Nonnonba, de Shigeru Mizuki

A mitologia tradicional em vias de esquecimento num Japão em pleno processo de modernização é revisitada pelo olhar deslumbrado de uma criança, que sente uma enorme curiosidade pelas criaturas fantásticas das histórias de uma velha ama.

Em Nonnonba, tradições ancestrais e recordações de infância cruzam-se numa história cativante, que dá a conhecer ao público português um dos grandes marcos da obra de Shigeru Mizuki. Edição da Devir, reforçando com a sua aposta na coleção Tsuru a vontade de trazer aos leitores portugueses autores e obras marcantes do mangá.

Num incessante fascínio com um certo oriente

Isso nem eu sei. Sou como sou. É apenas algo que tenho de fazer. Todas as coisas foram determinadas. Assim confessa um Yokai a Gege, personagem principal deste romance gráfico, quando este o questiona porque é que ele é como é. Este reconhecimento não é um maniqueísmo dualista de bem e mal, sublinha a compreensão de desempenhar de um papel muito específico nas tradições culturais milenares, mero personagem numa história já traçada há muito tempo.

Parte do fascínio que sentimos pela cultura japonesa explica-se, creio, pela profunda sensação de alienismo que se sente ao contactar com elementos culturais que nos parecem estranhos. Imersos numa continuidade cultural global, temos tendência a não reparar que outras culturas evoluíram fora dos pressupostos vindos da antiguidade greco-romana que estão na base do mundo ocidental. Quando deparamos com algo que nos é realmente estranho, as sensações que nos desperta invocam reações de paixão ou recusa.

Desde que o Japão se abriu ao ocidente, em meados do século XIX, que ficámos fascinados pela cultura daquele recanto do oriente. O orientalismo em si não é nada de novo, o fascínio pelos arabescos ou chinoiseries é cíclico na cultura europeia mas nunca se tornou uma influência determinante. Já o japonisme, especialmente o focado na cultura visual japonesa, desempenhou um papel muito influente na cultura europeia. As primeiras exposições de gravura japonesa na Europa do final do século XIX foram uma inspiração assumida pelos pintores impressionistas e modernistas, fascinados com os diferentes usos de cor, perspetiva e estilismo vindos do que à época eram uma novidade estética. Todos sabemos o quanto o impressionismo e os primeiros modernistas vieram a influenciar a cultura do século XX e, por extensão, a do nosso século XXI.

O corrente fascínio pela cultura pop japonesa é um reflexo mais abrangente dessa tradição de apreciação europeia e ocidental pelo Japão. Agora, cruzado com a hipermodernidade de um país que soube colidir a tradição ancestral com o progresso tecnológico, gerando uma cultura híbrida que, pessoalmente, não consigo encontrar outra que se lhe compare. Talvez a cultura emergente nas megalópoles chinesas se aproxime da visão que temos de um Japão como um lugar ao mesmo tempo contemporâneo e intemporal.

Arranque promissor de uma nova coleção de mangá

Esta longa introdução serve para contextualizar o impacto que senti com a leitura de Nonnonba. Explica-se em parte com o meu fascínio pessoal com a cultura japonesa, que não se traduz muito num gosto pelos produtos mais acessíveis que estão disponíveis no mercado, mas por outras vias. Um encanto construído entre a filmografia de Mizoguchi e Myazaki (e o drama de não ter tempo para ver mais), as bizarrias do cinema de franja japonês, os livros de Pico Iyer sobre as suas experiências no Japão (se Four Seasons in Kyoto não vos deixar a sonhar com o ascetismo zen, é porque não o leram), a rara FC nipónica que nos vai chegando em traduções graças à editora Haikasoru, e em especial o fetichismo visual de Tokyo-Ga de Wim Wender, que me deu o primeiro choque verdadeiramente impactante com a cultura japonesa.

