Lucky Luke: Uma homenagem em 2016?

Depois de, em 2015, alguns divulgadores de BD não terem alcançado a razão de a Amadora estar a homenagear as personagens Quim & Manecas, aqui deixo uma explicação a fundamentar a razão pela qual a cidade deve, em 2016, homenagear a personagem Lucky Luke e o seu criador.

Morris (Maurice de Bévère) criou Lucky Luke, “o cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra” em 1946, para a revista Spirou. A primeira história do cow-boy solitário, Arizona 1880, surgiu no Almanach Spirou 1947, por altura do Natal de 1946. O 70.º aniversário da personagem é assinalado pela comunidade internacional, começando por Angoulême.

Morris conseguiu com Lucky Luke um dos maiores best-sellers da BD em todo o mundo, incluindo Portugal. E dedicou toda a sua carreira a esta personagem.

Desde a sua criação, Lucky Luke conta com perto de uma centena de álbuns (contando também as séries paralelas), originando já uma revista mensal com o nome do herói (em 1974), séries paralelas, filmes de animação e adaptações ao cinema.

Da imaginação de Morris (e também da de Goscinny, com quem colaborou entre 1955 e 1977), nasceu uma galeria imortal de personagens: de Jolly Jumper a Rantanplan, passando por aqueles que, apesar de terem um fundo “autêntico” ganharam outras cores no mundo da banda desenhada, como Calamity Jane ou os famosos irmãos Dalton. Ainda as caricaturas de tipos mais genéricos, do agente funerário ao jogador.

Morris foi o primeiro convidado internacional do Festival da Amadora (logo na 1ª edição em 1990) e, consequentemente, teve uma importância decisiva na internacionalização e credibilização do evento. Regressou ao Festival na edição de 1992, ano em que recebeu o Troféu Honra, a maior distinção do FIBDA.

Morris faleceu em 16 de Julho de 2001, com 77 anos de idade, não resistindo à intervenção cirurgica a que foi submetido após uma queda em que fracturou o colo do fémur. Depois de Jijé, Franquin e Will, desaparecia o último da Bande à Quatre. Apesar de nos últimos anos de vida se ter tornado uma figura polémica, questionando a qualidade da banda desenhada contemporânea e o contributo de Goscinny para o sucesso de Lucky Luke, e sendo questionado pelo carácter cada vez mais “industrial” dos seus álbuns e pelo reconhecimento dos seus colaboradores, a importância de Morris no quadro da banda desenhada mundial é enorme. Desde logo, pelo enorme sucesso do seu trabalho, que fez de Lucky Luke um dos maiores embaixadores da história da BD. Morris publicou cerca de 300 milhões de álbuns nas mais variadas línguas, gerando um volume de negócios anual na ordem dos 240 milhões de francos.

Mas também ao nível da própria técnica, Lucky Luke é um passo decisivo na afirmação do formato clássico do álbum a cores de quarenta e seis páginas, faz a ponte entre o humor norte-americano de autores como Walt Kelly ou Harvey Kurtzman (que fortemente influenciaram Goscinny) e a banda desenhada europeia, e a continuidade do trabalho iniciado por Hergé quanto à necessidade de documentação e à existência de uma base real para além do plano fantasista da ficção. O traço caricatural de Morris também merece destaque, possibilitando constantes fugas para o mais “abonecado”, próximo da animação, ou para o mais realista (como sucede nas frequentes caricaturas de colegas – Franquin, Hubinon, Dupuis, etc. – ou atores e outras personalidades – de Jack Palance a David Niven).

Ao nível técnico, Morris é dos primeiros autores europeus a chegar à BD após um percurso na animação, levando para a banda desenhada muito do que aprendera na animação. Mas tem outras caraterísticas singulares. Veja-se a utilização do pincel (que fez pouca escola) ou a forma como representa o todo a partir da parte (um aspecto essencial na linguagem da banda desenhada, em que se lida com vinhetas que limitam o campo de representação), bem evidente nas cenas de multidões.

Em Abril de 2002, foi anunciado o regresso de Lucky Luke, após a morte do criador. Morris deixou bem expressa a vontade de que a série tivesse continuidade após a sua morte, e a editora Dargaud, já responsável pelo bem sucedido regresso de Blake e Mortimer (em 1997, após a morte do criador Edgar-Pierre Jacobs em 1987) aceitou este desafio.

O desenhador Achdé tinha feito, ainda em vida de Morris, um álbum de homenagem a Lucky Luke. Morris tinha gostado muito do resultado, e convidara-o a dar continuidade à série Rantanplan. Após a morte de Morris, Achdé recebeu um pedido para que fizesse uma BD de teste com Lucky Luke. Foi assim que tomou conhecimento de que a personagem iria sobreviver ao criador. Depois de enviar o teste, acabou por receber um telefonema, dizendo que seria o escolhido para continuar a série, e que a sua vida iria mudar.

Em Portugal, através das revistas ou de álbuns (actualmente publicados pela Asa) Morris está entre as razões que levaram muita gente a apaixonar-se pela linguagem da banda desenhada. Quando em 1990, a cidade da Amadora escolheu um autor desta dimensão para marcar a vertente internacional do seu festival de banda desenhada (então ainda chamado Salão), sabia bem que estava a assinar um compromisso. Um compromisso de constante aperfeiçoamento e contínua aposta na qualidade. Um compromisso seguido de Festival para Festival, como aquele clássico quadradinho que leva o cowboy solitário ao encontro do pôr-do-Sol, antes da aventura seguinte.

 

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