Nelson Dona Vence Prémio Cobardia ABD 2017

Em honra dos PNBD começa hoje a atribuição dos Prémios Amadores da BD.

Já que andamos numa de atribuir prémios a amigos, resolvi instituir os prémios Amadores da BD, cuja sigla – ABD – é obviamente um trocadilho com aquela que devia ser a sigla do AmadoraBD. Os textos vão ser publicados ao longo dos próximos dias.

O primeiro vencedor por unanimidade e sem margem para dúvida é Nelson Dona, o director do festival, galardoado com o Prémio Cobardia pela sua incapacidade em assumir as decisões que toma, as responsabilidades que têm na organização do evento do qual é director desde o ano 2000.

Ao longo destes 17 anos em que Nelson Dona é o director do festival, os diversos problemas e falhas sucedem-se, contudo não são responsabilidade do director do evento. São sempre culpa da burocracia, dos regulamentos camarários, etc… nunca são do director.

A verdade é que os executivos mudam mas os problemas persistem, assim como o director. Existem situação que deveriam ser falhas pontuais que se tornam falhas permanentes e, em alguns casos, agravam-se. As exposições não estarem concluídas no primeiro fim-de-semana do evento já não é novidade, já é habitual que durante a semana – após a inauguração do festival – ainda ande a colocar as últimas pranchas nas exposições. Uma das exposições fundamentais do festival, como a de Will Eisner, só estar disponível no segundo fim-de-semana não surpreende ninguém. Nós só nos indagamos se é a primeira vez. É que o festival apesar de ter meio milhão de euros de orçamento é sempre organizado em cima do joelho, já é tradição.

Também é tradição a existência de outros problemas crónicos que são do conhecimento de intervenientes no festival:  editores, autores e pessoas que colaboram directa e indirectamente com o festival. São situações que não sucedem em eventos com organização competente, contudo à 17 anos que se repetem no AmadoraBD, um evento que deveria ser um máquina bem oleada revela todos os anos o amadorismo que só teria justificação num evento com um direcção inexperiente ou incompetente.

As únicas pessoas que parecem desconhecer os problemas crónicos que afligem o AmadoraBD é a Câmara Municipal da Amadora, a qual patrocina a festa que é cada vez mais privada e reservada a alguns eleitos escolhidos por Nelson Dona e comissários como Pedro Moura ou Sara Figueiredo Costa.

Existem problemas crónicos contudo, convém salientar, a culpa nunca é do director,  o qual teve o mérito de criar os três pilares que transformaram o AmadoraBD num evento previsível e desinteressante, mesmo quando tem exposições de autores como Will Eisner e Jack Kirby.

O Artur Coelho queixava-se da “fossilização do evento, refugiado em temas confortáveis, que não se inova nem renova”. Isto pode parecer estranho se tivermos em consideração que é suposto o evento ter um tema diferente todos os anos, mas a verdade é que o tema é sempre o mesmo: Prémios Nacionais de Banda Desenhada (PNBD).

Os Pilares Coxos

Quando assumiu a direcção do AmadoraBD, no ano 2000, Nelson Dona erigiu três pilares sobre os quais o festival tem funcionado, convém compreender esses pilares para compreender quais são os problemas do AmadoraBD.

  • Exposição Central, este pilar costuma ser apresentado por Dona como sendo o “Tema do Festival”, é mentira.  Quando um festival tem um tema todo o conteúdo que existe nesse festival é subordinado a esse tema, no ABD não é isso que acontece. Existe uma exposição central que é temática, a qual serve para justificar o tema dos concursos e do cartaz. Não existe mais nenhuma exposição no festival que seja subordinada ao tema da exposição central.
  • Efemérides, para celebrar eventos que sejam significativos e justificar compra de exposições no exterior.
  • Prémios Nacionais de Banda Desenhada – para evitar ter de tomar assumir a decisão sobre os autores que vai expor no festival, justifica a escolha dos autores com os prémios atribuído pelo júri cuja liderança lhe pertence. Os PNBD são também o verdadeiro tema do festival, este anos existiram sete exposições subordinadas ao tema PNBD.

São estes pilares que fazem com que a maioria das exposições seja virada para o passado: álbuns que  foram editados à um ou dois anos, autores que nasceram ou faleceram à 50/100 anos, personagens criados à 50/70 anos. É um festival virado para o passado, até no exposição central. Como  o objectivo dessa exposição é ser “pedagógica” e apresentar como  é explorado um tema na banda desenhada, é uma exposição composta na sua maioria por trabalhos com décadas de existência.

