José Garcês: 70 Anos de Serviço Público

A propósito da justa homenagem patente na Biblioteca Nacional, recupero, com adaptações e atualizações, um artigo publicado na extinta Selecções BD

José dos Santos Garcês nasceu em Lisboa no dia 23 de Julho de 1928. Descobriu o mundo da banda desenhada com o nº 50 d’O Mosquito (de 24 de Dezembro de 1936) que lhe foi oferecido por incluír uma rubrica de construções de armar. “Na altura eu já tinha a mania das construções de armar, e pedi aos meus pais para me passarem a comprar O Mosquito, e assim passei a ser um leitor assíduo”. Depois da criação do primeiro fanzine português, O Melro, e de uma passagem pelo Pluto, inicia a sua actividade profissional na BD em 1946 n’O Mosquito, pela mão de Rodrigues Alves, o seu mestre de desenho e litografia da Escola de Artes Decorativas António Arroio onde frequentou e concluiu o Curso de Desenho e Artes Gráficas. “Na António Arroio, aprendia-se publicidade, desenho publicitário (pouco), e aprendia-se a desenhar letras e todos os pormenores ligados às artes gráficas. Na altura era através da famosa pedra litográfica; ainda não se falava no ‘off-set’. A partir disso, havia uma cadeira de desenho e uma cadeira de pintura”. Ainda na António Arroio, Garcês é o autor de uma construção de armar de uma cidade com que a Escola ganha um prestigioso prémio. É também através de Rodrigues Alves que começa a colaborar com o jornal O Século (de 1959 a 1973). “Era realmente a pessoa que mais influência teve sobre a minha geração, que passou pelas Artes Gráficas da António Arroio. Era um homem que tinha uma formação artística muito avançada para a época, e que imediatamente encaminhava os seus alunos que manifestavam algum interesse”.

José GarcêsDesde o início da sua participação n’ O Mosquito, Garcês cedo se vai afirmando como um dos mais influentes autores da era pós-Bordallo Pinheiro e de uma escola que sob a influência da “golden age” norte-americana (concretamente de Raymond, Foster ou Hogarth), construiu aquela a que hoje também se chama a época de ouro da banda desenhada portuguesa.

A partir do início n’ O Mosquito, o seu trabalho está representado na quase totalidade das revistas de BD portuguesas: Camarada, Lusitas, Fagulha, Papagaio, Cavaleiro Andante, Falcão, Foguetão, Pardal, Titã, Zoom, Pisca-pisca, Tintim, Mundo de Aventuras, Jacto, Girassol, Fungagá, etc.. O autor publica mais de três dezenas de álbuns, com destaque para os quatro volumes da História de Portugal em BD , o grande bestseller da BD nacional.

Centrando-se sobretudo na banda desenhada documental, José Garcês tira o máximo proveito da sua evolução pessoal e profissional, desenvolvendo diversos campos de especialização: as construções de armar, as fardas militares, os animais (no sentido da preservação da natureza) e, naturalmente, a História de Portugal. Especializações dentro de especializações revelam-se os alabastros ingleses e outros instrumentos musicais, os tigres e os Descobrimentos. A sua obra revela ainda outros assuntos de interesse para os estudiosos da banda desenhada, designadamente o tratamento peculiar da figura feminina.

Garcês atribui muita da responsabilidade de um trabalho documental à fase da pesquisa. Conhecendo onde e como procurar a informação pretendida, “na Torre do Tombo, na Biblioteca Nacional, no Museu Militar, etc., estava à vontade para o que fosse”. Daí que encomendas aparentemente mais complicadas como os instrumentos musicais da Idade Média, tenham sido recebidas com naturalidade e o entusiasmo de sempre. Com os animais como com a História, José Garcês encara a banda desenhada documental como um serviço público.

José Garcês recebeu o Troféu Honra do Festival Internacional da Amadora em 1991. Participou em colóquios e cursos de iniciação à banda desenhada, recebeu inumeros prémios e homenagens, incluindo a Medalha Municipal de Mérito e Dedicação, da Câmara Municipal da Amadora (1991) e um diploma de louvor do Presidente da República (2009). Integrou a representação portuguesa em vários festivais internacionais com destaque para Lucca, nas edições de 1978, 1980, 1982, 1984, 1986 e 1990 (este último como convidado de honra). Deu o nome a uma escola e a uma rua da Amadora.

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