Lugar Maldito, de André Oliveira e João Sequeira

Entre o lado negro das tradições e o terror psicológico, Lugar Maldito mergulha-nos num drama familiar com o isolamento do interior como pano de fundo.

Entre as pulsões da paixão e da paranóia, e as forças sobrenaturais arreigadas na tradição popular, em Lugar Maldito a relação de um jovem casal irá sucumbir numa espiral de horror e violência. Com um argumento ritmado de André Oliveira e o traço expressivo de João Sequeira, esta edição da Polvo posiciona-se como um dos melhores livros de Banda Desenhada de autores portugueses do ano de 2017. Entre o terror e a cultura popular tradicional, dá-nos uma história eficaz com ilustração marcante.

Descobrir as Tradições Ancestrais

Porque é que não se faz uso da riqueza da tradição cultural portuguesa é um lamento cíclico e comum quando se fala do Fantástico em Portugal, quer seja na literatura, cinema ou banda desenhada. Há razões para isso, a começar por aqueles que por cá se dedicam a um género de nicho se terem apaixonado graças às influências das obras dos autores globalmente consagrados. Se as leituras formativas vêm da tradição anglo-saxónica, norte-americana ou nipónica, os temas e estilos que caracterizam o nosso pequeno núcleo de criadores vão seguir esse caminho. Um em que tradição é a palavra certa, com um longo historial, lá fora, de uso das superstições, histórias e lendas populares como substrato inspirador para contos de terror ou fantasia. Algo que por cá nunca se fez muito, pese embora exceções. Nisto estou a pensar nos clássicos de Alexandre Herculano, um daqueles autores que suspeito que hoje ninguém lê exceto se por obrigação, cuja paixão por um medievalismo romântico nos legou romances épicos como Eurico o Presbítero, ou as lendas medievais transformadas em contos de Lendas e Narrativas. Já no século XX, podemos olhar para O Físico Prodigioso de Jorge de Sena, este também uma tessitura narrativa inspirada em lendas medievais. Parte da obra do recentemente falecido António de Macedo também segue esta inspiração, buscando nas brumas da memória medieva substrato para contos e filmes do fantástico. Das minhas leituras não estou a ver outros autores que tenham olhado para o substrato cultural tradicional para contar as suas histórias. Estejam à vontade para me corrigir e sugerir obras que desconheça.

Sempre houve uma certa desconexão intelectual portuguesa entre cultura e raiz tradicional. Talvez pelo nosso clássico sentido de inferioridade periférica face à Europa, talvez por uma desconsideração com tradições ancestrais que são vistas como retrógradas, simplistas e popularuchas. Não será alheio a isto o aproveitamento feito durante décadas das iconografias tradicionais, limpas na sua imagem e cooptadas como suporte ideológico de um excecionalismo nacionalista que visava legitimar um regime ditatorial. Fora do registo etnográfico, têm sido mínimos os usos das tradições populares na ficção. Notem que não escrevo isto num tom de censura pedagógica, afirmando que os nossos criadores deveriam fazer uso do nosso substrato cultural e renegar as influências da cultura global. Cada um inspira-se no que o apaixona mais.

Lugar Maldito é, claramente, uma das exceções à regra de não olhar para o substrato cultural tradicional. Mergulha-nos num soturno alto douro, terra de florestas e mitos milenares arreigados na alma das gentes. Não é a primeira abordagem dos autores ao potencial negro das tradições desta zona. Em Sobressaltos, coletânea de banda desenhada de terror criada para a tertúlia Sustos às Sextas, já tinham publicado Purga de Janeiro, onde os Caretos são revistos como algo mais tenebroso do que coloridos diabretes. Uma história curta, mas surpreendente e visceral, que deixou alguns traços visíveis neste livro.

Um Lugar Maldito entre o sobrenatural e a paranóia

O caminho seguido por Lugar Maldito é outro, não o do terror directo, mas o dos efeitos do isolamento sobre o espírito humano. Os terrores são periféricos, as efígies dos caretos espalham-se pela floresta como espanta-espíritos e há de facto uma força oculta, personificada num rapaz carbonizado. Mas o verdadeiro horror é o da paranóia induzida pelo isolamento, e da degradação das relações num contexto de drama. Seguimos a queda no abismo de um jovem casal com o seu bebé recém-nascido, que se esconde numa casa abandonada na mata para fugir à família da rapariga. Que tem boas razões para a procurar e afastar do rapaz, uma vez que esta é menor. Uma relação proibida, com um fruto biológico que condicionará a vida dos jovens, e uma fuga tacitamente apoiada pela família do rapaz, por um sentimento de obrigação filial que se sobrepõe à razão social e legal.

Fechados numa casa soturna, escondidos do mundo, com um bebé nos braços, os jovens depressa começam a ceder à amargura. Enquanto ela questiona a sanidade da sua decisão, ele arreiga-se mais na necessidade de isolamento do casal face a um mundo que lhes quer proibir a relação. A febre do isolamento depressa agudiza o caminho da paranóia, com um desfecho violento que não deixará nenhum personagem intocado. E, em pano de fundo, a história tenebrosa da casa abandonada, palco de um crime horrendo no passado, lar de um ser sobrenatural que acabará por raptar uma criança.

O argumento rigoroso de André Oliveira leva a história numa progressiva e bem ritmada espiral de horror e violência. Não é um terror clássico, nem violência sangrenta, antes um caminho de degradação psicológica com uma exploração do horror subjacente às tradições populares como pano de fundo. Já o trabalho gráfico de João Sequeira é visceral, com o registo de pincelada rude a marcar a negritude da narrativa. No seu conjunto, evocam um interior português onde a modernidade é ténue, e as velhas pulsões estão sempre à flor da pele. Refira-se que Sequeira consegue tornar o visual de diabrete dos Caretos em verdadeiras aparições demoníacas, que se riem sem piedade dos vitimizados pelos erros da vida.

Esta edição da Polvo posiciona-se como um dos melhores livros de banda desenhada portuguesa editados em 2017. Como leitor, fiquei fascinado pela forma como o traço de João Sequeira anima o medo inerente às iconografias tradicionais, enquanto me deixava embalar pela espiral descendente de paranóia violenta do argumento de André Oliveira. A minha única reticência neste livro prende-se com o uso de interjeições em texto escrito, que apesar de parte integrante da narrativa e espelho da angústia progressiva dos personagens, não são de leitura visual fácil, sendo algumas partes quase incompreensíveis. Se era esse o efeito pretendido, foi conseguido. Mas acaba por ser um detalhe menor num livro muito interessante.

Lugar Maldito

Autores: André Oliveira, João Sequeira
Editora: Polvo
Páginas: 96, capa dura
PVP: 12,90 €

9 Argumento

8 Planificação

8 Temática

9 Desenho

8 Arte Final

9 Cor

6 Legendagem

9 Produção

Entre o lado negro das tradições e o terror psicológico, Lugar Maldito mergulha-nos num drama familiar com o isolamento do interior como pano de fundo.

8.3
Tags from the story
, ,
Written By
More from Artur Coelho

A Última Nota, de André Mateus e Filipe Duarte

Mais uma edição da Escorpião Azul lançada no Amadora BD, a apostar...
Read More

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *