Manhua e Mangá

Estabelecendo importantes pontos de partida para a evolução tecnológica, com invenções como a pólvora, a bússola ou a imprensa (apesar do crédito dado a Gutenberg), os chineses determinaram, num determinado período da sua história, uma paragem no desenvolvimento (semelhante às paragens de gregos e romanos que permitiram o avanço dos bárbaros), em boa parte causado pela ameaça de uso indevido daquelas extraordinárias invenções (em especial, naturalmente, a pólvora).

Efectivamente, a entrada da China no século XX – altura em que a moderna banda desenhada dá os seus primeiros passos – dá-se com um grande atraso tecnológico, mas, curiosamente, sem abandonar o interesse pelo Ocidente. É justamente no âmbito da onda de interesse que a China desenvolve pelo Ocidente no final do século XIX e início do século XX, que tanto a banda desenhada como a ficção científica chegam à China. Enquanto fenómeno cultural emergente da revolução industrial, a ficção científica depressa captou a atenção dos chineses.

O famosos ideólogo Liang Qichao é um dos primeiros a anunciar a chegada da ficção científica à China, com a sua tradução de “Um herói de quinze anos”, de Julio Verne. Na segunda década do século XX, a tradução e criação de histórias de ficção científica começa a ganhar expressão, embora nunca se tenha afirmado com a popularidade do Kung-Fu, ou das histórias de amor.

Na banda desenhada chinesa, a manhua, a ficção científica, como tantos outros géneros, evidencia durante muito tempo a influência da “manga” japonesa. Mas o momento actual é de mudança. É é de mudança ao ritmo do crescimento e transformação globais da China, verdadeiramente surpreendente e impressionante, e fortemente apoiado numa série de medidas definidas pelo Governo, em articulação com diversas grandes multinacionais.

É já no século XXI que se pretende que – também através da banda desenhada – a China descubra algo que corresponde à sua identidade. Surge uma renovada manhua com origem em grupos “underground” de cidades como Xangai, Pequim, Guangzhou ou Hangzhou, e que encontra eco numa perspectiva de “oficialização”, uma vez que vai de encontro ao ambicioso plano do governo chinês para a dinamização da produção de BD na China (paralelamente com o desenvolvimento de outras linguagens, como o cinema de animação e a televisão). A presença em festivais internacionais como Angoulême tem sido cada vez mais expressiva.

E em termos globais, com os “comics” norte-americanos ainda dependentes dos super-heróis, com a banda desenhada franco-belga sem resposta suficiente para as rígidas fórmulas comerciais que ainda dominam o mercado, e com o “mangá” a esgotar o seu tempo de reinado, a China poderá ser a grande novidade no futuro da BD. Tanto em termos de forma como de conteúdo.

A reação do mangá não se fez esperar, com a instituição dos International Manga Awards, prémio patrocinado pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros japonês que distingue como “manga” a produção de outros países, incluindo aquilo que é indiscutivelmente chinês (ainda que, nalguns casos, e sobretudo para um leitor ocidental, a fronteira quase que se pode resumir à distintiva utilização da cor na manhua). Sem surpresas, nos últimos anos, têm sido muitos os premiados chineses, comprovando a rápida evolução e reconhecimento da BD chinesa. “Si Loin et Si Proche” (título da edição belga), de Xiao Bai, ganhou o prémio mais importante. É uma história de ficção científica em que a protagonista recebe a visita do filho vindo do futuro (comprovando também o novo fôlego da ficção científica enquanto género, com a afirmação da China como potência espacial).

Mas a par da ficção científica, a mais bem sucedida BD chinesa lida com histórias atuais, sobre o quotidiano.

Com uma oferta cada vez mais variada (incluindo uma voz própria de Hong Kong) e com cada vez mais mérito, a manhua tarda em chegar ao mercado português.

 

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