Mensur, de Rafael Coutinho

Entre o estoicismo da honra absoluta e um grafismo explosivo, Mensur é a mais recente edição portuguesa do autor brasileiro Rafael Coutinho.

Proposta de banda desenhada brasileira da Polvo, Mensur traz ao público português o surpreendente trabalho gráfico e narrativo de Rafael Coutinho. Nesta história sobre o absolutismo da honra, o grafismo explode a cada página.

Mensur, ou o Caminho do Samurai?

Há qualquer coisa de caminho do samurai em Mensur. Não só porque a história gira à volta das desventuras de um espadachim, mas por ser essencialmente sobre a ideia da honra absoluta de um guerreiro. Não é um conceito explícito, criado com discursos filosóficos ou observações épicas, é antes um elemento que se observa ao longo do percurso degradante de um personagem que se sujeita a tudo para manter a sua honra intacta.

Pela descrição, quase faço parecer Mensur uma espécie de fantasia épica, onde um bravo guerreiro enfrenta perigos incomensuráveis com a força do braço que empunha a espada, combatendo a injustiça e salvando formosas donzelas. De certa forma, o livro segue este caminho, mas muito longe das paisagens neo-medievalistas da fantasia. O cenário é o Brasil contemporâneo, terra que anda longe das perfeições sociais idealizadas do fantástico. Se há demandas heróicas em Mensur, são as da mais elementar sobrevivência, do ter dinheiro para comer e viver. Até tem uma donzela, pouco pura e virginal, uma alcoólica de vida destroçada que esconde as amarguras indo para a cama com a sucessão de homens que se deixa engatar nas tascas.

Os Limites da Honra

Mensur conta-nos as histórias mal aventuradas de Gringo, um espadachim que percorre o Brasil numa deriva imparável. A sua destreza com a espada, como praticante da rara arte de esgrima mensur. é o que o define. Esta mestria é também a sua maldição. Gringo aprendeu a arte marcial na universidade, quando estudava para ser médico, ensinado por um professor que criou um núcleo de praticantes desta variante de esgrima. Professor esse que, devido a um escândalo que não nos é explicado, é afastado do ensino. Gringo também é levado por essa onda, mantendo a sua palavra para proteger amigos de um escândalo que também os arruinaria. Com isso perde a possibilidade de se tornar médico. Mais fundamentalmente de, para quem veio de meios muito humildes, se tornar alguém. Só lhe resta ir vagueando de cidade em cidade, procurando empregos humildes para sobreviver, evitando relações, afastado da sua velha mãe que acredita que o filho é um esforçado médico de hospital.

A sua fama de lutador persegue-o, mesmo quando tenta fugir da obsessão com a esgrima. Mas esta não é uma história de redenção em lutas sucessivas. Ao reencontrar-se com velhos amigos e o seu professor dos tempos de universidade, um encontro que acontece pelo acaso da deriva do personagem, velhas feridas vão ser abertas, e Gringo irá praticar um acto de justiça violenta sobre um velho amigo, sem que deixe de ser o amargurado protector de um segredo esquecido.

Um Estilismo Explosivo

Além da história, o que faz valer esta leitura é o seu estilo visual. Rafael Coutinho não parece ser adepto da divisão rigorosa de pranchas e vinhetas, organizando cada página da forma que mais lhe interessa para fazer fluir a narrativa. Há momentos de rigor gramatical, há dissolução de fronteiras visuais. Por vezes segue uma estrutura narrativa clássica de enquadramentos sequenciais bem definidos, noutras as pranchas dissolvem-se em desenhos soltos interligados. Talvez esteja a ver coisas que não existem, mas sente-se neste livro uma forte influência do urban sketching. A cor resume-se a um preto e branco de alto contraste, que sublinha a ansiedade de uma história em que os nervos estão sempre à flor da pele.

Num pormenor pedagógico, convém referir que mensur não é um elemento fictício. É uma variante alemã de esgrima, particularmente estóica, onde os praticantes duelam com lâminas vivas. Arte marcial de rigor, requer gestos precisos e bem medidos, e os oponentes não se podem desviar dos golpes, combatendo numa distância fixa. O mensur não é visto como um combate, não há vencedores e vencidos, há concentração e mestria na prática, funcionando como forma de educar e endurecer o carácter. Este estoicismo e o rigor absoluto da luta formam a espinha dorsal de uma história em que Rafael Coutinho aproveita para nos levar a sítios muito obscuros do Brasil contemporâneo.

Mensur

Autores: Rafael Coutinho
Editora: Polvo
Páginas: 204, capa mole
PVP: 17,99 €

8 Argumento

9 Planificação

7 Temática

10 Desenho

9 Arte Final

8 Cor

7 Legendagem

Estoicismo e rigor absoluto da luta formam a espinha dorsal de uma história visualmente explosiva, em que Rafael Coutinho aproveita para nos levar a sítios muito obscuros do Brasil contemporâneo.

8.3
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