Este ano 11 das 17 exposições patentes no festival foram viradas para o passado: sete exposições referentes aos PNBD, duas a centenários, uma exposição temática – a central – e uma exposição dos livros publicados no ano anterior e oferecidos pelas editoras. Existe ainda a habitual exposição dos concursos. Estes são os motivos porque das 17 exposições só cinco é que são uma novidade, leia-se: não são previsíveis com um ano de antecedência. Estas cinco exposições sã também aquelas com que o ABD menos se preocupa ou valoriza, deixando para a última hora a sua definição. Existem casos, segundo consta, de exposições que só foram encomendas quando faltava um mês para  festival abrir as portas, porque só nessa altura é que repararam que tinham espaço livre que precisavam de ocupar.

O Tema Oculto e o Tema Central

Aquele que é apresentado como sendo O Tema do festival, este ano era suposto ser a “Reportagem”, é uma mentira que serve para disfarçar o verdadeiro tema: os Prémios Nacionais de Banda Desenhada. Só existiram duas exposições dedicadas ao suposto tema do festival e sete dedicadas aos PNBD, creio que é evidente qual é o verdadeiro tema do evento.

Programação Indirecta

Contudo a principal cobardia encontra-se nos PNBD, os quais tem sido usados como uma forma encapotada de determinar quais são os autores nacionais que têm exposições no festival. Esta é a única explicação lógica para situações anómalas que têm ocorrido em anos anteriores.

Por exemplo: vencedor do melhor álbum não vence o melhor argumento nem o melhor desenho. Depois temos a situação em que um autor que vence numa categoria num ano não vence no ano seguinte, mesmo quando tem um trabalho superior. Temos autores que vencendo um prémio depois passam por um período de pousio em que só são nomeados ou nem isso, até nas situações que realizam um com trabalho superior ao que foi premiado.

Este ano o grande derrotado nos PNBD foi Lugar Maldito, o qual foi nomeado para três prémios e não venceu nenhum. O álbum foi escrito por André Oliveira e ilustrado por João Sequeira, dois autores que foram premiados nos PNBD, embora em ocasiões distintas. Tendo em conta o currículo dos autores, a nível de prémios, aceitação pelo público e pela crítica ao longo dos anos eles deviam estar entre os favoritos. Contudo ninguém estranha terem sido derrotados, mas não é devido à qualidade: é “normal” nos PNBD os prémios “rodarem”, ao contrário de outros países onde autores e obras são nomeados e, em alguns casos, premiados em anos consecutivos. Embora seja possível os autores realizarem trabalhos mais fracos, eles não perdem qualidade por magia.

Existem outras situações em que é fácil, na minha opinião, de ver a lógica de rotatividade: seja na alternância de editoras vencedoras, quer seja a nível da distribuição de um prémio a cada editora. É raro existir um vencedor claro como este ano, onde o Lobo comeu quase tudo. A Chili ter tido um número recorde de nomeações não é de estranhar, uma vez que foi a editora que publicou mais álbuns de autores nacionais. Mas não foi um ano tão fraco como as nomeações aparentam.

O facto de a editora/associação que durante décadas se auto-vangloriou por não enviar obras para concurso nos PNBD ser nomeada e premiada é algo que, creio, já ninguém estranha. Já é do conhecimento público que as normas do PNBD prevê a existência de “filhos e enteados”.

O Preço do Dinamismo

Existiu uma altura em que a produção dos autores nacionais era parca, como eram editados poucos álbuns a rotatividade nas nomeações e vencedores nem se reparava, dava para agradar a todas as capelinhas, como eram poucas também não dava nas vistas. Contudo a produção dos autores nacionais tem vindo a aumentar, quer em termos quantitativos quer qualitativos. Esse facto faz com que seja complicado rodar as nomeações e prémios por todos, sem que isso cause estranheza, porque qualquer dia a maioria dos autores nacionais tem um PNBD lá em casa.

Este ano dois dos nomeados para PNBD e o vencedor na categoria de Melhor Desenho  em 2014 podiam ter sido nomeados novamente, porque editaram álbuns novos, nenhum deles foi nomeado este ano. Isso não é muito normal, em particular quando ao olham-mos para a lista de nomeados e vemos autores que não cumpriam os requisitos para serem nomeados para serem nomeados na categoria de Melhor Desenho para Álbum. Só foram nomeados porque o júri presidido por Nelson Dona resolveu ignorar o que deviam ser os critérios de nomeação.

