Living Will Nº 01 de André Oliveira e Joana Afonso

O fim do arco-íris despoleta o início da história de Living Will, da autoria de André Oliveira e Joana Afonso.
Living Will
Living Will Nº 01

Argumento: André Oliveira
Arte: Joana Afonso
Editora: Ave Rara
Preço: 2,95€
Edição: Outubro de 2014

O fim do arco-íris despoleta o início da história de Living Will. No dia em que falece o seu cão, Rainbow, Will apercebe-se que já não lhe restam razões para viver.

Living Will é publicado no modelo norte-americano de uma série limitada, neste caso de sete números, contudo tem paralelismos com duas colecções portuguesas do príncipio do século: Primata Comix (da Polvo) e LX Comics (da Bedeteca de Lisboa). Ambas as colecções eram constituídas, na maioria dos casos, por fascículos de 16 páginas, com a diferença de serem por autores diferentes e só um ter optado por serielizar um álbum – Pedro Brito com “Pano Cru” pré-publicado em 3 edições da Primata Comix, que foi editado posteriormente em formato livro pela Polvo.
Como em Portugal, regra geral, a remuneração dos autores é parca ou inexistente, fascículos de 16 páginas permitem aos autores desenvolverem já uma narrativa mais complexa dos que em histórias curtas de oito ou menos páginas para serem publicadas em revistas ou fanzines.

A opção de pré-publicar Living Will em sete fascículos permite aos autores fazerem-no de uma forma gradual, conforme vai sendo produzida, sem terem de aguardar dois ou três anos para editarem o álbum de 112 páginas. Para os autores, é um modo de edição mais cómodo e que lhes permite irem tendo feedback dos leitores, conforme a obra vai sendo editada. Para o editor, que neste caso é um dos autores, permite-lhe publicar a obra com um investimento menos significativo.

Do ponto de vista do leitor, a grande questão que se colocava era se cada fascículo conseguia ser uma porção de história satisfatória por si só. Funcionando como uma parcela da história, mas conseguindo ser uma unidade de história individual. É algo comum a todos os trabalhos que são serielizados como revistas mensais ou em publicações regulares, mas que neste caso era uma questão mais pertinente, devido ao facto de a periodicidade das edições ser algo dilatada no tempo. Nesse capítulo, Living Will resulta, conseguindo este número ser uma introdução satisfatória da história estabelecendo a personagem princípal, as suas motivações e desafiando o leitor para continuar a seguir a história de Will.

Existem mais questões do que respostas neste primeiro número, mas esse é um facto que é natural numa história que está a começar.

A temática da história é clara: reparar os erros do passado, algo reforçado pela própria profissão de Will, técnico de restauração, e que reflecte a personalidade do personagem, que sempre foi alguém que quis reparar as coisas e agora tem de inciar uma caminhada final para reparar os erros cometidos ao longo de uma vida, para deixar essas acções como o testamento da sua existência.

A utilização do inglês por autores portugueses que, regra geral, é efectuada com o objectivo de atingir um público mais vasto, costuma ser geralmente constrangedor pela qualidade literária dos textos apresentados que, na maioria dos casos, contém erros crassos a nível gramatical e ortográfico, sendo o mais comum a construção frásica do português utilizando as palavras inglesas. Este facto faz o texto assemelhar-se a uma tradução automática com frase rigidas e macarrónicas que, por vezes, são quase imperceptiveis.

Em edições impressas de baixa tiragem que, por vezes, não ultrapassam sequer os 500 exemplares, torna-se algo inexplicável a opção por uma lingua estrangeira, quando na língua materna seria, na teoria, mais fácil ter um texto com uma maior qualidade literária.

Existe em Living Will, por parte de André Oliveira, uma opção de desenvolver um projecto em inglês que lhe permita ter trabalhos disponíveis nessa língua, em paralelo como os trabalhos em português que lhe permitam exportar o seu trabalho para o exterior. Porém, a opção pelo inglês não é só uma opção de internacionalização, mas uma opção a nível literário, já que a lingua inglesa é fundamental para jogos semânticos utilizados que no português não são possiveis, algo que irá tornar curioso ler uma tradução da obra para o português num futuro, que se espera ser breve. Basta ver o título (Living Will) e o nome do personagem principal: Will é o nome próprio (diminutivo de William) o nome próprio, mas significa também vontade e testamento, sendo que o título pode ser lido como “vontade de viver”, ou “testamento vivo”.

A nível da cor existe uma opção conceptual que limita o trabalho de cor de Joana Afonso, cada fascículo (capítulo) tem uma cor diferente, sendo no primeiro número o vermelho, quase sépia. Esta limitação da palete de cores acaba tornar visualmente menos apelativo este trabalho em comparação a outros desenvolvidos pela autora. Existe um contraste quase brutal entre as cores da capa e do interior. Fica a ideia de que o trabalho seria mais apelativo visualmente tendo uma cor predominante, mas sem limitar a palete a essa cor, mas apesar desta opção estética e conceptual ser menos apelativa acaba por ser adequada à história em questão. Este facto pode parecer uma contradição, mas não é.

Existem situações em que um artista tem de optar entre soluções que resultam bem a nível visual mas não servem a história que tem de contar e outras que, sendo menos apelativas ou vistosas, funcionam melhor no contexto da narrativa.

As cores baças deste primeiro número criam um ambiente triste e desolado, algo que se adequa na perfeição à narrativa deste primeiro número. É um dos aspectos em que existe uma boa sinergia entre André Oliveira e Joana Afonso.

Em trabalho anteriores ilustrados por Joana Afonso e escritos por outros argumentistas, mesmo incluindo André Oliveira, existiam várias situações em que parecia existir um atrito entre a arte e a história que era contada, ficando a noção que existiam soluções a nível narrativo que seriam mais funcionais, mas que não tinham sido utilizadas por uma limitação da artista ou uma falta de comunicação entre os autores.

Nos seus trabalhos a solo, Joana Afonso tem revelado uma boa capacidade de construção de sequências narrativas, mas nos trabalhos em colaboração parecia presa a um guião que a deixava “amarrada” e o desenho acabava sem espaço para respirar em determinadas vinhetas e sequências narrativas.

Em Living Will existe uma harmonia entre o guião e a arte que permite ao desenho respirar, com uma planificação das pranchas fluida e bastante eficaz. Apesar de o texto ser um elemento preponderante, não existem vinhetas sobrecarregadas de texto, em que as legendas tapam a ilustração.

Este primeiro número é um bom aperitivo, resta agora ver o que nos aguarda nos próximos números.

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