Nocturno, de Tony Sandoval

A editora Kingpin Books reforça a sua aposta em Tony Sandoval, um autor exibe com elegância as suas obsessões.

Nocturno foi um personagem criado pelo autor na sua adolescência, revisto agora com uma nova maturidade gráfica e narrativa. O cerne juvenilia do justiceiro mascarado que canta e encanta numa banda de música pesada é revisto à luz das paixões e obsessões de um artista de estilo peculiar.

Nocturno, perdido entre as almas no seu interior

Em palco, Seck transforma-se. Quando os acordes da música ressoam a sua voz acorda e encanta, transformando as canções com uma paixão que não deixa nenhum ouvinte indiferente. Isolado e discreto, este músico é uma jovem lenda viva no mundo das bandas de metal. As suas capacidades de vocalista garantem que qualquer banda que integre conheça o sucesso, o que desperta inveja violenta da parte de músicos menos talentosos mas mais ambiciosos. Uma inveja que se traduzirá em espancamentos que deixam o melhor amigo de Seck morto, e este desaparecido, dado como falecido.

Nocturno

Seck é também algo mais do que um jovem músico de talento. O espectro da morte é uma companhia constante. A sua alma é habitada por mais do que um espírito, o que contribui para a sua estranha personalidade e a facilidade com que se esquece de si próprio e mergulha no isolamento. É-lhe tão fácil esquecer-se de si, especialmente em momentos de grande trauma, que acabará por vaguear perdido numa floresta de sussurros e espíritos, com as suas almas subjugadas a um alter-ego de justiceiro, o Nocturno que dá o título a este livro.

A libertação, e o seu regresso à sociedade, dá-se com o confronto justiceiro com um depravado assassino em série e a sua vítima, que libertará como alter-ego enquanto a sua alma se liberta dos espíritos.

Apesar da sua intensa solidão, Seck não é imune ao amor. Está cativo pelo olhar e sorriso da jovem jornalista Karen, mulher que ao ouvi-lo cantar se sente embalada pela fortíssimas tempestades marítimas que a sua voz desperta. Neste livro, a música não é feita de suaves baladas, são os urros lancinantes e guitarras das sonoridades pesadas. Karen desesperará com o desaparecimento de Seck, e o seu regresso traz consigo a esperança de um novo recomeço.

Nocturno, o reforço da aposta da Kingpin em Tony Sandoval

Vou correr o risco e comentar que Mário Freitas encontrou em Tony Sandoval o seu autor fétiche, de estilo marcante e diferenciador que talvez não lhe traga sucesso comercial (é uma questão que desconheço por completo), mas que lhe garante distinção crítica como editor capaz de trazer ao público português autores de culto.

Dos autores internacionais que a Kingpin Books nos traz, Sandoval é o nome mais representando, contando já com quatro edições. Nocturno, o onírico As Serpentes de Água, Rendez-vous em Phoenix e Mil Tormentas são os livros que nos trazem o estilo gráfico peculiar deste autor mexicano. Um peso grande no catálogo de uma editora que tenta equilibrar a procura do sucesso comercial com a edição de obras e autores mais experimentais, com voz pessoal marcante.

NocturnoA voz narrativa e gráfica de Sandoval é, de facto, diferenciada e marcante. Este autor exibe com elegância as suas obsessões. Transmuta a estética negra da cultura metaleira numa mitologia onírica muito pessoal, onde a água e tudo o que lhe está associado tem um peso muito importante. Algo que sustentou As Serpentes de Água, e que está muito presente neste Nocturno, com as suas constantes referências a criaturas marinhas, águas revoltas e tempestades.

As singularidades de Sandoval tornam a sua obra um estilo facilmente identificável. Atrevo-me até a observar que, do que conheço da sua obra, esta é essencialmente um eterno exercício de estilo, que se multiplica em várias abordagens. Não que este caráter seja um demérito. As mitologias pessoais e o estilo gráfico de Sandoval são fascinantes. São poucas as vinhetas deste livro que não são intensamente cativantes, e por pouca que seja a afinidade do leitor para com a cultura musical que sustenta a narrativa, as suas ramificações espirituais e míticas levam a história longe.

Visualmente, Nocturno mantém-se dentro dos limites do estilo gráfico de Sandoval. Na paleta predominam os tons escuros, por vezes cortados com rasgos de cor vermelha ou tonalidades terra, que dão um ambiente soturno à obra. Vai oscilando entre estilos visuais, por vezes mais trabalhados, noutros mais rascunhados, sempre ao serviço da invocação de algo que está para lá da percepção do normal.

Este é um livro com uma génese interessante. A edição é encerrara com as notas de Sandoval, esboços e o registo dos seus primeiros passos no mundo da Banda Desenhada. Nocturno era originalmente um personagem das primeiras tentativas do autor, então adolescente, na banda desenhada, um típico justiceiro de máscara negra e identidade real como vocalista numa banda de rock pesado.

A redescoberta do personagem pelo autor, agora já mais maduro, deu-lhe dimensões mais profundas, embora a raiz original esteja lá. O ambiente das bandas de música dá o tema, e Seck encarnará a entidade de Nocturno, com um elemento de luta contra o crime.

São as mitografias pessoais deste autor que acabam por levar a história noutros sentidos.

Nocturno

Autores: Tony Sandoval
Editora: Kingpin Books
Páginas: 242, capa dura
PVP: 21,99 €

8 Argumento

8 Planificação

6 Temática

10 Desenho

8 Arte-Final

6 Cor

9 Legendagem

9 Produção

A voz narrativa e gráfica de Sandoval é, de facto, diferenciada e marcante. Este autor exibe com elegância as suas obsessões.

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