Existiam, pelo menos, sete autores que cumpriam os critérios para serem nomeados. Era possível efectuar cinco nomeações, mantendo só um dos autores nomeados pelo júri:

  • André Coelho, Acédia, autor nomeado para o PNBD de Melhor Desenho em 2014
  • Diniz Conefrey, Judea, autor nomeado para o PNBD de Melhor Desenho em 2014
  • João Sequeira, Lugar Maldito, autor vencedor em 2016 do PNBD de Melhor Desenho
  • NunskyEspero Chegar em Breve, autor vencedor do PNBD de Melhor Desenho em 2014
  • Ricardo Venâncio, Hanuram: Fúria

Nesta lista, de autores cujas obras que cumpriam os critérios, o único nome que deveria ser uma surpresa era o de Ricardo Venâncio, o único autor que não tinha sido nomeado ou vencedor dessa categoria em anos anteriores.

Existem outras situações anómalas nas nomeações, contudo é na categoria de melhor desenho que é possível cheirar o “cozinhado” à distância, nem que seja pelo facto de o júri ter nomeados autores que não deveriam ser nomeados.

Os Atrasos da Incompetência

Uma situação recorrente no festival é o facto de só ser conhecido o programa, exposições e convidados, com meia dúzia de dias de antecedência, apesar de habitual continua a ser algo surpreendente e fruto da incompetência de quem gere o festival. Existem exposições que já se sabe que vão acontecer com um ano de antecedência.

Existe sempre uma exposição dedicada aos concursos e,nos últimos anos, passou existir a exposição de livros oferecidos, a qual é sempre uma bela maneira de poupar dinheiro embora continue a pagar a comissários. Esta exposição é também mais um exemplo da cobardia de Dona, podia criar naquele espaço uma feira de autores ou podiam existir exposições de autores nacionais, contudo isso implicava tomar decisões, algo que Dona evita fazer de modo claro, mesmo em situações que não implicariam grandes custos adicionais para o festival. Por isso prefere fazer uma exposição de livros, quando existe uma mais completa e interessante na área em que são expostos pelos editores com o intuito de os comercializar.

Existe sempre uma exposição central onde a principal dúvida que pode existir é qual é o tema e quem será o comissário.

O Tema que só atrasa

Existem muitos motivos que é usual Nelson Dona invocar para justificar os atrasos do festival, só nunca menciona é os atrasos causados pela exposição central, é que o tema resume-se a isso: à exposição central. Só após Dona e o comissário da exposição definirem qual é a exposição central é que podem ser anunciados os concursos, porque estes vão ser subordinados ao mesmo tema que a exposição central, para criar a ilusão que existe um tema real.

O cartaz surge sempre tarde porque o autor da ilustração só pode efectuar a ilustração após o director do festival e o comissário definirem a exposição central, e após o gabinete de design definir qual será a imagem gráfica do festival nesse ano. Porque todos os anos o festival tem de ter uma imagem gráfica distinta “inovadora”.

Eu podia desenvolver este tópico mais profundamente mas, por agora, fica o essencial: a aprovação do orçamentos do festival é relevante porque é ela que vai determinar as despesas que podem ser efectuadas com o gabinete gráfico, comissários, cenógrafos e carpinteiros. Os custos com a presença de autores é o mais irrelevante, se o festival estivesse preocupado com esses custos podia aprovar e marcar a vinda de autores com mais antecedência, algo que iria baixar os custos dessas deslocações.

Tema do ABD 2018: Os vencedores dos PNBD

Como nos PNBD existe a política de “filhos e enteados”, a qual foi oficializada por Nelson Dona nas normas, também entre os vencedores existem uns que são mais iguais que os outros. Os vencedores dos PNBD na categoria de banda desenha portuguesa têm exposição garantida, tendo em consideração o critério seguido em anos anteriores no próximo ano teremos:

  • Francisco Sousa Lobo, autor em destaque
  • Amanda Baeza
  • Álvaro

Depois temos o vencedores na categoria de livro infantil:

  • Tiago e Nádia Albuquerque
  • Jimmy Liao

A categoria de melhor ilustração de livro infantil foi uma inovação de Nelson Dona, para dar relevância ao festival no mundo da “arte”, das “actividades culturais”, talvez por considerar que só a BD não era suficientemente relevante dar ao festival a projecção nacional e internacional, apesar dela já existir antes de Dona ser director.