A leitura de mangá por si acaba por ser um aspecto menor, um pouco por culpa da monocultura de títulos disponíveis no mercado português, muito focalizado para um público jovem. Uma aposta legítima que cativou o mercado, mas que não nos dá um panorama muito diversificado do género. É um resmungo recorrente que tenho, bem sei. Projetos como a coleção Tsuru da Devir ajudam a mitigar esta resmunguice.

O primeiro volume da colecção, O Homem que Passeia de Jiro Taniguchi, não aqueceu nem arrefeceu. É um autor conhecido, valor seguro, já editado por cá, com reconhecimento crítico global. Um livro pensado para o mainstream dos fãs de BD, com um título confortável que não desperta animosidades. É um bom título de referência, para início de coleção.

Nonnonba despertou-me a curiosidade. Primeiramente por ser um autor que me era desconhecido, o que não é surpreendente no vasto panorama do mangá, mas essencialmente pela temática, dentro do fantástico japonês, outra grande fonte de fascínio. A percepção sobre o horror e sobrenatural torna-se mais intrigante porque nas obras japonesas estas não seguem os pressupostos de assombração e redenção a que estamos habituados. As fantasmagorias nipónicas são todo um outro mundo.

Antes do bem e do mal

Numa cultura com imenso substrato animista, o mundo espiritual não se circunscreve dentro dos nossos padrões de bem e de mal, sublimação ou maldição. Tudo tem o seu valor espiritual, locais, criaturas, elementos. Mesmo as emoções podem ser representadas pela materialidade e influências de criaturas do além. Talvez aquele arrepio que sentimos na noite escura, a opressão sobre o coração na viagem à noite, a sensação de estranheza que nos invade na normalidade dos dias, sejam o efeito de um ser que não tem outra função no universo para além de despertar estas sensações.

Espíritos animistas, os Yokai estão para cá dos conceitos de bem e mal. Têm o seu quê de anjos ou diabretes, mas não são especialmente castigadores. Cair sob o seu efeito é talvez mais comparável a apanhar uma daquelas doenças pouco graves mas chatas, do que à nossa ideia enraizada no bem e no mal de cair nas garras de uma maldição. É algo que só poderia ter evoluído numa cultura animista, e que os nossos panteões de criaturas sobrenaturais tradicionais mantém como resquício. Parte das superstições e fantasmas tradicionais vêm deste substrato, embora sublimados pelo peso esmagador do teísmo mono e poli que cooptou estes seres imaginários para os seus espartilhos teológicos.

Este riquíssimo substrato sustenta a obra de Shigeru Mizuki, que não se esgota, claro, na sua inspiração com os yokai. Mas é este interesse, entre o histórico e o antropológico, que forma a espinha dorsal de Nonnonba. apesar de ser de notar que Mizuki não tem o rigor de cientista nas suas histórias. Os mais puristas apontam a tendência do autor de inventar novos Yokai como uma fuga indesejável ao rigor da tradição. Talvez não o seja, talvez seja a intuição de artista a perceber que a profundidade de atribuição de atributos espirituais ao mundo físico não se esgota nas tradições, evoluindo com os tempos.

Memória e Tradição em Nonnonba

O pessoal e o tradicional cruzam-se nesta história, mostrando-nos como a memória de uma cultura está muito ligada às vivências daqueles que nela estão inseridos. O cunho autobiográfico é muito forte nesta história que se baseia nas recordações do próprio Mizuki,notório no nome de Gege, uma alcunha sua, dado ao personagem principal deste livro.

