Nos Bastidores de Astérix e a Transitálica

Uma viagem pelos bastidores do 37º álbum de Astérix e Obélix que é editado dia 19 de Outubro.

Acontecimento editorial do ano, o novo álbum de Astérix chega com a sua habitual mão-cheia de tabefes e dentes partidos para deleite dos fãs de aventuras rocambolescas, com os seus inimitáveis jogos de palavras e a sua “justa dose” de História revisitada.

Astérix e a Transitálica é o terceiro álbum assinado pela dupla composta por Jean-Yves Ferri (argumento) e Didier Conrad (desenho). Sempre sob o olhar benevolente de Albert Uderzo, cocriador, com o saudoso René Goscinny, do maior sucesso mundial da banda desenhada, que regista mais de 370 milhões de álbuns vendidos desde a primeira aparição dos dois irredutíveis gauleses, em 1959.

Quando René Goscinny e Albert Uderzo criam Astérix

Tudo começa em 1959. Estamos na varanda do modesto apartamento de arrendamento social de Albert Uderzo em Bobigny. Fal- tam apenas três meses para a saída do número zero da revista Pilote e os dois autores, René Goscinny e Albert Uderzo, estão sob grande pressão. Têm de criar uma série de BD baseada na cultura francesa que seja completamente original. Para criarem os seus heróis, passam em revista a História de França. E de repente, entre duas gargalhadas, Eureka! , detêm-se no período dos gauleses. Foi assim que Astérix fez a sua primeira aparição, a 29 de outubro de 1959, na revista Pilote . Rapidamente esta BD se converterá numa série de culto: As Aventuras de Astérix, o Gaulês .

Conta René Goscinny:

Astérix e a Transitálica“Reunimo-nos uma tarde em casa do Uderzo em busca de uma ideia que queríamos que fosse divertida e original. Eu e o Uderzo não demorámos muito a chegar a um consenso: iríamos escolher como tema da nossa história os Gauleses, esses mesmos que, curiosamente, estavam um pouco esquecidos em França e nos pareciam ser um tema cheio de possibilidades! Inspirando-nos no nome de Vercingétorix, que relembrávamos das primeiras aulas de História da nossa infância, batizámos imediatamente as nossas personagens: Astérix, Obélix, Panoramix e outros “ix”. Os nossos Romanos teriam nomes a acabar em “us”, como por exemplo: Caius Feiradaladrus. E os seus campos fortificados teriam nomes a acabar em “um”: Babácomrum, Aquarium, Laudanum.”

Mais de 58 anos depois… o sucesso perdura. “Não sei porque é que isto funciona. É algo que nos ultrapassa. Nunca poderei agradecer suficientemente aos fiéis leitores de Astérix. Para eles, toda a minha gratidão e reconhecimento!” , afirma Albert Uderzo.

A poção mágica de René Goscinny e Albert Uderzo: uma boa dose de humor, uma pitada de humildade, um traço excecional, uma narração inteligente, um na- dinha de génio, muita amiza- de, uma vontade indomável, uma franca camaradagem e o enorme talento conjugado de dois grandes criadores dotados de um acutilante poder de observação… e de igual           sentido de humor…

A 5 de novembro de 1977 chega a trágica notícia: Goscinny deixa-nos, na sequência de uma prova de esforço efetuada no âmbito de um exame médico de rotina. Tinha 51 anos. É um choque terrível para o seu amigo Albert Uderzo.

A partir dessa altura, Albert Uderzo passa a trabalhar sozinho nas aventuras do herói gaulês e funda Les Éditions Albert René. Munido de 26 anos de cumplicidade com René Goscinny, Albert Uderzo escreve e desenha novos álbuns, ratificados por um número sempre crescente de leitores de Astérix.

Em 2011 Albert Uderzo decide arrumar os seus lápis, mas continua a trabalhar com entusiasmo nas personagens do universo Astérix, acompanhando com benevolência Jean-Yves Ferri e Didier Conrad no seu trabalho artístico.