O meu problema com a presença da ilustração infantil, num festival de BD, é devido ao facto de que me Portugal ser ilustrador de livros infantis é profissão enquanto ser autor de BD não é profissão, excepto para aqueles que trabalham para o exterior, autores que são por regra esquecidos pelo festival ou remetidos para exposições colectivas. Para além disso existe, nos ilustração infantil premiada pelo festival, uma clara preferência por um estilo de arte que deixa patente qual é o verdadeiro rosto da “arte comercial” em Portugal.

O autor do livro infantil estrangeiro tem estado presente quase em todos os eventos, os autores de banda desenhada internacionais que vencem os PNBD não tem estado presentes, salvo algumas excepções.

Existiu uma exposição e esteve presente no festival Anton Kannemeyer, autor editado em Portugal por Marcos Farrajota.

Não estiveram presentes nem tiveram exposições os seguintes autores:

  • Jiro Taniguchi, que ainda estava vivo.
  • Miguelanxo Prado que esteve no festival, em outra época, e recentemente na Comic Con Portugal
  • Alan Moore, o único cuja ausência não surpeende.
  • David Lloyd que esteve em Beja,
  • Art Spiegelman
  • Alison Bechdel

O álbum do Surfista Prateado escrito por Stan Lee, ilustrado por John Buscema e Moebius originou uma exposição dedicada ao personagem, a qual contou com originais de autores portugueses… inspirados na obra de Moebius.

Tony Sandoval teve direito a uma exposição mas não esteve presente, por motivos alheios ao festival… existem situações em que a culpa não é deles!

Tendo em conta os anos recentes e a idade de Frank Miller não creio que alguém acredite que venha. Étienne Davodeau é um autor “acessível”, já esteve em Portugal em outras ocasiões como em 2014 em Beja, contudo tendo em conta aquilo a que o festival nos tem habituado nos últimos… até  a presença de Davodeau na Amadora será surpreendente.

Por regra, o vencedor do troféu de melhor fanzine não tem uma exposição individual, contudo o Rudolfo Mariano é um homem cheio de surpresas. Outro Mundo Ultra Tumba, o fanzine de Mariano não constava na lista dos nomeados divulgado pela organização mas saiu do evento como vencedor.

Por agora creio que os únicos nomes que é natural estarem no evento do próximo ano os vencedores dos prémios nacionais de BD e os vencedores dos prémios infantis. Caso se mantenha política implementada nos últimos anos por Dona, não é usual existirem outros autores nacionais com direito a exposições individuais, esse privilégio costuma estar reservado para os vencedores dos PNBD. Como este ano o lobo comeu três prémios pode ser que exista espaço para duas exposições no núcleo central para os autores que não ganharam um bilhetes nos PNBD.

Esta é a verdadeira relevância dos prémios: determina a divulgação e promoção dos autores e das suas obras no festival. Uma exposição é uma excelente ferramenta de promoção de autores. Contudo em vez de promover autores a Amadora promove é as politiquices que só beneficiam o seu director, é que apesar de ser visível a todos os visitantes de que existe espaço para mais exposições, sem vencer um PNBD expor no festival é uma tarefa complicada. Isto torna o festival mais pobre, afecta o desenvolvimento do mercado e em particular os autores nacionais.

As Politiquices da Amadora e de Beja

No Festival Internacional de BD de Beja também existe muita politiquice, mas é da boa. Fazer política requer gerir interesses distintos e tomar decisões que beneficiem o colectivo, o qual nos festivais de banda desenha incluí autores, editores e visitantes. O Paulo Monteiro é um bom político porque consegue gerir os diverso interesses existentes criando um festival que consegue agradar aos diversos segmentos da população que compõem a nação da BD, com qualidade, diversidade e um orçamento e inferior ao AmadoraBD.

O segredo dele é simples:

  • Promove exposições de autores com estilos distintos e de editoras diferentes.
  • Apresenta autores do passado, presente e futuro.
  • Assume as opções que toma, os critérios e motivos porque selecciona os autores é visível nas biografias que envia à comunicação social para os promover.
  • Percebe de Banda Desenhada, aprecia BD e não anda obcecado com o conceito de “arte”, apesar de ser um autor “independente” com cunho “autoral”.
  • Não tem uma visão limitada da BD e é capaz de apresentar uma visão da diversidade que existe no mercado nacional.
  • Sabe que precisa de “cabeças-de-cartaz” para o evento
  • Demonstra interesse e respeito pelos autores e editores nacionais.
  • É competente.

