao trabalho de ir mais longe do que o entretenimento ligeiro. Não vem daí mal ao mundo, os comics são um género que se pautua pelo escapismo e entretenimento, é também por isso que gostamos tanto de os ler. O que me faz rir com os excessos da linguagem de marketing desta nota de imprensa libertada para uma blogoesfera acrítica é notar que a editora já tem uma das mais espectaculares sagas de ficção científica de sempre no seu catálogo: Descender. Obra que, parafraseando o Broca, é uma moca, escrita por um argumentista cuja carreira se baseia no ultrapassar dos limites do género comics.

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