José de Freitas e a “força” da Kingpin Books

E quando se aclama a  «força» de uma editora como a Kingpin, que mais estamos fazer senão a confirmar a quase morte da BD no nosso país? Isto nada tem a ver com a qualidade das edições da Kingpin ou do projecto editorial, mas se considerarmos as tiragens e vendas… Em muitos países estaríamos a falar de fanzines de qualidade e não de edições regulares… Pode ser que dê o salto para uma visibilidade maior no mercado, mas tal ainda não está provado.”

Um comentário proferido por José de Freitas, ex-editor da Devir, à Central Comics a propósito do mini-boom editorial do momento. Apesar de isto poder não agradar alguns é um facto e um reflexo da triste realidade do “mercado” nacional de banda desenhada.

A “força” da Kingpin é só aparente, em grande parte fruto da (auto-)promoção quase desmedida que o Mário Freitas realiza. Sendo um livreiro profissional, especializado em banda desenhada, o Mário Freitas desdobra-se depois em organizador de eventos (Anicomics e PPBD), editor e autor. Este facto faz com que o Mário Freitas/Kingpin tenham uma visibilidade maior que outras (pequenas) editoras, não o resultado de a editora ter tiragens significativas (e volume de vendas associado) ou sequer por publicar um número elevado de obras.

Em 2012 a Kingpin Books editou um álbum: “O Baile” de Nuno Duarte e Joana Afonso, este ano vai editar 5 álbuns, contudo à semelhança de edições anteriores, são álbuns com tiragens de 300  400 exemplares. A tiragem global de 5 àlbuns da Kingpin é 1,500 3,100 exemplares, durante muitos anos essa era a tiragem “normal” de UM dois álbuns. A Polvo foi desconsiderada durante muitos anos porque a tiragem média dos seus álbuns era de 500 exemplares, apesar de existirem alguns álbuns que tinham tiragens superiores e mais do que uma edição. Os tempos mudam.

Hoje a triste realidade é que as (pequenas) editoras que publicam autores nacionais: Polvo, Kingpin, El Pep, Pedranocharco, a do Marcos, Insónia ou Chilli Com Carne tem tiragens de 300/500 exemplares, havendo casos em que pode até ser menos. Estamos a falar de tiragens irrisórias, em particular para os autores que no fim do dia dão uns autógrafos e com sorte ficam com uns trocos para pagar um café. Por muitos prémios profissionais que lhes ofereçam não é isso que vai permitir aos autores encararem a BD como uma profissão. Na tiragens (e vendas) que permitam a remuneração do trabalho realizado, a BD continuara a ser só um hobby para Ama Dores.

Algo que também se irá reflectir numa editora que pretenda investir de modo regular na edição de BD de autores nacionais que pretenda encarar a aposta nestes de um modo sustentado, sem ser como simples ferramenta promocional. Por vezes é necessário encarar os factos para se poder evoluir em vez de se continuar na espiral recessiva da última década.

ACTUALIZAÇÃO: Nos comentários o Mário corrige as informações que tenho em relação ás tiragens da Kingpin. “O Baile” teve uma tiragem de 400 exemplares e não de 300. A Kingpin já não deverá editar 5 álbuns este ano mas 4, com uma tiragem global prevista de  tiragem global de tiragem prevista de 3 100 exemplares se forem 5 álbuns, o que dá uma tiragem média de 620 exemplares. Com é provavel só serem editados 4 álbuns a tiragem global da Kingpin deverá de ser de 2 400 com uma tiragem média de 600 exemplares. O que altera muito pouco na questão da subsistência dos autores.

Autor, editor, procrastinador profissional e irresponsável mor.

6 Comments

  1. Cumpre-me fazer uma correcção: O Baile teve 400 exemplares de tiragem; o Super Pig: Roleta Nipónica e o Vamos Aprender tiveram 500, e os próximos 3 a sair (Palmas Para O Esquilo, Super Pig: O Impaciente Inglês e o Hawk, este último provavelmente só ficará pronto para início de 2014) terão 700 exemplares cada um. Os teus “1500” pelo total dos 5 são afinal 3100, mais do dobro.

    Esperava sinceramente mais de ti, Bruno, porque és, ou tens a mania que és, um gajo informado, e deste uma argolada digna do Machado-Dias. Além disso, falas regularmente comigo, pelo que era questão de me teres consultado antes de publicares esses números errados,

    De resto, responder-te-ei pessoalmente quando a outros disparates “desmedidos” que aqui proferes. E reafirmo: esperava muito mais, e muito melhor, de ti.

  2. Parabéns pelo aumento das tiragens, e obrigado pelos “elogios”. Desculpa a falha de memória é que lembro-me de ter perguntado e fiquei com os 300 na memória. Esse aumento de 100 e 200 exemplares nas tiragens é um bom sinal, apesar de só nos próximos álbuns as tiragens passarem de 300 para 700.

    Aumentos de 100% ou 200% são significativos e soam bem, mas se a base for pequena perdem algum impacto.

    Lamento o atraso no Hawk, mas provavelmente está relacionado com este facto que menciono:
    “Por muitos prémios profissionais que lhes ofereçam não é isso que vai permitir aos autores encararem a BD como uma profissão. Na tiragens (e vendas) que permitam a remuneração do trabalho realizado, a BD continuara a ser só um hobby para Ama Dores.”

    O Osvaldo apesar de ser um artista de qualidade e produtivo, precisa de fazer outros trabalhos para pagar as contas, pelo que os projectos de BD ficam sempre em segundo plano quando existem prioridades nos projectos que garantem o seu sustento.

    Fico feliz pela notícia que vais fazer dois ou três álbuns com tiragens de 700 exemplares, mas ficava mais contente se fosse a notícia de que os álbuns anteriores vão ter segundas edições de 300 exemplares, isso era sinal de um aumento na procura pelos álbuns publicados, e não um aumento no investimento por parte do editor que vai arriscar lançar álbuns com tiragem superiores.

    Quanto aos “disparates desmedidos” podes comentar e corrigir publicamente para os leitores poderem ficar a conhecer os dois lados da questão e saberem a verdade.

  3. Não. Continuas a ler mal. Não passou de 300 para 700. Passou de 300 para 400 (Pequeno Deus Cego, juntando a 2ª edição, e Baile), de 400 para 500 (Roleta e Vamos Aprender) e agora de 500 para 700 (os 3 próximos).

  4. Só para ver se eu não li mal, “O Pequeno Deus Cego” teve uma tiragem de 400 exemplares com 2 edições (tendo sido editado em 2011) vai haver outra edição? É que tendo em conta que o “Palmas Para O Esquilo” vai ter uma tiragem de 700 exemplares, e é dos mesmo autores este aumento de tiragem reflecte um aumento do investimento um vez que a tiragem inicial do álbum vai ser superior à do álbum anterior dos mesmo autores editado 2 anos antes.

    Aliás até me parecia lógico editar um nova edição de 300 exemplares desse álbum para vender a esse público que esperas haver e que ao comprar o Palmas não vai poder encontrar o Deus. Ou agora a Kingpin já é grande demais para fazer edições de 300 exemplares?

    Já agora, disse algum disparate ao mencionar que o atraso do Hawk era o facto de o Osvaldo ter que fazer outros trabalhos para pagar as contas, porque as tiragens e vendas dos álbuns da Kingpin (neste caso) em particular são minúsculas para justificarem abdicar de trabalhos profissionais Pagos.

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