No fim do dia, o grande segredo do Paulo Monteiro é  o facto de ser competente e ter capacidade para comunicar com autores, editores e com o público. Não é algo de extraordinário, as pessoas só estranham porque estão habituadas à falta de competência do Nelson Dona…

Agora convém salientar que nunca é possível ser competente sem se assumir as decisões que se toma. Os três pilares que Nelson Dona criou no ABD são três escudos que só servem para justificar as suas opções,  impedem o festival de evoluir e transformaram-no em algo monótono e previsível.

Seleccionar exposições e autores presentes num evento causa sempre dissabores, porque existem sempre editores e autores que ficam frustrados se não forem seleccionados. Mas é para isso que o director de um festival é pago, para tomar decisões, Dona prefere escudar-se nos seus pilares, sendo esse o motivo porque longo destes 17 anos temos tido um festival que tem como tema central os PNBD, algo que só se tornou mais óbvio quando o orçamento diminuiu e deixaram de estar presentes autores estrangeiros de relevo, em particular quando também começou a ser óbvio que festival disponha de muito espaço para expor mais autores nacionais. Também podiam ser estrangeiros, só menciono os autores nacionais porque as suas exposições tem a tendência a serem mais baratas e, para além disso, porque existem mais autores de qualidade do que aqueles que são premiados pelo Dona e o seu júri.

Se não fosse o facto de os PNBD serem o “bilhete” que dá acesso à exposição colectiva dedicada aos prémios, a qual é dividida em vários núcleos pelo recinto do festival, os PNBD seriam menos polémicos mesmo que existissem as situações anómalas que já são usuais, contudo eu até sou da opinião que algumas situações até poderiam deixar de existir.

Contudo se os prémios não tivessem o peso que possuem no festival, o Dona teria de explicar o motivo porque o Sousa Lobo vai o autor em destaque em 2018 não o Conefrey, ou porque motivo é que a Baeza vai ter uma exposição em 2018 e o Ricardo Venâncio vai ficar a trabalhar para pagar as contas porque, honestamente, eu não creio que valha a pena os autores nacionais irem ao festival para realizar sessões de autógrafos, algumas das quais só servem para os autores gastarem gasolina e disfarçarem o desinvestimento que o festival fez e as incompetências que por lá grassam.

Quando o Filipe Melo que é, no mínimo, um dos autores mais e que mais vende diz publicamente que não pretende voltar ao Amadora BD, ou enviar livros para os PNBD ninguém precisa que ele explique os motivos. Para além dos problemas crónicos o festival só demonstra interesse em contar com os autores nacionais para preencher o programa e demonstrando pouco respeito por eles.

Também tem dificuldade em reconhecer o mérito a quem não premeia, “negando-lhes” a promoção do seu trabalho através das exposições que promove. Por é que eu gostava de ver o Moura a justificar a ausência do Conefrey dos nomeados, e só volto a falar dos nomeados, porque é nas lista de nomeados que se começam a cozinhar os vencedores.

O motivo de estar mais interessado na opinião de Moura do que na opinião de Dona, é porque o Pedro Moura é suposto ser o supra-sumo da crítica nacional, é suposto ser a garantia de isenção e validade crítico-artística do júri presidido por Dona, quiçá pelo seu envolvimento em diversos projectos, alguns dos quais foram nomeados e vencedores nos prémios.

Tendo em conta este facto, não posso deixar de lhe dar os parabéns pela vitória de Amanda Baeza, na categoria de Melhor Desenho, com Bruma um álbum que inclui uma história escrita pelo nosso crítico favorito. Não menciono os álbuns que traduziu, seja nomeados ou premiados, porque não tenho aqui a lista completa.

Contudo não deixo de frisar a minha surpresa pelo motivo que existindo pelo menos QUATRO autores que são  melhores do que a Baeza, eles não foram sequer nomeados.

Como é óbvio, os critérios do Pedro Moura, não não ilibam de responsabilidades aquele que é o responsável máximo pelo júri, pelos PNBD e pelo AmadoraBD: Nelson Dona, director do festival.

