Junji Ito: A Voz do Terror

Junji Ito
Um dos grandes mestres do mangá de terror, Junji Ito parece ser completamente desconhecido por cá.

A crescente edição de banda desenhada japonesa em português está muito focada para públicos juvenis, e as direcionadas para leitores mais conhecedores apostam de forma conservadora em autores clássicos, dentro de gostos mainstream, muito próximos dos europeus. O natural amadurecimento do mercado poderá ser uma oportunidade para trazer aos leitores portugueses autores de autores que trilham de forma brilhante caminhos menos convencionais.

Mestria do Terror de Junji Ito

Junji Ito

Recordo bem o meu primeiro encontro com Junji Ito. Estava às voltas nas estantes da FNAC, olhando para os mangás com olhar clínico, tentando encontrar algo que fosse em inglês e escapasse aos múltiplos volumes de Naruto e Dragonball atafulhados nas estantes. Foi nos tempos pré-Devir, em que os mangá que por cá se liam eram as traduções francesas da Glénat e algumas raras edições em inglês. À caça de obras que tivessem um cunho de ficção científica, deparei-me com um estranho título com edição da Dark Horse. Museum of Horror, por um tal de Junji Ito. Título sugestivo, pensei, capa curiosa, com uma típica lolita nipónica de ar profundamente tenebroso. Folheei-o, e surpreendi-me de imediato com o estilo gráfico perverso e visceral deste mangaká. Ao lê-lo, mergulhei numa visão do terror completamente diferente daquela a que estava habituado.

Os três volumes de Museum of Horror coligem as histórias de Tomie, o espírito malévolo de uma jovem assassinada, desmembrada por um homem por ela obcecado. Uma aparição que se compraz em torturar e fascinar até à loucura terminal as suas vítimas. Analisada em arco, esta é uma história que começa da forma tradicional mas acaba por nos levar para territórios inesperados. Inicia com o confronto ao espírito inquieto como forma de o tranquilizar e terminar a maldição. Algo que parece funcionar, mas Tomie regressa sempre, comprazendo-se em atazanar as suas vítimas. O que aparenta ser um conto clássico de obsessões e assombrações depressa resvala numa espiral crescente de terror, que vai do temor psicológico ao body horror mais visceral.

Houve aspetos em Tomie que me seduziram de imediato. A recusa da redenção foi um deles. Normalmente as histórias de assombrações terminam com o tranquilizar do espírito irrequieto. Tal não acontece em Tomie, que se compraz na maldade que provoca e se diverte com quem a tenta redimir. Outro aspeto foi a aleatoridade das ações do espírito malfazejo, que, novamente, fogem às convenções do género. Tomie não escolhe as suas vítimas para as castigar de crimes e maldades. Escolhe-as ao acaso, num puro gosto pela destruição humana. Entre estas características narrativas e  o traço de Ito, intenso, entre o grotesco e o realista, sempre em crescendos negros de imagens provocadoras de revulsão no leitor, nasceu uma das minhas paixões incondicionais em leitura de banda desenhada.

A obra de Junji Ito não se esgota em Museum Of Horror. É o autor dos seminais mangás de horror Gyo e Uzumaki, sendo um dos mangaká de terror mais influentes no Japão. No entanto, parece quase ignorado por cá. Se aos fãs mais conhecedores este nome não será desconhecido, parece-o a nível editorial. A edição de mangá por cá está em nítido crescimento, num excelente esforço da Devir, mas a aposta parece estar focada apenas no público juvenil. É uma excelente forma de conquistar novos públicos, mas não parece que a editora tenha levado ainda em conta que estes públicos amadurecem. A fórmula de mangá destinada ao público juvenil, eventualmente, esgotar-se-á, ou a edição ficará presa a um ciclo de renovação.