Astérix e a Transitálica

Jean-Yves Ferri e Didier Conrad: entrevista cruzada

Falem-nos da génese deste novo álbum.

Jean-Yves Ferri  (JYF): Comparativamente aos dois primeiros álbuns que concebemos em parceria ( Astérix entre os Pictos , 2013 / O Papiro de César , 2015), o nosso método de trabalho tornou-se mais apurado. Na altura, eu só conhecia a obra do Didier. Foi Astérix que nos reuniu!

É preciso que se saiba que moramos a mais de 8000 km um do outro e que as nossas trocas de ideias se fazem maioritariamente por email, por telefone ou por Skype ! No início não sabíamos se isso iria resultar, mas acabámos por nos adaptar e hoje o trabalho em equipa tornou-se muito mais fácil.

Didier Conrad (DC): Sabíamos que para esta nova aventura era preciso encontrar um destino para lá das fronteiras gaulesas, e a Itália, proposta por Jean-Yves, rapidamente se transformou para nós na opção óbvia. É a primeira etapa. Depois, é preciso encontrar uma boa história. Jean-Yves é um argumentista talentoso e precisou de pouco tempo para encontrar a ideia da travessia de Itália sob a forma de uma corrida por etapas.

Uma vez aceite a sinopse por Albert Uderzo, Anne Goscinny e Les Éditions Albert René, só me resta esperar pelo storyboard do Jean-Yves. É então que o meu trabalho começa: longas noites em claro a desenhar personagens bem conhecidas no mundo inteiro. Mentiria se não dissesse que isso é esgotante e muito stressante; não queremos dececionar nem os leitores nem Albert. Por isso, errar está fora de questão!

Precisamente a esse propósito, como descreveriam a vossa colaboração com Albert Uderzo?

JYF: A nossa colaboração tornou-se muito fluida à medida que os álbuns se sucederam. Quando lhe mostrámos as primeiras páginas do nosso primeiro álbum, ele fez-nos várias observações, tanto sobre a história como sobre o desenho.

Para este novo álbum, ele pôs literalmente os pontos nos “i”, já que na capa faltava nada mais nada menos do que um ponto no “i” da palavra “Transitálica!”

Para além disso, deu-nos sempre o seu apoio para este projeto: as suas intervenções são mais no sentido de nos encorajar do que de nos criticar.

DC: De facto, ao fim de 3 álbuns, podemos considerar que começamos a apropriar-nos tanto do estilo de René Goscinny como do traço, reconhecível por todos, de Albert Uderzo. São dois mestres absolutos. Retomar as suas aventuras é para nós um imenso orgulho.

Encontraram alguma dificuldade especial durante a realização do álbum?

JYF: O principal constrangimento é o tempo! Dois anos para conceber um álbum do Astérix é pouco. No início, achamos que não vamos conseguir. A dificuldade está em conseguir incorporar o universo de Albert e de René, tão rico e tão prolífero, numa história que não pode ultrapassar as 44 pranchas. O caderno de especificações é exatamente este mas, no final, esse exercício acaba por se revelar extremamente estimulante.

DC: Creio que tenho uma vantagem em relação a muitos dos meus camaradas. Tal como Albert, adoro desenhar cavalos, pese embora a grande dificuldade dessa tarefa. E para este 37.º álbum tive oportunidade de satisfazer esse meu gosto. Da mesma forma, quis neste álbum dar grande atenção aos pormenores. Cada prancha exigiu-me cerca de 30 horas de trabalho, contra 20 nas duas aventuras anteriores.

 JYF: Tenho a certeza de que os leitores vão ficar impressionados com os teus desenhos! DC: E que se vão divertir muito com os teus gags !

Astérix e a Transitálica

Finalmente, a capa!

O desenho de Didier Conrad faz-nos mergulhar imediatamente no universo do álbum.