O Museu da Amadora

O AmadoraBD transformou-se numa experiência musuleológica, virado para o passado que ignora o presente. Um dos exemplos disso é a exposição Tormenta, onde estão patentes trabalhos de um álbum de André Oliveira e João Sequeira editado em 2015, eles andam  a promover um álbum novo, Lugar Maldito, que foi editado este ano.

Como este texto já vai longo e amanhã temos mais, eu depois desenvolvo com mais detalhe o problema de o festival viver de costas voltadas para o mercado ,por estar mais focado em promover os PNBD com as obras dos autores que inverso.

Para terminar resta dizer que Nelson Dona é o primeiro responsável pela transformação do AmadoraBD de um festival de dimensão nacional e internacional na pobreza que vemos hoje. O orçamento não é desculpa, meio milhão de euros dava para fazer mais, ele é que não tem capacidade para fazer melhor, como ele só piora.

Existem editores: nos últimos 40 anos, no mínimo, nunca existiram tanto livros de BD  as serem editados como actualmente,  existe quantidade e qualidade, são publicados no mercado nacional grandes nomes da banda desenhada internacional, temos autores portugueses a publicar com regularidade em Portugal e no estrangeiro, incluindo nas grandes editoras norte-americanos.

A diversidade, a nível de estilos artísticos ou temáticos que existe no mercado nacional, está ausente do ABD, o festival não reflecte aquilo que é a banda desenhada portuguesa, nem a internacional. Aquilo que existe é um visão redutora e provinciana, como está patente na escolha de convidados pela comissária da exposição central, Sara Figueiredo Costa, a qual é também uma das responsáveis por em que o ABD se transformou: uma versão rasca do Salão de Lisboa, desprovido de identidade e rejeitando os elementos que o tornaram num evento de prestigio, o qual se esvai a cada ano que passa.

O AmadoraBD podia ser melhor, não têm é um director com competência para organizar um festival que prestigie a banda desenhada e a cidade que o organiza, por isso temos uma organização caótica, onde reina a falta de critério e outros favoritismos.

 

 

 

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5 Comments

  • como alguém que não faz parte da indústria ou é fã hardcore, capaz de acampar na área de autógrafos, fico sempre com sensação que todos os anos o ABD é sempre o mesmo. para além das inconsistências e falta de estratégia que apontas, o pior defeito é mesmo não se atrever a inovar. o festival é como aquele chinelo velho e confortável que se tem lá em casa.
    conheço o amadora de dois pontos de vista. como professor, a acompanhar visitas de estudo, que suspeito formarem o grosso dos visitantes. aí, é pateta. soltas 150 a 200 miúdos por escola lá dentro, a maior parte é indiferente ao que visita. as áreas comerciais nem estão para se chatear com isso, nem a devir abre (tenho um ex-aluno que pensou que podia ir lá com a escola, e comprar os livros que lhe faltavam nas coleções de mangá. não gastou dinheiro). como leitor de bd, conheço-a como obrigação. e agora repara, se os fãs se sentem obrigados a ir ao abd, é porque, se calhar, aquilo já perdeu de todo o interesse.

  • Quer gastar uns trocos?

    Imprimir esta boa crónica, enviar por correio registado entre em mãos para a senhora Presidente da Cãmara da Amadora e vereadores da oposição e ver o que eles dizem e ver se alguém se importa com tudo isto que aponta e ver se para o ano a cantiga é outra.

  • Não concordo muito com esta crónica.
    Primeiro, porque o festival é um esforço coletivo, e a responsabilidade pelos méritos e falhas do evento está longe de ser individual. A crónica sofre de algum desconhecimento sobre o estatuto de diretor do festival.
    Segundo, porque toda a gente sabe que o supra-sumo da crítica nacional, e a garantia de isenção e validade crítico-artística sou eu. Também por isso, não posso aceitar o parágrafo sobre o Pedro Moura. A verdade é que há muita gente que me confunde com ele, e esta crónica, na parte do supra-sumo, só vem complicar mais as coisas. É muito desagradável, claro.

    • Por nunca se responsabilizar quem tem responsabilidades é que os incompetentes em Portugal têm o hábito de cair para cima. É como eu digo na crónica “a culpa nunca é do director”…

      Essa de te confundirem com o Moura tem piada e desculpa lá se te magoei o ego… mas tu que o Moura tem uma escrita mais académica!

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