Já há alguns sinais de que a Devir está a olhar para outros públicos no domínio do mangá. A coleção Tsuru é um excelente indício disso, e iniciou com valores editoriais segurissimos. Se se quiser convencer alguém da maturidade da Banda Desenhada japonesa, especialmente aqueles que olham com descrédito para as diferentes vertentes, não há melhor autor a escolher do que o humanismo de Jiro Taniguchi. É como falar apaixonadamente de ficção científica e transreal mas recomendar Haruki Murakami. O autor é apropriado, mas de fora ficam muitas possibilidades. O foco parece ser nos autores mais próximos do espírito bedéfilo convencional, dentro dos padrões de gosto europeu.

Quanto a autores com obra a roçar os limites, seria interessante vê-los publicados por cá, em português. Estamos num mundo global e interligado, é muito simples para quem domina línguas estrangeiras e tem um cartão de crédito adquirir traduções online. Mas isso não supera o gosto de pegar num autor favorito traduzido na nossa língua, o gosto pelo acaso de entrar numa livraria, e ser surpreendido pelo folhear de um livro inesperada.

Foi assim que me deparei com as edições analisadas neste artigo. A explorar prateleiras em livrarias madrilenas especializadas em banda desenhada, descobri que a editora catalã ECC Ediciones está a editar a obra completa de Ito numa coleção específica. Alguns dos volumes são irresistíveis para um fã deste autor. A mala de viagem veio mais pesada com edições em castelhano de Frankenstein, Voces en Oscuridad e Relatos Terroríficos.

Frankenstein: Redescobrir o Clássico Europeu sob o olhar de Junji Ito

Junji Ito

Junji Ito realiza uma adaptação muito linear e fiel ao romance original de Mary Shelley. Começamos nos gelos do ártico, com o moribundo doutor Frankenstein, recolhido por um navio de exploração no final da sua trágica perseguição à sua criação. Fiel a Shelley, Ito narra a história num longo flashback. Pacientemente, num ritmo tranquilo, ilustra a vida bucólica do jovem Frankenstein, a sua paixão pela ciência, a obsessão pela criação de vida que o leva para lá dos limites morais, sobrepondo-se ao divino, o choque e horror quando contempla, pela primeira vez, a criatura que construiu meticulosamente a partir de pedaços de corpos. O horror é desenvolvido em crescendo, com a vingança da criatura perante o seu criador, e a sua vontade que ele lhe construa uma noiva, projecto que terá consequências trágicas e horripilantes. Ao acordar, a futura mulher da criatura desfaz-se no horror de ser ver feita de pedaços de corpos. O resto é bem conhecido. A criatura, que Ito mantém sem nome (apesar de Shelley lhe ter dado o nome de Adam no romance, como percursor de uma nova humanidade, elemento que depressa é esquecido face ao horror que desperta), vinga-se exterminando a família de Frankenstein, e este inicia a sua longa perseguição, que terminará nos gelos do ártico. A morte do doutor, febril, deixa a criatura temivelmente solitária, quebrado o único elo que tinha com a humanidade, o ódio que a movia contra o seu criador.

Os conhecedores da obra de Ito esperam, a todo o momento, o tipo de choques visuais que caracterizam a sua obra. Leitores de Tomie e Gyo sabem até que ponto Ito consegue ser escatológico. Em Frankenstein, temos elementos desses, com sequências a puxar ao gótico clássico, ficção fantástica final século XIX, ou vinhetas de revoltar o estômago, especialmente quando o doutor Frankenstein constrói as suas criaturas a partir de partes de corpos. Ou quando contemplamos a criatura, visceralmente horrenda nas suas cicatrizes e maltrapilha. Fugindo à tradição das adaptações do romance clássico da ficção científica e do terror, Ito respeita profundamente a obra de Shelley. A criatura é monstruosa, tem ações horrendas, mas não é o monstro, este é o doutor, cuja fé na ciência e vontade de transcender os limites da natureza e da moral é recompensada com um castigo tremendo. Não sendo uma obra com a visceralidade habitual deste autor, é uma profunda vénia a um mito fundador do cânone do terror.