Pinheiros-mansos, edifícios próprios da Antiguidade, vias romanas e as paisagens majestosas da Itália Antiga desfilam perante os nossos olhos, o que seguramente não desagradará a Albert Uderzo, oriundo da região do Véneto!

Conseguir manter o dinamismo, a finura de traço e o humor que constituem a poção mágica das capas de Astérix não é todavia tarefa fácil, como nos confessa Didier Conrad: “Fazer a capa de um álbum é toda uma arte”, contanos ele. “Isso pode parecer óbvio, mas resumir o universo de toda uma saga, prestar homenagem a personagens conhecidas de todos, revelar as novas caras e destacar a temática da nova história, mantendo ao mesmo tempo um certo tipo de humor próprio da tradição ‘Goscinny e Uderzo’, tudo isto num único desenho, é – acreditem – um verdadeiro quebra-cabeças!”

O cenário já é conhecido e não restam quaisquer dúvidas: esta nova aventura gira em torno de uma corrida de carros em que os nossos heróis irão participar!

Atrelem, pois, os cavalos e ponham esses carros a reluzir: Astérix e Obélix vão conduzir-nos a um ritmo desenfreado através das suas novas aventuras italianas. Ou melhor – desculpem! –, das suas novas aventuras itálicas

Astérix e a Transitálica

Porquê a Itália?

Por mais surpreendente que possa parecer, a verdade é que Astérix e Obélix nunca tinham percorrido a Itália!

Roma foi a única cidade que visitaram naquele país, primeiro em 1964 ( Astérix Gladiador ) e depois em 1972 ( Os Louros de César ). Mas felizmente este magnífico país não se resume à sua capital, tal como nem todos os seus habitantes são romanos! Vénetos, Úmbrios, Etruscos, Oscos, Messápios, Apúlios: é toda uma diversidade de povos que compõem a península itálica, e nem todos aceitam de bom grado a autoridade romana.

“A Itália não se resume a César, a Roma e ao Coliseu! Demo-nos conta de que já era tempo de Astérix e Obélix ficarem com uma ideia mais exata sobre aquilo que era verdadeiramente a Itália!” – Didier Conrad e Jean-Yves Ferri

Albert Uderzo não poderia sonhar com melhor presente da parte dos autores do novo álbum: uma aventura que se desenrola no seu país de origem!

Da ementa desta 37.ª aventura constam uma gastronomia suculenta e generosa, monumentos antigos de grande beleza e paisagens sublimes povoadas por personagens bem pitorescas.

Parece até que algumas delas poderiam evocar certas figuras públicas da atualidade e bem conhecidas de todos…

Uma corrida de carros pelas vias romanas

Para afirmar o prestígio de Roma e a unidade dos povos da península itálica, Júlio César aprova a organização de uma corrida aberta a todos os povos do Mundo Conhecido, a fim de mostrar de forma esplendorosa a excelência das vias romanas.

Aos organizadores do evento, César impõe uma condição sine qua non : a equipa romana tem imperativamente de cortar a meta em primeiro lugar (ao que parece, naquela época o desporto, a política e o espetáculo já estavam intimamente ligados…)! Com o que César não contava era com a inscrição na corrida dos nossos dois campeões gauleses, que ameaçam deitar por terra os seus sonhos de grandeza…

Para Jean-Yves Ferri e Didier Conrad começa então o longo trabalho de criação das diversas equipas que se irão defrontar na corrida. Detenhamo-nos porém um instante no carro dos nossos dois heróis gauleses, magnificamente decorado com o símbolo gaulês por excelência: o galo. Um pormenor, e não despiciendo, salta imediatamente aos olhos: é o nosso amigo Obélix que é o auriga (o condutor do carro) da equipa gaulesa, cabendo a Astérix o papel de copiloto!

