Novela Gráfica: A Prova dos Nove?

Uma selecção algo bipolar mas que servirá para tirar a “prova dos nove” se a BD de autor e adulta pode ou não vingar no mercado português de BD. Próxima Quarta-Feira sai o primeiro livro. Talvez se faça História outra vez!

É deste modo algo extremo, como é seu apanágio, que o bibliotecário anónimo comenta a colecção Novela Gráfica da Levoir, é um modo bipolar de encarar a BD que se esquece da história e remete para um perigo, sobre o qual já tinha falado num comentário, quando se falava sobre as “pedradas no charco” da banda desenhada nacional.

O problema das pedradas no charco é que a pedra afunda-se, as ondas desaparecem e a malta depois queixa-se que as pedras não flutuam. Esta colecção, pelo que foi dado a conhecer, tem tudo para daqui a uns meses ser usada como argumento de que os leitores só querem mais do mesmo.

É uma boa selecção de autores e obras, mas não segue qualquer lógica de uma colecção convencional, parece é um plano editorial para uma editora “boutique”. Existem ali obras de 200 páginas em formato franco-belga em capa dura a 10 euros, isso é uma pechincha. Esses preços para não darem prejuízo precisam de de vender bastantes milhares de exemplares…

E esta colecção nem tem aquele bónus que estas colecções costumam ter: aspecto gráfico e formato uniforme que faz com que as pessoas até comprem os volumes todos, só para terem a colecção completa na estante. Um detalhe que até pode parecer irrelevante, mas ajuda a vender mais uns exemplares, e estas colecções – como qualquer edição comercial – só continuam enquanto forem viáveis financeiramente. A colecção Novela Gráfica acaba por funcionar mais como 12 lançamentos individuais, onde é provável que as vendas reflictam mais o interesse do público em determinadas obras/autores do que é habitual nestas colecções.

A banda desenhada portuguesa (e não só) têm o hábito de viver num eterno presente, esquecendo-se do seu passado e sem examinar os problemas sem ser pelo acessório, sendo poucos os casos em que se ousa questionar as opções, o modo como são concretizados os projectos, sendo colocado o ónus do seu falhanço no público, o sucesso esse tem sempre um dono mais fácil de individualizar.

A ideia de que não é possível publicar BD de autor e “adulta” em Portugal com “sucesso” é um mito, é tão difícil este “género” de BD ter sucesso como os restantes. Primeiro porque “sucesso” é um adjectivo que é difícil de quantificar no mercado nacional, afinal, o que é um “sucesso” no nosso mercado? Estamos a falar de álbuns que são editados sem dar prejuízo ou de um álbum que é um “sucesso de vendas”: vende milhares de exemplares, gerando grandes receitas? É que existem casos sucesso de BD de autor e “adulta” em Portugal, em ambos os critérios.

A Polvo tem vindo há décadas a editar obras de autor e “adultas”. Autores como Comés, Christin, Bilal, Moebius, Jodorwosky, Schitten, Peeter e outros estão editados quase na íntegra. Existe um mercado que é capaz de absorver obras mais “adultas”.  José Carlos Fernande foi um caso de sucesso comercial e de popularidade, com um BD de “autor e adulta”.Até que ponto é que esse mercado existe é que é uma incógnita, não existem dados oficiais sobre vendas, pelo que só é possível especular na maioria dos casos ou comentar com base na informação oficiosa que circula.

A própria colecção Novela Gráfica está longe de ser uma aposta no “escuro” ou algo completamente original, sobre a qual não existem qualquer tipo de dados que permitam aferir a sua viabilidade (ou não) comercial.

Só cinco álbuns são de autores inéditos em Portugal: A Viagem de Edmond Baudoin, A Arte de Voar de Antonio Altarriba e Kim, O Livro do Mr. Natural de Robert Crumb, Sharaz-de de Sergio Toppi e Bando de Dois de Danilo Beyruth. As restantes obras são de autores já editados anteriormente e sobre os quais existem dados sobre a sua validade comercial no passado.

