Marcos Martin na Comic Con Portugal

Foi anunciado mais um nome sonante para a Comic Con Portugal 2014: o espanhol Marcos Martin, autor aclamado pela crítica e premiado com o prémio Eisner, derivado ao seu trabalho em Daredevil (Demolidor) com Mark Waid e Paolo Rivera. Martin também trabalhou em outros títulos como Batgirl: Year One, Doctor Strange: The Oath, Breach, The Amazing Spider-Man, tendo produzido inúmeras capas para Marvel e DC Comics. Actualmente está a trabalhar em The Private Eye, série escrita por outro convidado pela Comic Con Portugal deste ano: Brian K. Vaughan.

Marcos Martin descobriu a BD quando tinha uns três ou quatro anos de idade, com as revistas de “Don Miki” – nome espanhol para as aventuras do Rato Mickey, editadas em Itália na Topolino – tendo descoberto pouco depois as aventuras de super-heróis da Marvel, das quais ficou fã. Contudo, o autor espanhol não deixou de ler BD de outras origens como Astérix, Tintin ou (a agora cinquentona) Mafalda. Da BD europeia gostava em particular de autores que seguiam a linha clara, como Yves Chaland, Daniel Torres, Max, Pere Joan ou Sento.

Le Roy High School foi a primeira BD realizada por Martin, aos 17 anos, na escola secundária que frequentava na altura, no estado de Nova Iorque. Só durou dois números, mas Martin divertiu-se a realizá-la. Após o seu regresso a Espanha para frequentar a Facultad de Bellas Artes de la Universidad de Barcelona, Marco Martin começou – aos 20 anos – a realizar capas para as edições da Marvel, editadas na altura pela Forum, como já anteriormente tinham realizado Carlos Pacheco e Salvador Larroca.

Após sair da universidade, Martin mudou-se para Nova Iorque para conhecer pessoas e encontrar trabalho como autor de BD; contudo o seu primeiro trabalho profissional para a DC Comics (“The Contract” em Batman Chronicles nº 12) deveu-se, em parte, a ter conhecido Mark Waid, em Espanha.

Aquele que deveria ter sido um trabalho de sonho acabaria por se tornar num pesadelo para Martin: o editor não gostou da arte a lápis – ao qual o desenhista reconhece inúmeras falhas – e o arte-finalista (Vince Giarrano) acabaria por utilizar a arte de Martin só como um layout, basicamente redesenhando a arte para “salvar” a história.

Martin regressou a Espanha, passou algum tempo a trabalhar em amostras de arte e numa série que nunca foi editada pela Forum, em 1999 regressou a Nova Iorque e foi nessa altura que a sua carreira realmente começou.

Martin realizou algumas números soltos e histórias curtas para JSA, Robin Gotham City Secret Files nº 1, no qual colabora com Brian K. Vaughan. Em 2001, Martin é convidado fazer 18 páginas para Robin: Year One, por sugestão de Javier Pulido, que tinha conhecido quando trabalhava para a Forum. Pulido estava apertado com prazos e não era capaz de finalizar o trabalho a tempo, pelo que Martin foi convidado para desenhar as últimas páginas dentro do estilo do seu compatriota.

É um trabalho que Martin não considera realmente “seu”, porque teve de copiar um estilo alheio. É algo que o autor espanhol não recomenda, mas que confessa ter sido “útil, de certa forma”. Ao ser forçado a desenhar no estilo de Javier Pulido, o desenhista apercebeu-se que se estava a desviar do estilo que pretendia. O seus trabalhos anteriores estavam cheios de traços supérfluos.

Após a primeira experiência mal sucedida deixou de pensar no que pretendia fazer, mas sim no que (ele pensava que) o editor queria que fizesse. Robin: Year One foi uma espécie de redescoberta do que Martin queria fazer quando decidiu tornar-se num desenhista de BD.

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Marcos Martin, que nunca foi (nas suas próprias palavras) um desenhista rápido capaz de realizar uma prancha por dia, foi responsável por nove números consecutivos de Batgirl: Year One, porque a série começou a ser editada em Dezembro de 2002 e o desenhista começou trabalhar nela em Outubro de 2001. Graças ao editor Matt Idelson, que proporcionou ao desenhista espanhol o tempo que precisava, quando ainda “não era ninguém”.