“Todas as personagens criadas pela dupla Goscinny-Uderzo possuem algo que as torna únicas. Astérix, Ideiafix, Matasétix, Falbala… A lista é longa! Mas eu partilho a opinião da maior parte dos leitores assíduos da saga: o meu preferido continua a ser aquela criança grande com um grande coração e um pouco roliça! Toda a gente adora o Obélix, e eu sou o primeiro da lista! Por isso achei que, neste novo álbum, era preciso prestar-lhe homenagem de forma um pouco mais enfática. E não me foi difícil convencer o Didier a apoiar a minha causa!” –  Jean-Yves Ferri

“O Obélix não é tão simples como parece. É a personagem mais infantil da série, e por isso mesmo o mais suscetível de evoluir. Ao longo dos vários álbuns, as suas proporções variaram muito. Pareceu-nos lógico, tanto a mim como ao Jean-Yves, dar-lhe um papel mais importante do que o habitual. E, por isso, desta vez é o Obélix que dirige a corrida e a história.” – Didier Conrad

As equipas

Breve ponto de situação sobre as equipas em disputa na Grande Corrida Transitálica, na qual participam representantes de inúmeros povos da Antiguidade. Todo o Mundo Conhecido quer brilhar!

Conseguirão os Gauleses suplantar todas as artimanhas a que recorrem os temíveis Romanos? E, para além de todas as outras equipas adversárias, conseguirão eles fazer face aos intrépidos Bretões? Conseguirão eles ser mais rápidos do que os Persas ou os Sármatas? Conseguirão eles não perder terreno face aos valerosos Godos?… Isto para já não falar dos carros de outros povos itálicos que não veem com bons olhos a hegemonia de Roma…

O auriga mascarado

Astérix e a Transitálica“Quanto melhor for o vilão, melhor é o fi lme.” René Goscinny e Albert Uderzo, grandes cinéfi los, retiveram a lição do mestre Alfred Hitchcock na conceção dos antagonistas que vêm regularmente perturbar a tranquilidade da aldeia dos seus heróis gauleses. Para dar apenas um exemplo, o sorriso diabólico de Lindomeninis ao gritar “Acabo de ter uma ideia horrenda!” em Astérix e Cleópatra é digno dos mais diabólicos vilões do grande ecrã.

Em Astérix e a Transitálica , Jean-Yves Ferri e Didier Conrad inovam ao apresentarem o misterioso auriga mascarado: Coronavírus, o campeão romano das MCDLXII vitórias! Não recuando perante nada para roubar o protagonismo aos seus adversários, e almejando obter mais uma vitória para sua glória e a glória de Roma, Coronavírus é um concorrente temível, cujo sorriso estático não inspira confi ança a Obélix.

Didier Conrad desenhou uma dezena de máscaras para esta personagem atípica, propondo opções narrativas variadas: “Trabalhei um pouco em todas as direções possíveis”, explica ele. “É sempre melhor escolher em função do argumento, devendo o desenho seguir este último, pelo que tive necessidade de colocar muitas questões ao Jean-Yves. Deverá este concorrente ter uma linguagem corporal específi ca? É sério ou fanfarrão? Tem falas ao longo do álbum? E, se sim, como se exprime? Até que ponto deve ir o seu lado dramático?”

Para a máscara, as propostas de Conrad vão desde o design puro até à máscara de Zeus/Júpiter, desde a opção cómica até à versão assustadora, passando por variações de capacetes gregos e incluíndo até uma máscara “dupla” (drama/comicidade), inspirada na figura de Jano, o deus romano de duas faces. Ferri faz a sua opção com base em critérios muito precisos: “Eu queria que ele fosse fanfarrão, sem dúvida nenhuma! Mas sobretudo irónico, pois para mim aquilo que a máscara deveria exprimir em primeiro lugar era a superioridade da personagem face aos outros concorrentes. A máscara também permite jogar com o mistério da identidade, à maneira de alguns vilões célebres da BD.”

Então… quem se esconderá por trás desta máscara? A resposta a essa pergunta irá estar disponível em  Astérix e a Transitálica, que é editado em Portugal pela Asa no próximo dia 19 de Outubro.

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