Um Contrato Com Deus é uma da obras de referência de Will Eisner, um dos autores mais conceituados da BD internacional que tem a particularidade de, até agora, só ter tido obras “menores” editadas em Portugal. Sendo o criador do termo “graphic novel” – cuja tradução correcta para Português é romance gráfico e não novela gráfica – é compreensível o facto de ser o autor a abrir a colecção, embora do ponto de vista comercial não seja o autor desta colecção mais conhecido (e popular) da generalidade do público nacional.

A Louca do Sacré-Coeur é uma obra menos conhecida de dois autores bastante populares, conhecidos do público nacional e cujo trabalho se encontra publicado na sua maioria em Portugal: Jodorowsky e Moebius.

Apesar de não ser subscritor da linha clara, Jacques Tardi é um autor “clássico” da BD franco-belga, e Foi assim a Guerra das Trincheiras, não é a sua primeira obra ser editada em Portugal, onde já é conhecido devido à sua série mais conhecida, Adéle Blanc-Sec, ou através de outros álbuns a solo ou em parceria com Daniel Pennac.

Em Busca de Peter Pan é mais um trabalho de Cosey editado em Portugal, um autor que começou a ser publicado na revista Tintin e, inclusive, já viu trabalhos seus editados em outras colecções editadas com jornais.

O Diário do Meu Pai é um novo trabalho de Jirô Taniguchi a ser editado numa colecção publicada com um jornal.

Mort Cinder de Héctor Oesterheld e Alberto Breccia é, supostamente, a edição integral de uma obra cujo primeiro volume foi editado em Portugal pela Asa, editora que também publicou pelo menos outra obra de Breccia.

Miguel Rocha é o único autor português incluído nesta colecção, com uma obra editada anteriormente pela Polvo em Portugal e pela Devir em outros mercados. Sendo um dos mais aclamados autores portugueses, com várias obras editadas, Miguel Rocha está longe de ser um autor desconhecido ou sobre o qual não existam dados sobre o público que é capaz de captar. Segundo tenho conhecimento, os trabalhos de Miguel Rocha nunca atingiram as vendas de José Carlos Fernandes – um autor português de obras “adultas” que vendem –  agora, a verdade, é que o seu trabalho tem sido editado com regularidade.

Sendo uma aposta arriscada da Levoir, a colecção Novela Gráfica surpreende sobretudo pela sua falta de coerência, temática e de aspecto gráfico. Uma colecção só no formato livro, franco-belga ou norte-americano seria menos surpreendente do que esta colecção de obras distintas, em formatos distintos, de autores de diferentes latitudes.
Quando à generalidade dos autores, já são conhecidos do público nacional, colocar o ónus do sucesso da colecção nos leitores – esquecendo outros aspectos – é colocar a discussão no supérfluo esquecendo o essencial.

Para terminar: é possível comentarem este tópico sem falar de cuecas? Eu sei que roupa interior é um assunto que a malta gosta muito de discutir, mas como o aCalopsia é sobre BD e não roupa interior, podem ir comentar as opções de usar cuecas ou não para outro lado?

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2 Comments

  • eu por acaso até sou de opinião que isto é pedrada no charco. mas concordo contigo: é coisa de epifenómeno. vai agradar a conhecedores, mas dificilmente deixará raizes, e recicla edições. mas mesmo assim, nada mal. o que torna esta colecção interessante é não estar nas livrarias, mas sim nas bancas. onde moro, numa típica vilória saloia onde o conceito de cultura implica doces regionais intragáveis, feiras e música pimba, não há cá sítios com edições da polvo. mas dei com três a vender esta colecção do público.

    • A vantagem das colecções de jornais é a distribuição nacional. Agora as colecções de jornais por si não me parecem ser uma maneira de resolver o problema da distribuição derivado às suas características. Sendo que neste caso o preço baixo das edições pode vir a ser prejudicial para o mercado caso depois exista a necessidade de colocar os álbuns no mercado livreiro onde se vai ter edições de capa dura com 200 e tal páginas a 10 euros a competir com outras edições com menos páginas e mais caras…

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