Relatos Terroríficos: A Mestria do Conto Curto em Juni Ito

Junji Ito

Quatro histórias curtas, que em poucas páginas conseguem arrepiar os leitores. O horror em Ito pisa riscos, desafia expetativas e troca as voltas ao leitor. A antologia inicia com La Venta de la Casa de al Lado, sobre uma família que vai viver para uma casa nova e se depara com o mistério da sua vizinha, uma eremita que ninguém vê há mais de vinte anos. O filho adolescente é atormentado todas as noites pelo espectro deformado de uma mulher horrenda, que se parece aproximar progressivamente da sua janela. Ninguém acredita nele, até que a janela da casa vizinha parece querer sair em excrescência do seu lugar. Segue-se Lo que el Mar Arrastró a la Playa, onde uma criatura marinha gargantuesca dá à praia, morta. Muitos são os que se sentem misteriosamente atraídos e se deslocam até à praia para ver o monstro. Há medida que se decompõe, revela o conteúdo do seu estômago. Os sobreviventes de um naufrágio, engolidos pela criatura, sobreviveram anos dentro dela.

Segue-se Esporas Flotantes, onde estranhos esporos negros se começam a espalhar pela cidade. Esporos que apregoam os pensamentos mais íntimos dos habitantes, com todas as consequências humilhantes que isso traz. A antologia finaliza com Historia de la Sangre del Pueblo de Arenas Brancas, sobre um jovem médico que vai para uma vila isolada no Japão profundo, e surpreende-se com o ar constantemente emaciado dos seus habitantes. O isolamento é imenso, a cidade recusa-se a abrir vias de comunicação ou abrir-se ao exterior, os seus habitantes misterioso, emaciados e de olhos encovados, fazem-nos lembrar vampiros. Há, de facto, vampirismo na localidade, mas na tradição nipónica de horror escatológico, são raízes na própria cidade que sugam o sangue aos seus habitantes.

Estes quatro relatos de terror seguem a rigorosa metodologia narrativa de Ito, com estrutura muito rigorosa. É uma construção sustentada, em que os indícios de terror se vão sucedendo em crescendo até se tornarem opressivos. Dá-nos momentos visuais memoráveis, como a decaída mulher de La Venta de la Casa de al Lado, a biologia bizarra do monstro em Lo que el Mar Arrastró a la Playa, ou a ambiência e os habitantes de Historia de la Sangre del Pueblo de Arenas Brancas. Em Ito, o terror mede-se tanto pelo impacto visual sustentado da sua visceralidade como pela estranheza das suas histórias.

Voces en la Oscuridad: A Antologia Clássica de Junji Ito

Junji Ito

Talvez a obra que lançou Ito, estas vozes obscuras coligem histórias assinadas pelo mangaká para a revista Nemuki entre 2004 e 2006. São das melhores introduções que se pode ter à sua obra, antes do mergulho obrigatório em Tomie, Gyo e Uzumaki. Estas sete histórias despertaram a atenção dos leitores japoneses, e não deixam os europeus despercebidos.

A antologia inicia-se com Las Tinieblas Chupasangre, sobre uma jovem anoréxica que se cruza com um admirador seu. Este tem um hobby diferente do habitual. Toma conta de uma ninhada de morcegos, que alimenta com o seu próprio sangue. Estes morcegos regurgitam o seu sangue na boca da jovem, mantendo-a viva. Ao descobrir isto, a jovem horroriza-se, foge do seu admirador, que a persegue acabando colhido por um comboio. Os morcegos, desesperados por manter vivo o seu dono, sugam sangue de onde podem para o regurgitar nas partes despedaçadas do corpo, mantendo-o vivo de uma forma muito pouco natural. Segue-se Los Fantasmas del Primetime, onde duas comediantes sem nenhuma piada conseguem o feito de induzir risos descontrolados no seu público. O seu segredo é conhecido apenas por um jovem, que sabe que o que realmente provoca as gargalhadas são espíritos emanados pelas comediantes, que tantalizam os espectadores.