Batgirl acaba por ser aquele que o desenhista considera o seu primeiro trabalho, os anteriores foram apenas pequenos “biscates” para começar a trabalhar. Batgirl foi o seu primeiro projecto real, o primeiro em que teve a possibilidade de se “sentar e pensar” sobre o que estava a fazer ou o que poderia tentar, uma vez que já não havia a preocupação de saber de onde viria o trabalho seguinte, ou se viria sequer.

A cor de Batgirl ficou a cargo de  Javier Rodriguez, um amigo de Martin, o que permitiu ao desenhista ter algum controlo sobre o processo da cor, contando com um colorista com o qual podia falar e dizer exactamente o que pretendia em vez de deixar essa decisão por completo nas mãos de um desconhecido.

A próximo projecto de Martim para a DC foi Breach, escrito por Bob Harras, e foi a primeira vez em o desenhista trabalhou utilizando o “método Marvel” – em que não recebeu um guião completo, mas só o argumento sendo os diálogos acrescentados posteriormente. Após esta série, Martin foi trabalhar para a Marvel onde reencontrou Brian K. Vaughan, com quem trabalhou em Dr. Strange: The Oath, publicada em Portugal como Dr. Estranho: O Juramento, na colecção Super Heróis Marvel (série II) editada pela Levoir e o Jornal Público, num volume que inclui também história de Stan Lee e Steve Ditko.

Em 2008 tornou-se num dos desenhistas rotativos da revista Amazing Spider-Man, com argumentos de Dan Slott, Marc Guggenheim, Mark Waid e Stan Lee.

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Quando a Marvel relançou a revista Daredevil em Julho de 2011, escrita por Mark Waid, Marcos Martin juntou-se ao seu compatriota Paolo Rivera como desenhista da revista. Daredevil foi premiada com diversos Eissner Awards, incluíndo o de “Best Continuing Series” (Melhor Série Regular).

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The Private Eye, lançado em 2014, marca o início de uma nova aventura do desenhista espanhol, agora fora do conforto (e limitações) das grandes editoras norte-americanas. A série é editada em formato digital através da Panel Sindycate (criada pelo espanhol e o argumentista Brian K. Vaughan, outro convidado da Comic Con Portugal. A série está disponível em espanhol, catalão, francês e português (do Brasil), tendo a particularidade de cada leitor determinar o quanto quer pagar por cada número, podendo inclusive fazer o download gratuito da série.

Private Eye, cuja cor é de Munsta Vicente, surgiu de um desafio de Vaughan e possibilitou aos autores desenvolverem o trabalho como queriam, sem qualquer interferência editorial e eliminando por completo intermediários (editora, gráfica, distribuidora). Apesar de a série que vai actualmente no 8º número ainda não estar concluída, os autores já conversam sobre um projecto seguinte, que por enquanto ainda se encontra num estado embrionário. Afinal, ainda falta concluírem o Private Eye.

Apesar de ter feito 3 pranchas para “Superior Spider-Man” nº26 (editado este mês em Portugal na revista Homem-Aranha Superior nº 09), o regresso do autor espanhol à Marvel ou DC não é muito provável, como contou ao Robot 6:

Eu adorei trabalhar na revista do Homem-Aranha, mas eu sempre me senti como uma engrenagem de um relógio, onde eu realmente não era responsável por nada do que vai acontecer na série, em grande escala. Eu sou um artista lento, e quando você trabalha com as Duas Grandes temos que ser rápidos, a fim de ter qualquer participação na história verdadeira de um personagem. Eu não posso fazer isso, e eu acho que é melhor não me enganar.

Dito isto, eu adoro voltar de vez em quando, e eu acho que é muito importante a Marvel e DC existirem porque são eles que sustentam a indústria; e tem que haver uma indústria para as outras coisas existirem.

Eu tenho um fascínio especial pelo Homem-Aranha ele é meu personagem favorito desde a infância. Eu adoro desenha-lo , e não tenho nenhum problema em voltar a desenha-lo de vez em quando. Mais uma vez, eu poderia fantasiar sobre um mundo onde eu comando do desenho da série do Homem-Aranha e era responsável pelo personagem por um par de anos, mas isso não é uma meta realista. Então, agora, eu diria que o meu tempo nas Duas Grandes, de qualquer modo relevante provavelmente terminou.

Por agora Martin está concentrado em Private Eye, uma série que era para ser de dez números, mas que poderá ter uns 11 ou 12.

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