Nonnonba leva-nos a um Japão dos anos 20, um país no limiar da modernidade, visto pelos olhos de uma criança numa cidade pequena do interior. A sua vida é simples, estudante esforçado mas nem sempre bem sucedido, dividido entre as brincadeiras de criança e uma enorme vontade de desenhar e contar histórias, que concretiza em inúmeros desenhos. Num pormenor curioso, compreensível dado o pacifismo expresso pelo autor, as brincadeiras das crianças espelham o militarismo que levou o Japão ao colapso. O brincar envolve verdadeiras guerras entre bairros, completas com hierarquia, disciplina militar, batalhas campais e insígnias. A mensagem é clara: a geração que alegremente se combatia nos arredores das aldeias foi a mesma que pouco mais tarde foi sacrificada pelo imperialismo nipónico nos campos de batalha da Ásia e do pacífico. As sementes do nacionalismo suicida cultivam-se cedo.

Há algo mais que torna a vida desta criança especial: o fascínio pelas histórias de uma velhota da aldeia. sempre conhecida como Nonnonba, sabedora dos antigos mitos, superstições e tradições do Japão antigo. É com ela que Mizuki irá descobrir os mundos fantásticos dos Yokai, aqueles seres que num misto de ternura ou terror assombram os recantos da alma japonesa. A história flui entre as agruras de uma criança que cresce, as pequenas histórias da normalidade da vida quotidiana, e a omnipresença de espíritos em que só Nonnonba acredita, e Mizuki quer conhecer, com uma curiosidade insaciável.

O resultado é uma narrativa deliciosa, impossível de não cativar o leitor. Tem uma simplicidade enganadora, a estrutura é complexa e entretece diversos fios narrativos, mas a imagem que perdura é a de um voo pelo fantástico tradicional japonês, visto pelo olhar de deslumbramento de uma criança. Mas não pensem que esta é uma história de inocências. A maldade humana, a violência institucionalizada, o confronto entre tradição e modernidade estão muito presentes nas vinhetas que formam esta história.

Simplicidade assente em estruturas complexas

Esta complexidade estrutural do livro reflete-se também no seu estilo gráfico. O que irei escrever a seguir poderá criar a ideia de um grafismo assimétrico e pouco coerente, mas na verdade é muito equilibrado, criando texturas visuais inesperadas na obra. O dia a dia quotidiano humano é retratado por Mizuki de forma muito estilizada, mais em estilo de cartoon do que realismo. As figuras humanas são muito caricaturais, excepto nalgumas personagens que Mizuki claramente idealiza.

O realismo entra com força em Nonnonba com a representação dos espaços naturais. Mizuki trabalha muito bem num registo fortemente realista, de tons fortemente contrastantes a dar textura aos ambientes japoneses. Já os Yokai são representados num misto de visão pessoal e iconografia tradicional, inspirada nas representações da mitologia japonesa. Estas três estéticas, aparentemente díspares, equilibram-se num registo gráfico que se complementa, reforçando o carácter narrativo da história.

Diga-se que a Devir acertou em cheio com esta edição de Nonnonba. Traduziu para português uma obra apaixonante de um mangaká de referência, reconhecido pela sua mestria. É um bom equilíbrio face aos mangá pop direccionados para os públicos mais juvenis. Os conhecedores do género estão muito habituados a encontrar estas obras em traduções americanas ou francesas, mas nem todo o público português potencial chega a estes autores, criadores de obras destinadas a leitores com maior maturidade intelectual. Se a aposta da coleção Tsuru se manter, poder-se-á sonhar com uma edição de Junji Ito em português?

 

NonNonBa

Autores: Shigeru Mizuki
Editora: Devir
Páginas: 424, capa mole
PVP: 24,99 €

9 Argumento

9 Planificação

10 Temática

10 Desenho

9 Arte Final

9 Cor

9 Legendagem

7 Produção

A Devir acertou em cheio com esta edição de Nonnonba. Traduziu para português uma obra apaixonante de um mangaká de referência, reconhecido pela sua mestria. É um bom equilíbrio face aos mangá pop direccionados para os públicos mais juvenis. Os conhecedores do género estão muito habituados a encontrar estas obras em traduções americanas ou francesas, mas nem todo o público português potencial chega a estes autores, criadores de obras destinadas a leitores com maior maturidade intelectual.

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