Em El Estruendo, dois jovens perdidos na floresta deparam-se com um assustador mistério. Surgida sem aviso, uma torrente de águas arrasta tudo à sua frente, sendo visíveis pessoas a afogar-se na enxurrada. Torrente que depressa desaparece, deixando os terrenos por onde passa estranhamente secos. Uma torrente que se repete, percebendo os jovens que estão perante uma aparição cíclica, de uma torrente que, no passado, varreu uma aldeia e vitimou a maior parte dos habitantes. Algo que talvez tenha relação com a vida de um deles, órfão cujas recordações mais antigas são a de uma extrema aversão à água. Já em El Misterio de la Casa Encantada, a pacatez de uma vila nipónica é quebrada pela chegada de uma estranha trupe, que toma conta de uma casa abandonada e a transforma num espectáculo de casa de horrores. E, de facto, a casa encerra temíveis horrores, provocados pela relação anti-natural do esguio promotor circense com uma mulher que é mais monstro do que carne humana.

Os horrores mais escatológicos seguem-se com Glicérido, onde uma jovem adolescente suporta a violência de viver com um irmão que a martiriza e um pai alheado, numa casa que se vai enchendo progressivamente de gordura. O pai de família tem uma churrasqueira no rés-de-chão da casa familiar, o que explica a acumulação de gordura. A violência progressiva do irmão mais velho leva-o à morte violenta, e o pai descobre que a carne humana adolescente temperada por uma vida no ambiente gorduroso permite belíssimos petiscos para os seus clientes. Sem a violência de revirar o estômago do conto anterior, mas também a mexer com as entranhas dos leitores, Los Enraizados mostra a cidade de Tóquio a ser afetada por uma  estranha epidemia. Pessoas parecem ganhar raízes, ficando imobilizadas em locais específicos. Não se recordam de como foram lá parar, e ninguém é capaz de as retirar de lá. Vão morrendo progressivamente petrificadas. O mistério é o porquê dos locais. Uma jovem voluntária irá descobrir que as vítimas deste mal se enraízam em locais onde provocaram, secretamente, crimes violentos.

A antologia finaliza em toque de violência escatológica com La Llamada del Condenado, sobre as reações de uma família vitimizada na estrada por um bando de criminosos violentos, ao melhor estilo Mad Max (original), matando alguns dos seus membros. O cabecilha do gangue é condenado à morte pelos eventos, e aí começa o segundo tormento da famíla. Todas as noites o espírito do condenado aparece à porta da casa, suplicando perdão, levando os membros sobreviventes da família à loucura. Um suplício que só termina com a execução do condenado.

Amadurecimento de Leitores e Edição

É algo deprimente saber que entre a oferta crescente de mangá que se encontra nas bancas e livrarias portuguesas, muito dificilmente se encontrará a obra de Junji Ito. Talvez o mercado mude, com o amadurecer dos leitores, que não ficarão eternamente contentes com títulos shōnen. A Devir pode renovar constantemente os seus leitores, e é bom que isso aconteça. Na minha vida profissional enquanto professor, assisto nos meus alunos a uma crescente tendência de predileção pelos produtos culturais japoneses, que se traduz num fandom crescente de mangá e anime. É uma tendência que tem sido bem explorada pelo trabalho de edição, com crescente quantidade e diversidade de títulos traduzidos e publicados.

Não resisto a contar uma pequena história de arranque de ano letivo. Cruzo-me nos corredores com um jovem que quis trazer o seu irmão mais novo a conhecer a escola onde irá passar o resto do ano. Um comentário que fiz à sua t-shirt acabou numa discussão sobre a profundidade filosófica de Tokyo Ghoul. Os seus olhos brilhavam enquanto me dizia o quanto estes livros o tinham tocado. Sorri. É excelente ver públicos a formar-se, fãs que encontram no mercado resposta à sua curiosidade literária. Mas esses fãs vão evoluir, com consequências para a sua dieta mediática. A aposta noutros géneros de mangá está a acontecer, a passos cautelosos, pessoalmente espero que cresça. Se no inevitável dilúvio de Tezuka, Taniguchi e Tatsumi aparecer um ou dois Juni Ito, este fã ficará muito agradecido. E encontrará espaço nas estantes para as edições portuguesas, ao lado das espanholas, francesas e americanas.

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